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O Brasil nunca foi um país industrializado e ainda está regredindo
Posted By Katia Alves On 8 setembro, 2008 @ 3:38 pm In Assuntos,Desenvolvimento,política industrial | No Comments
Mudança estrutural cria vulnerabilidade
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil [1]
Por Simone Cavalcanti
Embalada pelo aumento do preço das commodities e a valorização do real ante o dólar nos últimos anos, a estrutura industrial brasileira se modificou e hoje está mais centrada em setores extrativos em detrimento daqueles relacionados à transformação. Essa mudança, pouco comum em economias emergentes, pode fazer com que as importações de manufaturados, hoje vistas como um fenômeno conjuntural, se incorporem de vez ao sistema econômico brasileiro. E mais: caso a cotação dos produtos básicos recue, essa situação traria dificuldades para a balança comercial e, conseqüentemente, para o equilíbrio externo do País.
“Estamos criando uma nova vulnerabilidade para o Brasil”, diz Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industria (Iedi), cujo estudo foi obtido com exclusividade pela Gazeta Mercantil. Assim, afirma, se essa dependência por importações se consolidar, não há mudança de câmbio que conserte, pois não se consegue rearmar os elos de uma cadeia produtiva facilmente.
O economista exemplifica: o Brasil já foi grande produtor e exportador de componentes eletrônicos e atualmente “nem com incentivos” há uma indústria grande o suficiente para atender ao mercado interno. O estudo, elaborado com dados sobre o desempenho global da indústria entre 1996 e 2006, mostra que o peso na estrutura industrial dos setores intensivos em recursos naturais foi crescendo em detrimento das categorias de maior tecnologia. No primeiro ano de análise, eram cinco os setores que representavam 51,8% do chamado valor de transformação (diferença entre o valor bruto da produção industrial e os custos das operações). Pela ordem, os fabricantes de alimentos e bebidas, de químicos, de veículos e carrocerias, de coque, refino de petróleo e produção de álcool e o de máquinas e equipamentos.
Passados 11 anos, 50,3% se concentra em apenas quatro setores. Mantiveram-se na lista, as indústrias de coque (que dobrou a participação de 7% para 16,5%), de alimentos e bebidas e de químicos. Ascendeu em participação a metalúrgica básica. Já setores intensivos em tecnologia e ciência, como de máquinas para escritório e equipamentos de informática e o de transporte, incluindo aí a indústria aeronáutica, mantêm peso de 0,6% e 1,9%, respectivamente, na estrutura produtiva brasileira.
Investimento concentrado
De acordo com o levantamento, a despeito da evolução da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que registra taxa expressiva de crescimento a partir de 2004, os investimentos na indústria estão cada vez mais concentrados .
De um total de 27 setores, oito são responsáveis por 70% do total investido. Novamente, a indústria extrativa de minerais metálicos está entre os primeiros.
“A concentração dos investimentos nesses setores é uma indicação importante em relação à direção em que a indústria está se fortalecendo”, indica o estudo. Os fabricantes de coque, refino de petróleo, elaboração de combustíveis nucleares e produção de álcool (classificação na qual se encaixa a Petrobras) lidera os investimentos, com 24,1% do global em 2006 ante 10% em 1996.
Os fabricantes de produtos alimentícios e bebidas, vêm em segundo, com participação de 17%, algo não muito diferente de meados da década passada (16,3%).
Em busca do equilíbrio
Almeida ressalta que o movimento para aproveitar a valorização das commodities é positivo, entretanto, o País deveria compensar essa supremacia com políticas que também estimulassem os outros setores. “A economia não pode ser dependente de um ou dois fatores. A diversificação, que o Brasil ainda tem, é importante para garantir o crescimento”, afirma o consultor, ressaltando que as atividades intensivas em tecnologia são requisito para a expansão equilibrada e sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).
Participação industrial no PIB é baixa
A baixa participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) faz com que o Brasil se distancie de seus pares emergentes em relação ao estágio de desenvolvimento econômico. Atualmente essa proporção é de 17,8%, e já chegou a 15,7% em 1998, de acordo com o consultor Júlio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Econômico (Iedi). “A indústria brasileira está aquém do necessário para os padrões de um país em desenvolvimento”, diz, afirmando que essa parcela deveria estar próxima de 30% do produto.
Segundo o estudo “A evolução da estrutura industrial”, nessa situação, o País mais se aproxima das economias desenvolvidas (ver quadro acima), cuja população tem renda per capita sete vezes superior à da brasileira. O problema desse quadro, ressalta Almeida, é que a indústria manufatureira e o agronegócio que têm papel de dar maior impulso ao crescimento econômico. O setor de serviços, ressalta, tem um limite.
O consultor faz a comparação: os Estados Unidos, cuja participação dos serviços no PIB já ultrapassou em muito a da indústria, pode crescer a uma taxa de 3%. Mas a China não seria capaz de expandir sua economia a 10% ao ano, caso esse crescimento não estivesse calcado na produção de manufaturados.
“Quando uma economia atinge o chamado vôo de cruzeiro é possível ter uma participação elevada dos serviços no PIB, pois isso ajuda a manter certa estabilidade”, argumenta Almeida. De acordo com o estudo, a queda da participação industrial no PIB foi mais acentuada nos anos 90, com pequena recuperação no início desta década.
Muito embora tenha havido, segundo o documento, aumento na capacidade de competir e também das de produtividade, a perda de participação relativa no PIB reflete a descontinuidade de cadeias produtivas. “Esse movimento tem sido discutido ou como sendo uma desindustrialização ou como sendo uma especialização precoce da indústria nacional em setores com vantagens competitivas ligadas à exploração de recursos naturais”, indica o Iedi.
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[1] Gazeta Mercantil: http://www.gazetamercantil.com.br/
[2] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[3] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[4] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[5] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[6] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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