Energia renovável está nos planos dos EUA, mas criará os empregos previstos?
Escrito por Imprensa, postado em 8 dEurope/London novembro dEurope/London 2008
Iniciativa pode representar a melhor chance em muitos anos de traduzir pensamento em ação no caso da energia renovável, com os americanos famintos por empregos e por uma solução duradoura para o problema energético.
Há tempos que as propostas de uma política de energia renovável nos EUA trombam com o preço estimado das medidas. Agora, o custo de fazer a transição – centenas de bilhões de dólares – é anunciado como uma grande vantagem.
Num debate que provavelmente vai ganhar destaque nos próximos meses, o presidente eleito Barack Obama e seus assessores de energia têm argumentado que um investimento governamental bilionário em coisas como turbinas eólicas e uma malha elétrica “inteligente” é exatamente o que o país precisa para sair da crise econômica. A isca são os milhões de empregos subsidiados pelo governo nesse setor “verde”.
Durante a campanha, Obama argumentou que gastar US$ 150 bilhões nos próximos dez anos para cortar o desperdício e incrementar as fontes renováveis ajudaria a criar 5 milhões de empregos – de instaladores de isolamento térmico (para diminuir o desperdício de energia nas casas) e fabricantes de turbinas eólicas (para substituir termelétricas a carvão) a vários tipos na construção civil (para construir casas mais ecológicas e melhorar a rede elétrica).
Mas os números disso são na verdade bem discrepantes. Vários estudos chegaram a conclusões completamente diferentes sobre quanto dinheiro seria necessário e qual será o número total de empregos “verdes” que podem ser criados.
Qualquer que seja o número exato, porém, esse audacioso plano pode representar a melhor chance em muitos anos de traduzir pensamento em ação no caso da energia renovável, com os americanos famintos por empregos e por uma solução duradoura para o problema energético.
“De repente surge este momento”, diz Bracken Hendricks, assessor de energia de Obama e membro do Centro para o Progresso Americano, centro de estudos esquerdista, de Washington. “Estamos numa situação terrível, mas é empolgante que essas questões estão recebendo alguma atenção.”
O argumento em favor dos empregos “verdes” se apóia na noção de que investimentos em tecnologia de novas energias serão mais do que compensados pela economia futura com a redução nos gastos com combustíveis fósseis.
Embora a cotação do petróleo tenha caído ultimamente, a Agência Internacional de Energia previu num relatório anual divulgado ontem que, quando a economia mundial se recuperar, o petróleo voltará a subir, possivelmente chegando a US$ 200 o barril até 2030.
Um dos principais argumentos para se investir em energia limpa como a base de um plano econômico é que o setor é novo e está crescendo rapidamente. Diferentemente do setor de combustíveis fósseis, que teve décadas para amadurecer, os de energia renovável e de redução de desperdício estão começando a construir sua infra-estrutura básica – turbinas eólicas, painéis solares e uma rede de transmissão mais sofisticada.
O resultado disso é que vários estudos calculam que cada dólar investido em energia renovável ou no combate ao desperdício renderia até quatro vezes mais empregos que o mesmo dólar investido em petróleo e gás natural, cuja estrutura básica de poços, refinarias e oleodutos já existe há anos.
Além do mais, afirmam esses estudos, os empregos ligados a energia limpa provavelmente estarão centrados nos EUA – diferentemente, por exemplo, do setor petrolífero, em que os empregos estão cada vez mais fragmentados pelo mundo.
Críticos dizem que analisar apenas os empregos “verdes” é ignorar outros aspectos da questão. “É como ignorar o outro lado da moeda: vai se gastar mais para obter a mesma energia”, diz Anne Smith, diretora da CRA International. A consultoria preparou em abril um relatório sobre o setor carvoeiro e concluiu que, se o governo limitar as emissões de gases do efeito estufa – o que ela considera provável -, os ganhos com empregos “verdes” serão “mais que anulados” pelas perdas no resto da economia.
O número de novos empregos citado por Obama se baseia em vários estudos. Cada um prevê números diferentes, porque presume coisas diferentes, como por exemplo o número de empregos adicionais que seriam criados pelos gastos de cada uma das pessoas que conseguisse um desses empregos.
Em setembro, quando a questão se tornou um dos temas na campanha presidencial, o Centro para o Progresso Americano divulgou um estudo afirmando que o investimento de US$ 100 bilhões em dois anos poderia criar 2 milhões de empregos “verdes”.
Mesmo Robert Pollin, professor da Universidade de Massachusetts e um dos autores do estudo, diz que os 5 milhões de empregos propagandeados por Obama “não fazem nenhum sentido”. O estudo de Pollin analisou apenas o número de empregos que seria criado se o governo investisse mais em programas de energia limpa. Ele não levou em conta os empregos que seriam perdidos se o país adotasse fontes de energia mais caras.
Pollin diz que está trabalhando num estudo mais completo. Mas ele e outros defensores dos empregos “verdes” dizem que, ao final, adotar energias mais limpas cria mais empregos do que elimina.
O argumento em favor dos empregos “verdes” não é novo. Nos anos 70, em meio às crises econômica e energética da época, o presidente Jimmy Carter (1977-81) citou a criação de empregos como argumento em favor de seu plano de aumentar o investimento governamental em pesquisa e desenvolvimento de fontes renováveis.
O argumento ganhou nova vida nos últimos anos, depois que os ambientalistas chegaram à conclusão de que salvar o planeta não é suficiente para fazer com que a maioria dos americanos apóie aumento nos gastos do governo.
A Aliança Apollo, coalizão de grupos trabalhistas e ecologistas sediada em San Francisco, divulgou em setembro um novo estudo. Ele concluiu que 5 milhões de empregos seriam criados com investimento de US$ 500 bilhões. Kate Gordon, vice-diretora da Apollo, diz que os números são menos importantes do que a mensagem.










