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Crise do liberalismo ou crise do capitalismo?
Posted By heldojr On 20 novembro, 2008 @ 10:08 am In Heldo Siqueira,Pleno Emprego | 1 Comment
Quando Adam Smith escreveu sua “Riqueza das Nações” salientou, entre outras coisas, as vantagens da divisão do trabalho. O processo de particionamento e especialização da produção a tornava mais eficiente e rápida. Algum tempo depois, Karl Marx relembrava que o sistema capitalista levava a divisão do trabalho até as últimas conseqüências[1] [1]: praticamente nenhuma produção tem fim em si mesma. Geralmente, as empresas produzem para revender a outras utilizarão como insumos para a montagem de outras mercadorias. Em última instância, o sentido da produção com certeza é o consumo das famílias, mas um intrincado sistema de negociações entre empresas precede o destino final das mercadorias. Essa característica faz com que qualquer atividade de investimento seja uma atividade de especulação, já que a maioria das empresas depende da demanda de outras para escoar sua produção.
Por outro lado, ao decidir fazer um investimento, o empresário não pensa na demanda atual, mas na demanda que espera para quando sua firma estará em funcionamento. Afinal, há um espaço de tempo entre a decisão de investir e o efetivo funcionamento da firma. Além disso, como esses prazos variam entre os setores da economia, há, em via de regra, um descasamento entre a oferta potencial dos vários setores. Em um ambiente de prosperidade econômica, é natural que os empresários esperem a ampliação de suas vendas, de maneira que projetam suas plantas para anteciparem-se à demanda.
Portanto, para viabilizar o funcionamento do sistema, é imprescindível ligar as necessidades de produção futuras com as decisões de investimento presentes. O sistema de crédito faz esse papel, permitindo que haja ampliação da capacidade produtiva antecipadamente à necessidade real de recursos. Dessa forma, há uma implantação excessiva de capacidade produtiva, baseada na especulação sobre o crescimento da demanda.
A base desse sistema de crédito é a riqueza sobre o qual está lastreado. Afinal, o crescimento da produção depende, irremediavelmente, da produção anterior. O sub-produto da expansão dada pelo crédito é uma distorção nos preços relativos, já que alguns setores expandem-se antes dos outros.
Quando há a reversão da expectativa de prosperidade, toda a lógica se inverte. Num primeiro momento, há uma retração no consumo, ou a percepção de que alguns preços estão relativamente elevados. Há um retrocesso relativo de alguns preços, de forma que há um encolhimento relativo da riqueza sobre a qual está lastreado o crédito. A revisão dos agentes quanto à demanda futura propaga o efeito da diminuição do consumo.
Mas o sentido de iniciar o processo produtivo é suprir alguma necessidade humana. Assim, o nível de emprego é a variável chave para determinar o crescimento produtivo do sistema, pois de maneira geral, amplia a ambição das pessoas em relação a comprar mais mercadorias. Portanto, se no rebote do pessimismo os empresários eliminarem alguns postos de trabalho o problema se agrava. Afinal, as novas expectativas diminuem a demanda por novos investimentos e o nível de emprego diminui novamente.
Esse desencontro entre oferta e demanda pode ser resolvido de duas formas: 1) uma deflação severa, que elimine a oferta excessiva; ou 2) a manutenção (ou aumento) da demanda por parte do governo (que de maneira geral pode ser considerada autônoma). A idéia de contrair a demanda governamental no momento da crise amplifica os efeitos negativos sobre a demanda agregada. Assim, se a queda do produto resulta de uma decisão dos empresários em não gastar, uma parte da solução passa pela decisão do Estado de assumir o compromisso de gastar pelos empresários (seja tributando ou tomando emprestado).
[1] [2] Não estou argumentando que a divisão do trabalho acontece apenas no sistema capitalista, apenas que no sistema capitalista ela é levada ao extremo.
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1 Comment To "Crise do liberalismo ou crise do capitalismo?"
#1 Comment By heldojr On 21 novembro, 2008 @ 4:06 pm
Amigos,
acabei esquecendo de dar os créditos para o economista que contribuiu fazendo a revisão do artigo, meu amigo Rodrigo Straessli P. Franklin.
Abraços