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Dúvidas do Congresso

Posted By Imprensa On 5 outubro, 2008 @ 6:59 pm In Conjuntura,Internacional,Política Econômica | No Comments

[1]Delfim Netto

Carta Capital [2]

Quem acompanhou com algum cuidado a evolução da crise financeira que parecia restrita às hipotecas subprime, mas que acabou por se revelar uma pirâmide de papéis podres, enfrentou surpresas diárias. Por exemplo, em 23 de setembro, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, declarou candidamente, na Comissão de Bancos, Habitação e Problemas Urbanos do Senado, quando defendia o plano de salvamento proposto pelo Tesouro: “A falência do Lehman Brothers parecia administrável, mas a simultânea, inesperada e rápida deterioração da AIG na última semana provocou uma extraordinária turbulência nas condições do mercado financeiro global. Isso produziu uma queda espetacular das ações, um aumento do custo dos créditos de curto prazo ainda disponíveis e a escassez da liquidez dos mercados”.

Difícil de entender a “inesperada e rápida deterioração da AIG”. O próprio Bernanke dissera antes que, “no caso da AIG, o Fed, com o suporte do Tesouro (o Ministério da Fazenda), providenciara uma linha de crédito de emergência para facilitar a solução do problema”, o que sugere que o consideravam resolvido.

Bernanke é um acadêmico competente e respeitado e não caiu em contradição. Apenas revelou quão pouco o Fed e o Tesouro sabiam da gravidade da situação até uma ou duas semanas antes de terem deixado falir o Lehman. A alternativa a essa hipótese é ainda mais grave. Eles saberiam “de tudo” e agiam no “limite da sua irresponsabilidade” (como disse Paul Volcker), para sustentar a situação que a própria política monetária laxista do Fed, e sua indiferença à necessidade de regular a ação dos bancos de investimento, havia criado. A filosofia que presidiu esse comportamento assegurava que: 1. A regulação produz ineficiência. 2. A imaginação financeira, explorando todas as suas potencialidades, financiaria cada vez melhor e mais eficientemente a economia real. 3. O próprio mercado discriminaria os agentes de comportamento duvidoso. Em outras palavras, o próprio mercado garante sua moralidade. Como dizia o velho Karl, o problema da filosofia não é compreender o mundo, mas mudá-lo. E (Greenspan, Rubin, Paulson, Bernanke e tutti quanti) fizeram isso.

Este mundo financeiro, que eles cientificamente construíram e cujos resultados trágicos são visíveis, está à beira de produzir a destruição do mundo real a que ele deveria apenas servir. Para salvá-lo e salvarem-se, não se despem da velha arrogância. Impõem ao Congresso americano um plano de salvação pública que ele deveria aprovar com data marcada. Os sábios cientistas que, com base numa filosofia obviamente falsa, urdiram cuidadosamente nos últimos dez anos a confusão em que o mundo foi jogado, exigiram que os ignorantes congressistas a eliminassem em duas semanas.

Um programa dessa natureza será certamente caro para o cidadão americano, mas sem sua aprovação ele pagaria um preço ainda maior em termos de redução do PIB e do nível de emprego. Para funcionar, ele precisa da cooperação de outros bancos centrais e de outros governos, ao menos da Eurolândia, da Inglaterra, da Suíça, do Canadá e do Japão.

Não devemos, entretanto, subestimar as conseqüências do rolo compressor que constrangeu o Congresso. Há sérias indicações de que esse, por estudos que havia solicitado ao fim de 2007 ao Congressional Budget Office (CBO), suspeitava que a crise era mais grave e mais profunda do que lhe informavam o Fed e o Tesouro. A crise no setor imobiliário tinha precedentes históricos conhecidos. As anteriores sempre terminaram debitadas nas contas do Tesouro. Em 1933 com a Home Owners’Loan Corporation e nos anos 80 com a Resolution Trust Corporation.

As perguntas do Congresso são: Como a situação pode se repetir? Como podem as malfeitorias contaminar todo o sistema financeiro com operações tão imaginosas quanto duvidosas? Por que a aparentemente bem-sucedida política monetária do Fed, que teria produzido a “grande moderação”, não foi acompanhada por uma regulação melhor e com mais fiscalização? A resposta a essas perguntas vai levá-lo a repensar os instrumentos da política monetária que ele retirou das mãos do Executivo, sempre tentado a promover políticas oportuno-populistas. Entregou-os a um Banco Central cujos membros são profissionais não eleitos, supostamente portadores de uma ciência e infensos a surfar a popularidade. E o resultado foi o mesmo.


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[2] Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=7&i=2292

[3] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[4] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[5] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[6] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[7] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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