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Soberania do consumidor?
Posted By Rodrigo Medeiros On 25 agosto, 2008 @ 4:36 pm In Desenvolvimento,Destaques da Semana,Rodrigo Medeiros | No Comments
Por Rodrigo L. Medeiros*
Há cinqüenta anos atrás, John Kenneth Galbraith publicou um clássico livro sobre as transformações que se passavam no capitalismo. A sociedade afluente foi traduzido para diversos idiomas e instigou reflexões sobre os rumos das sociedades industriais. Em um dos capítulos do respectivo clássico, Galbraith questiona até que ponto a soberania do consumidor se sustenta como um fato.
Em síntese: “À medida que uma sociedade se torna mais afluente, as necessidades são cada vez mais criadas pelo processo por meio do qual são satisfeitas” (Galbraith essencial. Futura, 2007. p.47). Uma pessoa com fome não precisa ser informada sobre a sua necessidade de alimento. Ela simplesmente sente uma necessidade. Para as necessidades de segunda classe, isto é, aquelas resultantes do esforço de manter-se adiante ou acima do seu próximo, quanto maior o seu nível, mais altas elas serão. Elas são praticamente insaciáveis, afirmou John M. Keynes.
Como economista institucionalista de corte liberal-democrata, Galbraith afirma que não se deve simplesmente defender qualquer forma de produção para satisfazer as necessidades individuais das pessoas. Em sociedades brutalmente desiguais em termos de distribuição de renda, o quadro analisado por Galbraith torna-se ainda mais dramático. Até que ponto a modernidade associada aos padrões de consumo propagados pelos grandes interesses pecuniários estabelecidos estão em consonância com as reais necessidades das sociedades retardatárias e, em que medida, ela se associa a uma estratégia de desenvolvimento sustentado para essas respectivas sociedades?
A crise cambial brasileira de 1998 ainda deveria levantar uma série de questões. O populismo cambial e a indução do consumismo desenfreado como “políticas de modernização” contribuíram para que a dívida pública per capita brasileira aumentasse de R$1.000,00 para R$5.300,00 entre 1995 e 2002. Os setores privados claramente dominaram os gastos públicos nesses anos de forma perversa. A desnacionalização de empresas e setores, por sua vez, e a liberalização da conta de capitais foram justificadas como partes integrantes da marcha para a modernidade liberal-internacionalista. Muitos alegavam que se tratava do fim da história e que, portanto, não havia muito a ser feito nacionalmente. Pouco importou se empregos fossem perdidos e tampouco se capacidades tecnológicas nacionais sucumbissem. Nas sociedades democráticas mais desenvolvidas, onde a coesão nacional é maior, dificilmente se aceitaria passivamente tamanha rendição e atestado de incompetência da parte das elites.
No que diz respeito à metade da população economicamente ativa brasileira que se encontra no desemprego ou no subemprego, não se deve esperar uma resposta razoável da parte da sabedoria convencional tupiniquim estruturada em torno da corrente dominante da teoria econômica. Para muitos dos seus mais ortodoxos adeptos, revela-se muito mais seguro possuir uma âncora firme na insensatez do que navegar nas águas revoltas do pensamento crítico.
*Membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College (NY).
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