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A teoria e a lógica desenvolvimentista
Posted By heldojr On 13 outubro, 2008 @ 1:33 pm In Conjuntura,Desenvolvimento,Destaques da Semana,Heldo Siqueira,Internacional,Política Econômica | 4 Comments
Freqüentemente nos deparamos com a distinção entre economistas liberais e desenvolvimentistas. Trata-se de um entendimento incompleto, afinal, em certo sentido, todos os economistas são desenvolvimentistas, no sentido de buscarem, ao menos em discurso, o desenvolvimento econômico através da elaboração das recomendações de política econômica.
Os liberais, por um lado, acreditam que o motor do desenvolvimento é a busca pelo lucro individual. A impessoalidade do mercado garante a justiça das negociações, favorecendo o espírito empreendedor e levando a eficiência econômica. Por isso, defendem a liberalização dos mercados, para fazer florescer esse espírito competitivo, levando ao desenvolvimento econômico. Nesse caso, a atuação do Estado, frequentemente voltada para alguns grupos específicos, gera ineficiência econômica, pois garante remunerações a agentes ineficientes. A tarefa do Estado, nesse caso, se encerrara em garantir o cumprimento das regras do mercado (segurança, marco jurídico, marco regulatório, e em alguns casos, saúde e educação).
Por outro lado, os entitulados desenvolvimentistas não acreditam que a lógica do mercado leve à eficiência econômica. Para estes, intervenções econômicas do Estado levam ao desenvolvimento de setores específicos e indispensáveis à autonomia do país. Assim, é justificável a manutenção e desenvolvimento de políticas direcionadas para o desenvolvimento econômico.
Em alguns momentos, as duas abordagens se aproximam, como na crise em que vivemos atualmente. Por um lado, é consenso que a lógica (e a ética) do mercado não foi suficiente para garantir a eficiência da intermediação financeira. Na verdade, os instrumentos de seguro funcionaram para sobrevalorizar os ativos financeiros. Afinal, havia a inflação (inercial) nos preços dos ativos financeiros (as pessoas tinham expectativa de que os ativos se valorizassem e por isso aceitavam comprá-los por preços cada vez mais elevados) em detrimento dos ativos reais. Como os lucros mantinham-se na esfera financeira, a expansão sem lastro dos recursos não chegava ao mercado real. No momento em que mercados reais (como o imobiliário) começaram a ser afetados pela expansão do crédito há o ajuste: uma inflação nos ativos reais juntamente com a queima de capital sem lastro produtivo (estagflação). Pela lógica do mercado, todos aceitaram (senão provocando, apenas aceitando a lógica dos outros agentes) a apreciação dos ativos financeiros (via especulação).
Assim, os efeitos negativos da recessão são disseminados pela economia impessoalmente. É claro que os agentes envolvidos diretamente com esses ativos sentirão mais, mas não é motivo para crer que a lógica do mercado falhou. Aliás, falharia se as pessoas que originaram a crise financeira (e lucraram com a valorização virtual de seus ativos) não arcassem com os malefícios. Em contrapartida, as instituições financeiras detém a poupança de vários agentes alheios à lógica do mercado financeiro. Possivelmente, alguns desses agentes não estivesse disposto a assumir os riscos em que estavam baseados os seus ganhos, mas como não tinham o conhecimento de que estavam assumindo tais riscos, os aceitavam assim mesmo.
Nesses momentos de crise, as abordagens se aproximam. Afinal, os outra hora liberais defendem a manutenção dos lucros do sistema financeiro, através da administração de políticas estatais, para que não haja um colapso que vaze para o setor produtivo. Dito de outra forma, é como se os liberais entendessem (assim como os desenvolvimentistas) que os mercados financeiros fossem um setor estratégico do sistema capitalista e que sua manutenção é vital para o sistema.
Entretanto, esse corte é meramente teórico. Na prática, os agentes econômicos não precisam reconhecer a teoria para pô-la em prática. Na verdade, reconheceriam que a administração privada é mais eficiente que a administração pública. Nesse caso, deveriam ver com reticência a compra de ações de instituições financeiras pelos Estados nacionais. Teoricamente, é uma intervenção direta no sistema econômico. Por outro lado, os planos de “estatização” parcial dos bancos, pelos Estados desenvolvidos, dão mais confiança aos agentes econômicos envolvidos nas negociações. A pergunta que fica é: se os próprios agentes acreditam que a intervenção estatal pode dar mais eficiência ao sistema econômico, porque os teóricos haveriam de discordar?
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[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
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4 Comments To "A teoria e a lógica desenvolvimentista"
#1 Comment By Gustavo On 13 outubro, 2008 @ 6:42 pm
Muito bom texto, Heldo,
a resposta da sua última pergunta para mim é a seguinte:
porque parte dos “teóricos” neoliberais vivem de “vender” ideologia neoliberal.
se pararem de vendê-la serão considerados inúteis e deixarão de receber por isso.
a outra parte, repete o que “aprendeu”, como ainda não entenderam o que estão acontecendo, repetem o que “aprenderam”
#2 Comment By Bruno On 14 outubro, 2008 @ 4:13 pm
Somente em discurso Heldo. Como eu adoro o artigo do Kalecki. Nem vou falar qual é, porque vc sabe qual é.
#3 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Boletim Semanal do Blog do Desemprego Zero On 14 outubro, 2008 @ 7:10 pm
[...] A teoria e a lógica desenvolvimentista [...]
#4 Comment By heldojr On 15 outubro, 2008 @ 3:54 pm
Bruno e Gustavo,
a questão ideológica é impossível de ser discutida cientificamente, dada que o interlocutor sempre está empregnado da ideologia em que sua personalidade foi criada. Mas o que acontece na economia é algo inadimissível: os professores ensinam os alunos a reproduzir idéias preconceituosas como se fossem ciência pura.
Dizer que os lucros vêm da capacidade de empreender é apenas metade da verdade. Como o velho Marx dizia, em uma sociedade humana o valor aparece do trabalho humano (em uma sociedade de máquinas, eventualmente o valor pode surgir das máquinas). Esse é um dos aspectos da alienação: achar que o capital gera valor. Capital, na verdade, é a relação dos indivíduos com a mercadoria (se o indivíduo consome, é mercadoria, se usa para gerar mais valor é capital). Se as pessoas acham que deter um ativo merece remuneração, o remunerarão. Mas não é da natureza do ativo! E o capitalismo é justamente a sociedade em que se remunera a relação de capital. (não precisa ser marxista para entender isso…)
Como disse o Cardim de Carvalho, a escassez de capital em relação ao trabalho é completamente artificial. Na verdade, se um sujeito quer ganhar dinheiro sem trabalhar (e aí entramos naquele velho artigo do Kalecki) deve ter meios privados, ou estará querendo tirar proveito da sociedade. Entretanto, não há nenhum defeito, sob a ética capitalista, em um banco deixar de correr riscos, financiando o sistema produtivo, para comprar montanhas de títulos públicos garantidos pelos impostos cobrados do povo (aliás, tão combatidos pela lógica liberal).
Ou seja, assim como defender uma remuneração mínima para os trabalhadores é preconceituoso e ideológico, defender uma remuneração mínima pela posse de determinado bem também é (e sem fazer juízo de valor). Em resumo… não dá pra fugir da ideologia, mas fingir que é ciência pura é muita safadeza!!!
Abraços