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Não há razão para falar em calamidade global inevitável

Posted By Imprensa On 4 novembro, 2008 @ 1:47 pm In Conjuntura,Desenvolvimento,Destaques da Semana,Política Econômica | No Comments

[1]Jeffrey D. Sachs

Fonte: Valor Econômico, 27/10/2008

Esta crise econômica mundial ficará registrada na história como a “Insensatez de Greenspan”. Esta é uma crise feita principalmente pelo Federal Reserve Board (banco central) dos Estados Unidos durante o período do dinheiro fácil e da desregulamentação financeira de meados de 1990 até hoje.

Essa política do dinheiro fácil, respaldada por reguladores que fracassaram em regular, criou bolhas habitacionais e de crédito ao consumidor sem precedentes nos Estados Unidos e nos demais países, especialmente naqueles que compartilhavam a orientação política dos EUA.

Agora a bolha estourou, e essas economias estão rumando para uma profunda recessão.

O núcleo desta crise foi o aumento repentino nos preços das ações e moradias, que estavam em descompasso com os padrões de referência históricos. Greenspan alimentou duas bolhas: a bolha da internet de 1998-2001 e a bolha habitacional subseqüente, que está estourando agora.

Nos dois casos, os aumentos nos valores dos ativos levaram as famílias dos Estados Unidos a acreditar que se tornaram muito mais ricas, tentando-as a aumentar enormemente os seus gastos e empréstimos – para casas, automóveis e outros bens de consumo duráveis.

Os mercados financeiros estavam ansiosos para emprestar a essas famílias, em parte porque os mercados de crédito estavam desregulamentados, o que serviu como um convite para a concessão de empréstimos temerários.

Devido à forte expansão nos preços das moradias e ações, o patrimônio líquido das famílias dos Estados Unidos, por sua vez, aumentou em US$ 18 trilhões durante 1996-2006. O aumento no consumo baseado nessa riqueza, por sua vez, elevou ainda mais os preços das residências, convencendo famílias e instituições financeiras a inflar a bolha em mais um grau.

Tudo isso desmoronou. Os preços das moradias chegaram ao auge em 2006 e os preços das ações atingiram sua mais alta cotação em 2007. Com o colapso dessas bolhas, uma riqueza no papel, de talvez US$ 10 trilhões, ou até mesmo US$ 15 trilhões, será eliminada.

Várias coisas complexas estão acontecendo agora simultaneamente. Primeiro, as famílias estão reduzindo radicalmente o consumo, já que se sentem – e estão – muito mais pobres do que estavam há um ano. Segundo, várias instituições extremamente alavancadas, como o Bear Stearns e o Lehman Brothers, faliram, causando perdas adicionais de patrimônio (dos credores e acionistas destas instituições falidas) e uma perda adicional do crédito que essas firmas forneceram no passado.

Terceiro, bancos comerciais também perderam pesadamente nessas transações, eliminando grande parte do seu capital. À medida que seu capital declina, declinam também os seus empréstimos futuros. Quarto e por último, a falência do Lehman Brothers e a quase falência da gigante de seguros AIG, incentivaram um pânico financeiro, no qual mesmo firmas sadias são incapazes de obter empréstimos bancários de curto prazo ou vender “commercial paper” de curto prazo.

O desafio para os formuladores de política será restaurar suficiente confiança para que as empresas possam mais uma vez obter crédito de curto prazo para atender às suas folhas de pagamento e financiar os seus estoques. O desafio seguinte será pressionar por uma restauração do capital dos bancos, para que os bancos comerciais possam mais uma vez conceder empréstimos para investimentos de curto prazo.

Mas estas medidas, embora urgentes, não evitarão uma recessão nos EUA e demais países afetados pela crise. É improvável que o mercado habitacional e acionário se recupere num futuro previsível. As famílias estão consequumlentemente mais pobres, e reduzirão acentuadamente suas despesas, tornando uma recessão inevitável no curto prazo.

Os EUA serão o país mais duramente atingido, mas outros países com fortes expansões (e agora recessões) recentes nos setores de habitação e consumo, especialmente Reino Unido, Irlanda, Austrália, Canadá e Espanha, também serão afetados. A Islândia, que privatizou e desregulou os seus bancos há alguns anos, hoje enfrenta a bancarrota nacional, pois os seus bancos não terão condições de saldar suas dívidas como os credores estrangeiros que emprestaram pesadamente a eles. Não é coincidência que, à exceção da Espanha, todos esses países aderiram explicitamente à filosofia de “livre mercado” e de sistemas financeiros sub-regulamentados dos EUA.

Seja como for, porém, o sofrimento sentido nas desregulamentadas economias ao estilo anglo-saxônico, nada disso deverá inevitavelmente causar uma calamidade global. Não vejo nenhum motivo para uma depressão global, ou mesmo uma recessão global. Sim, os EUA experimentarão uma queda na renda e uma vigorosa alta no desemprego, diminuindo as exportações do resto do mundo para os EUA. Mas ainda existem muitas outras partes do mundo que crescem. Muitas economias de grande porte, como China, Alemanha, Japão e Arábia Saudita, possuem superávits muito expressivos e, portanto, têm emprestado para o resto do mundo (especialmente para os EUA), em vez de tomarem empréstimos.

Esses países estão abarrotados de dinheiro e não estão sobrecarregados pelo colapso de uma bolha habitacional. Apesar de suas famílias terem sofrido de certa forma com a queda nos preços das ações, elas não só podem continuar crescendo, como também podem elevar a sua demanda interna para compensar a queda das suas exportações aos EUA. Elas deveriam agora reduzir impostos, facilitar condições de crédito e aumentar os investimentos do governo em estradas, energia elétrica e moradia popular. Elas possuem suficientes divisas estrangeiras para evitar que o risco de instabilidade financeira aumente os seus gastos domésticos, contanto que o façam de forma prudente.

Quanto aos EUA, o inegável sofrimento atual de milhões de pessoas, que aumentará no próximo ano, à medida que o desemprego aumentar, é uma oportunidade para repensar o modelo econômico adotado desde a posse do presidente Ronald Reagan em 1981. Impostos baixos e desregulamentação produziram uma farra de consumo que gerou uma sensação agradável, mas que também produziu uma enorme disparidade de renda, uma enorme subclasse, pesados empréstimos do exterior, desprezo pelo meio ambiente e a infra-estrutura e, agora, uma enorme confusão financeira. É chegada a hora de elaborar uma nova estratégia econômica – em essência, um novo New Deal.


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[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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