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Análise Crítica do artigo “A questão energética” de Fábio Giambiagi
Posted By Imprensa On 21 outubro, 2008 @ 3:01 pm In Desenvolvimento,Destaques da Semana,Haverá outro APAGÃO?,Roberto D'Araujo | 2 Comments
Roberto Pereira d’Araujo
O artigo do economista Fábio Gambiagi sobre a questão energética é bastante primário. Como não é da área, comete os mesmos erros da imprensa quando, nas crises, o setor passa a ser notícia. Sob essa limitada visão, basta dar uma olhada no nível dos reservatórios, outra nas nuvens e se tem um diagnóstico sobre a situação. Na realidade, a questão é bem mais complexa, pois poderíamos ter situações preocupantes mesmo com reservatórios cheios. Basta que o operador veja atrasos de obras e/ou crescimento de mercado para que o sistema fique estressado.
Hoje, a situação é semelhante a que ocorria em 1998. O sinal significativo não é o nível dos reservatórios, mas sim o custo marginal médio, que independe da hidrologia do momento. Segundo o ONS, hoje esse custo é aproximadamente o dobro do custo marginal de expansão. Ou seja, o sistema pede novas usinas. Isso não quer dizer que vá ocorrer racionamento, mas quer dizer que não existe a quantidade de energia segura para todos, pois a chamada “carga crítica” é calculada de tal modo que o custo marginal de operação médio fique no entorno do de expansão. Se hoje é o dobro é porque a carga é maior do que a crítica. Simples!
Quanto a questão política, apesar do atual modelo ter corrigido as maiores barbeiragens, o modelo ainda é basicamente o mesmo anterior. Por ter adotado uma adaptação imperfeita do nosso sistema para simular um mercado competitivo por energia, armou-se uma grande arapuca. Por exigência da singularidade do nosso sistema, o núcleo do modelo mercantil é a metodologia do software NEWAVE, um programa de operação do sistema. Qualquer mudança de parâmetros nesse método teria implicações nas receitas dos agentes. O que era apenas um bom programa de gestão da reserva passou a ser alvo de interesses comerciais. Ou seja, é muito mais difícil reconhecer erros e corrigí-los!
O leilão que resultou em usinas a óleo, caras, é conseqüência direta dessa adaptação imperfeita concentrada no ICB (índice custo benefício) altamente dependente do NEWAVE. As usinas que possuem um custo marginal de operação elevado, usualmente aquelas que operam com diesel ou óleo combustível, são as de menor custo com investimento em capital, menor tempo de construção e apresentam probabilidade mais baixa de serem chamadas a operar pelo ONS.
O contrário ocorre com as usinas que possuem custos mais baixos. Estas usinas utilizam, normalmente, o gás natural ou o carvão mineral, possuem instalações mais sofisticadas que demandam investimento em capital e em tempo de construção e ainda são despachadas com freqüência.
A necessidade de uma receita fixa anual mais alta, acaba aumentando o ICB das usinas cuja operação é mais barata. O menor custo variável reduz o gasto por unidade de energia gerada (o que teoricamente permitiria reduções no custo de operação), mas, por outro lado, este menor custo variável acaba levando a usina a ser acionada com mais freqüência, contribuindo, assim, com o aumento do custo associado ao projeto. Como, em equilíbrio, os preços spot de energia são muito baixos, as usinas de custo operacional elevado acabam sendo “beneficiadas” por não operarem. Ao não despacharem a energia assegurada vendida ao pool no leilão, estas usinas não têm adicionado ao seu ICB o valor de seu custo marginal de operação. Ao contrário, adiciona-se ao seu ICB (via um termo denominado CEC) o valor do custo marginal da energia comprada no mercado spot, isto é, adiciona-se o custo marginal do sistema, que é muito inferior ao custo operacional destas usinas. Estranho? Mas, o resultado não deveria surpreender, pois é fruto do mimetismo mercantil num sistema que tem outras características.
Portanto, hoje, temos no coração do modelo mercantil um programa que simula a operação do futuro. Como a operação real está cada vez mais divergente da simulada, ou comercializamos energias inexistentes ou operamos em desacordo com os contratos. O Dr. Fábio Gambiagi, já que tem tanto prestígio na mídia, poderia prestar um serviço à sociedade se, antes de escrever, se informasse sobre o real problema.
Roberto Pereira d’Araujo autor do
Recente artigo: Hayek, Keynes e Baumol [1]
Engenheiro Eletricista e Mestre em Sistemas e Controle pela PUC-RJ. Pós-Graduação em Operation Planning pela Waterloo University. Foi Chefe de Departamento de Mercado em Furnas Centrais Elétricas. Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas. Consultor na área de energia elétrica. Meus Artigos [2]
Este é o artigo em questão:
A questão energética
Fabio Giambiagi
20/10/2008
O tema energético foi contaminado pela política desde que, em 2001, a restrição energética, adotada nas circunstâncias difíceis vividas pelo país na ocasião, sepultou as chances eleitorais dos “tucanos” e ampliou o apoio a quem, na época, era oposição. Anos depois, a situação política inverteu-se e passou a ser a oposição ao presidente Lula quem procurou capitalizar os problemas na área, para jogar a responsabilidade de uma eventual crise em cima do governo do PT. No meio do fogo cruzado, é natural que o cidadão comum se sinta algo perdido. Daí por que é importante mostrar os números.
O gráfico 1 mostra o que aconteceu com o nível dos reservatórios na região SE/CO na segunda metade dos anos 90. Tipicamente, os reservatórios apresentam um aumento do nível das águas no período do verão, até o começo do segundo trimestre, após o que, durante aproximadamente seis ou sete meses, o nível sofre uma redução até a altura de novembro/dezembro, quando volta a aumentar por alguns meses, no final do ano e nos primeiros meses do ano posterior. Em condições ideais, tal nível tende a atingir um pico em torno de 80% a 90%, com queda posterior até um mínimo de 50% a 60%, meses depois.
Como o leitor pode ver, na década passada os reservatórios foram sendo esvaziados ano após ano, desde o pico de 89% observado no começo do outono de 1997, até que em março de 2001, após um verão seco, existia a perspectiva de, caso mantida a trajetória tradicional da curva da variável nos meses posteriores – de pouca chuva – a região mais rica do país pura e simplesmente ficasse sem luz em julho ou agosto. Isso gerou a adoção das medidas draconianas implementadas na ocasião com o objetivo de suavizar a evolução da curva dos reservatórios, à espera de que, no verão, a normalidade do regime pluviométrico voltasse a encher os mesmos. Como me disse um amigo, no Chile, há mais de dez anos, quando aquele país enfrentou um problema similar, “quando falta energia, em geral tem-se a presença de uma falha do mercado, de uma falha do governo e de uma falha de Deus”. Observe o leitor que, em dezembro de 1999, a situação já tinha sido dramática, antes de chover bastante durante alguns meses. A falha gerencial do governo FHC, no caso, foi flagrante.
Desde a crise de 2001, ocorreram alguns fatos importantes, com destaque para três deles: I) as medidas emergenciais de contenção da demanda de 2001/2002 surtiram efeito; II) a economia experimentou três anos de baixo crescimento durante 2001/2003; e III) houve uma aceleração das obras na primeira metade da década, compensando o atraso que muitas delas tinham sofrido nos anos 90.
Com essa combinação de eventos, os reservatórios voltaram a aumentar, até o máximo da década, verificado em abril de 2006. Há que lembrar que a matriz de geração de energia mudou parcialmente, com a maior utilização de térmicas como fator de regulação do nível dos reservatórios, alternativa que não existia no início da década. De qualquer forma, o nível dos reservatórios continua sendo uma variável importante, a ser monitorada ainda com cuidado nos próximos anos.
Os reservatórios funcionam como grandes depósitos, que não é aconselhável que estejam muito cheios (pelo risco de alagamento das áreas vizinhas) nem muito vazios (pelos problemas que a lama pode acarretar para o funcionamento das turbinas). Em 2001, no fim da temporada de chuvas o nível deles em março no SE/CO era de 35%, o que precipitou os acontecimentos daquele ano. Estamos passando por algo assim? De forma nenhuma. O problema é que no pico prévio de 2000, os reservatórios da região tinham atingido 59% e, no ano anterior, em 1999, o pico tinha sido de 71%. E agora, qual foi o pico de 2008? 83%, ou seja, maior que o de 2000, mas menor que o de 2007 (ver gráfico 2). A situação está muito longe de ser dramática, mas a médio prazo, ainda inspira certo cuidado, uma vez que continuamos a depender de São Pedro.
Por que a energia é uma restrição a um crescimento sustentável mais intenso? Porque o risco é de esvaziar os reservatórios, em caso de chuvas escassas. Nas circunstâncias atuais, o ideal é termos um crescimento moderado (em torno de uma média da ordem de 4,5% por alguns anos) combinando isso com medidas de racionalização do uso de eletricidade, a intensificação dos investimentos na geração de energia hidráulica e nuclear e na produção de gás e o reconhecimento de que um ajuste de preços relativos deve ser parte do “cardápio” de medidas. Uma vez que estas amadurecessem, anos depois o país estaria em condições de ter um crescimento sustentado de 5% ou mais durante vários anos. A opção de crescer fortemente envolveria o risco de que, caso chovesse pouco no verão, os reservatórios fossem esvaziados rapidamente. Pode ser bom se São Pedro ajudar, mas envolve um risco importante. Nesse sentido, a perspectiva de menor crescimento em 2009 não deixa de ter um aspecto positivo acerca do espaço para crescer de 2010 em diante, enquanto os investimentos do setor amadurecem.
Fabio Giambiagi, economista, co-organizador de “Brasil Globalizado” (Editora Campus), escreve mensalmente às segundas. fgiambia@terra.com.br [3]
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[2] Meus Artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/roberto-daraujo/
[3] fgiambia@terra.com.br: mailto:fgiambia@terra.com.br
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2 Comments To "Análise Crítica do artigo “A questão energética” de Fábio Giambiagi"
#1 Comment By Olavo Cabral Ramos Filho On 22 outubro, 2008 @ 10:13 pm
PREVIDÊNCIA PRIVATIZADA E REESTATIZADA. E O SETOR ELÉTRICO ?…
O economista Fábio Giambiagi deveria ter mais cuidado quando se dedica a escrever sobre o sistema elétrico brasileiro. Deveria aprofundar-se ouvindo os especialistas que poderiam lhe esclarecer até onde o modelo mercantil, adotado nos anos noventa, causou dramáticas consequências cujas sequelas são sentidas até hoje.
Do artigo publicado há poucos dias no VALOR, basta a leitura de um só trecho que honraria um descuidado Conselheiro Acácio tentando – melhor dizer – a tentar ser didático:
“Os reservatórios funcionam como grandes depósitos, que não é aconselhável que estejam muito cheios (pelo risco de alagamento das áreas vizinhas), nem muito vazios (pelos problemas que a lama pode acarretar para funcionamento das turbinas).” (SIC)
Durante anos o economista escreveu artigos sobre as vantagens da privatização da previdência social no Brasil. Suponho que Giambiagi, ao saber dos terremoto que obrigaram os governos da Argentina e do Chile e reestatizar seus sistemas de previdência social, resolveu mudar de assunto. Escolheu um novo: o setor elétrico. Mas entrou com o pé na lama dos reservatórios que ele entende ficarem a perigo de serem esvaziados por loucuras dos operadores do sistema.
Olavo Cabral Ramos Filho
22/10/2008
#2 Comment By Olavo Cabral Ramos Filho On 23 outubro, 2008 @ 9:16 am
Errata:
PREVIDÊNCIA PRIVATIZADA E REESTATIZADA – E O SETOR ELÉTRICO ?…
O economista Fábio Giambiagi deveria ter mais cuidado quando se dedica a escrever sobre o sistema elétrico brasileiro. Deveria aprofundar-se ouvindo os especialistas que poderiam lhe esclarecer até onde o modelo mercantil, adotado nos anos noventa, causou dramáticas consequências cujas sequelas são sentidas até hoje.
Do artigo publicado há poucos dias no VALOR, basta a leitura de um só trecho que honraria um descuidado Conselheiro Acácio tentando – melhor dizer – a tentar ser didático:
“Os reservatórios funcionam como grandes depósitos, que não é aconselhável que estejam muito cheios (pelo risco de alagamento das áreas vizinhas), nem muito vazios (pelos problemas que a lama pode acarretar para funcionamento das turbinas).” (SIC)
Durante anos o economista escreveu artigos sobre as vantagens da privatização da previdência social no Brasil.
Suponho que Giambiagi, ao saber do terremoto que obrigou os governos da Argentina e do Chile a reestatizarem seus sistemas de previdência social, resolveu mudar de assunto. Escolheu um novo: o setor elétrico. Mas entrou com o pé na lama dos reservatórios que ele entende ficarem a perigo de serem esvaziados por loucuras dos operadores do sistema.
Olavo Cabral Ramos Filho
22/10/2008