Liquidez seca
Postado em 16 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Por: David Kupfer*
Para os contadores, liquidez é uma medida da capacidade de pagamento da empresa, expressa pela proporção em que o valor do seu passivo circulante é coberto pelo valor do seu ativo circulante com estoques (liquidez corrente) ou sem estoques (liquidez seca). Para os economistas, liquidez é dinheiro na mão. E exatamente o dinheiro na mão que sumiu depois que o estouro da bolha imobiliária americana, nutrida por uma inconcebível combinação de exorbitante ativismo dos mercados financeiros, expresso na tendência a financeirização de todo tipo de ativo, e uma passividade igualmente sem precedentes do governo americano, contagiou rapidamente o globalizado e desregulado sistema financeiro mundial.
Após algumas semanas de hesitação, a proposta inglesa para a saída da crise tornou-se consensual e está fornecendo a linha para a uma ação coordenada das autoridades monetárias dos países centrais. Além das iniciativas voltadas para ajudar na digestão dos chamados ativos tóxicos, o plano de resgate ora em marcha implica medidas visando recapitalizar os bancos, garantir depósitos para prevenir corridas aos bancos e reativar o mercado interbancário, tudo isso por meio da injeção de centenas de bilhões de dólares na nacionalização parcial dos sistemas bancários desses países. Ao que tudo indica, as medidas vem conseguindo acalmar os mercados, devolvendo-lhes as condições mínimas de precificação dos ativos e restaurando os fluxos de liquidez requeridos para recolocar a economia mundial novamente em funcionamento.
Não é fácil extrair implicações para a economia real de todo esse imbróglio financeiro. A autonomização da dimensão financeira em escala global provou que pode ser boa para alguns nas fases bem-sucedidas e ruim para todos nas fases malogradas, não sendo razoável se imaginar que os mercados retornarão a normalidade sem passarem por profundas transformações. Por isso, as operações financeiras tenderão a ser mais firmemente controladas, não somente por mais e melhores regulações, como agora propõem alguns liberais arrependidos, mas principalmente por políticas mais ativas conduzidas pelos Estados nacionais, articulados em uma nova arquitetura de instituições de coordenação mundial. Em vista dessa reorientação, pode-se esperar a retomada de um papel mais relevante para o multilateralismo nas relações internacionais, fato que abre perspectivas favoráveis para que o conjunto dos países emergentes se reposicionem no mundo pós-crise. Leia o resto do artigo »
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