Folha de S. Paulo, 5.10.08
1. NOURIEL ROUBINI
A crise é fruto dos excessos do liberalismo e do laissez-faire destes últimos dez anos. Os reguladores acreditaram nas virtudes do livre mercado e da auto-regulamentação. O julgamento deles foi incorreto. A lição é clara: precisamos de uma regulamentação melhor. O paradoxo, hoje, é que, para resolver esses excessos, o Estado americano está se excedendo no sentido inverso. Ele injeta aqui US$ 200 bilhões para nacionalizar Freddie Mac e Fannie Mae, os dois gigantes do refinanciamento hipotecário, ali US$ 85 bilhões para recapitalizar a seguradora AIG. Os USA se tornam URSSA, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas da América. O governo age de maneira precipitada, tomando decisões que terão conseqüências profundas. Temos a sensação de estarmos numa república de bananas! Dessa maneira, passamos de um extremo ao outro. A via mais correta é a do meio, com uma regulamentação mais rígida que, entretanto, não crie obstáculos à inovação. Sem dúvida chegaremos a isso depois de algum tempo.
Será que o Velho Oeste selvagem (do sistema financeiro) faz parte do passado? É preciso ser prudente. Daqui a alguns anos é possível que tudo isso tenha sido esquecido.
Já passamos por muitas crises: a dos anos 1980, a recessão dos anos 1990, a implosão da bolha da internet em 2001. A cada vez, uma bolha se refaz com dinheiro fácil e reguladores que parecem estar dormindo. Vamos ver o que vai acontecer.
NOURIEL ROUBINI é professor de economia da Universidade de Nova York e presidente do Roubini Global Economics Monitor.
2. DANIEL COHEN
O mercado financeiro precisa ser inteiramente revisto. Desde a crise de 1929, a atenção voltou-se principalmente aos bancos comerciais. Tendo o pânico dos depositantes sido o principal vetor da crise dos anos 1930, a regulamentação foi concentrada sobre os bancos de depósitos. E isso funcionou razoavelmente bem. Não houve nenhuma crise de grandes proporções no sistema bancário dos EUA após a guerra.
Um dos objetivos principais do mercado financeiro era sair do ambiente regulamentar imposto aos bancos. As regras clássicas obrigam os bancos a manterem US$ 1 de capital, mais ou menos, para cada US$ 12 de crédito. O mercado financeiro permitiu a seus atores darem US$ 32 de crédito para cada US$ 1 de capital! Os bancos de investimento, os fundos de hedge e as seguradoras se beneficiaram de brechas na regulamentação para multiplicar o montante de suas operações.
Os bancos comerciais, por sua vez, criaram “veículos” que não constam de seus balancetes, para poderem passar ao largo da regulamentação. O resultado é o que estamos vendo agora.
Todo o trabalho dos próximos anos vai consistir em traçar regras que vão recolocar a pasta dental do capitalismo financeiro dentro de seu tubo. Será preciso impor regras de prudência novas ao conjunto dos atores, regulamentar a titularização dos créditos, fiscalizar as agências de classificação, rever as normas contábeis.
DANIEL COHEN é professor da École Normale Supérieure, em Paris.
3. NICOLAS BAVEREZ
A expressão “capitalismo financeiro de tipo anglo-saxão” cria a impressão de que apenas EUA, Reino Unido e Irlanda estão em crise. Na realidade, o choque abalou o capitalismo globalizado, do qual o sistema financeiro é a ponta-de-lança. Os países que poupam e exportam, como China, Alemanha e Japão, são afetados. China, Rússia e Brasil correm para socorrer seus bancos.
Estamos assistindo a uma deflação pela dívida, como ocorreu em 1929: a explosão de uma bolha de crédito leva a uma contração violenta de patrimônios, receitas, atividade e emprego. Duas grandes lições podem ser tiradas dos anos 30: frear a cascata das quebras de bancos e privilegiar soluções cooperativas no plano internacional, para evitar a espiral de barreiras protecionistas e desvalorizações competitivas. O resgate dos bancos já iniciou, mas nacionalmente. A ajuda internacional é inexistente.
O capitalismo vai sair da crise profundamente transformado. A prioridade será dada à segurança em lugar do risco, com conseqüente redução do crescimento potencial; reequilíbrio entre Estado e mercado; nova valorização da indústria, em detrimento do setor financeiro; mudança do modelo econômico dos bancos, com uma concentração dos atores e novo foco sobre os bancos comerciais; declínio relativo dos países desenvolvidos -especialmente os EUA- e aceleração da passagem para um sistema econômico multipolar e heterogêneo.
NICOLAS BAVEREZ é economista-historiador.