Economistas sugerem controle internacional das finanças
Escrito por Imprensa, postado em 9 dEurope/London novembro dEurope/London 2008
Reunidos no Rio de Janeiro, o diretor da UNCTAD, Heiner Flassbeck, e renomados economistas como Paul Davidson, Massimo Pivetti e Luiz Carlos Bresser-Pereira criticam o pensamento econômico dominante e dão suas receitas para combater a especulação causadora da crise financeira. Para eles, opção global pela especulação produziu fragilidades financeiras inéditas na história.
A atual crise financeira global demonstra que a cultura da especulação chegou ao seu limite e aponta para a urgente necessidade de se criar um novo mecanismo internacional de controle das finanças e fluxos de capital. Essa foi a mensagem transmitida por renomados economistas que participaram do simpósio internacional “Perspectivas para o Desenvolvimento no Século XXI”, organizado pelo Centro Internacional Celso Furtado e realizado nos dias 6 e 7 de novembro no Rio de Janeiro.
Após mencionar o exemplo da Islândia, país considerado rico, mas que quebrou na atual crise por ter apostado durante os últimos anos na especulação com títulos e derivativos de outros países, o diretor da Divisão de Estratégia e Globalização da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês), Heiner Flassbeck, foi taxativo: “Essa opção global pela especulação produziu fragilidades financeiras numa dimensão muito maior do que jamais havíamos produzido”, disse.
Flassbeck afirmou que, nos últimos anos, a especulação cresceu de forma descontrolada também em relação ao preço dos alimentos e do petróleo e que muitos grupos financeiros cristalizaram o hábito de especular com a taxa de câmbio, atuando contra as moedas nacionais: “Deveríamos criar um sistema monetário internacional que possa levar as taxas cambiais na direção certa. É preciso adotar uma política internacional que interrompa imediatamente esse processo especulativo com as moedas e as commodities”, disse o diretor da UNCTAD.

Professor da Universidade do Tenessee e do Centro de Análises de Políticas Econômicas da New School of Social Research de Nova York, Paul Davidson lembrou dois ícones do Século XX, Albert Einstein e John Maynard Keynes, para analisar a atual crise financeira: “Os cientistas consideravam o tempo e o espaço como coisas distintas e sem influência mútua, mas Einstein elaborou a Teoria da Relatividade e demonstrou que não. Alguns economistas acreditam que o mercado produtivo e as finanças também são coisas separadas. Keynes, no entanto, já havia alertado que mercado produtivo e finanças interagem continuamente. Esta crise comprova isso”.
Davidson defendeu a criação de “uma câmara internacional bancária e de controle do câmbio” e, novamente citando a teoria keynesiana, propôs a adoção de um sistema de socialização dos investimentos: “O mercado financeiro deve proporcionar liquidez para empresas e pessoas, e os bancos centrais de cada país devem controlar o mercado financeiro”, disse o economista norte-americano.
Professor da Fundação Getúlio Vargas, o ex-ministro brasileiro Luiz Carlos Bresser-Pereira sugeriu a criação de Fundos Soberanos nos países em desenvolvimento e também defendeu a adoção de um mecanismo internacional de controle das finanças: “É necessário criar um órgão que atue como guardião da conta-corrente”, disse.
Bresser fez dura crítica ao pensamento econômico neoliberal: “A macroeconomia neoclássica é inútil e perigosa, ela é ideológica. A Teoria Econômica Neoclássica é uma meta-ideologia que, em sua forma moderna, legitimou a apropriação do excedente econômico por uma classe de tecnocratas, associados aos capitalistas, que ganham bônus e comissões e mais bônus e comissões em cima desse processo especulativo”, disse. O ex-ministro acrescentou que, nos últimos anos, a especulação “foi criando uma montanha de créditos e inventando riquezas fictícias”.
Economista da escola keynesiana, Paul Davidson fez uma palestra onde analisou o processo econômico e financeiro que levou os EUA a protagonizar a atual crise global. Ele afirmou que “durante décadas, os bancos norte-americanos eram obrigados a optar entre trabalhar com créditos ou trabalhar com investimentos, fato que mantinha a especulação financeira sob certo controle”.
Esse cenário começou a mudar, segundo Davidson, a partir de 1978, quando houve uma primeira onda de liberalização na área de créditos: “Várias instituições, até então impedidas, passaram a emitir títulos de crédito. Criou-se então o que chamamos de sistema bancário marrom. Naquele momento, há 30 anos, começou lentamente o processo que culminou na crise dos subprime”, explicou.
Um segundo impulso, segundo Davidson, ocorreu em 1987, quando o Federal Reserve (banco central dos EUA), já surfando a crista da onda neoliberal, determinou que não poderia mais haver qualquer regulação da atividade bancária no país: “Fizeram isso sob o argumento de que os bancos norte-americanos precisavam obter condições de competir com os bancos europeus. Essa decisão afrouxou a fiscalização sobre os bancos de investimentos, que passaram a atuar na concessão de créditos”.
Após a liberação, algumas instituições, segundo o economista “passaram a utilizar todo o tipo de idéia fraudulenta para vender hipotecas a quem não podia comprar uma casa”. Com o passar dos anos e o fim dos clientes “Triplo C” (aqueles com as maiores rendas), as instituições passaram a assediar a classe média e, em seguida, o público de renda mais baixa, que recebeu a denominação de subprime.
Para garantir o crédito, as instituições passaram a negociar derivativos também no exterior: “Bancos como o Goldman Sachs, o Merryl Linch e o Lehamnn Brothers venderam no mundo inteiro, para fundos de pensão, fundos municipais, outros bancos, empresas e até pessoas físicas. Diziam que, com a liquidez garantida, adquirir seus papéis era melhor do que ter dinheiro vivo”, disse Davidson.










