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O perigoso isolamento da agricultura
Posted By Katia Alves On 5 agosto, 2008 @ 12:48 pm In Assuntos,Conjuntura,Debates Nacionais,Desenvolvimento,Política Econômica | No Comments
*Por Katia Alves [1]
Segundo Rubens Ricupero, a saída é diversificar e não jogar tudo na agricultura. O que depende, por sua vez, de câmbio melhor, juros menores. E que a mais inquietante lição do fracasso de Genebra foi a revelação de como são poucos os interessados na genuína liberalização do comércio agrícola e que as dificuldades serão ainda maiores em âmbito bilateral ou regional.
Por Rubens Ricupero
Publicado na Folha [2]
A MAIS inquietante lição do fracasso de Genebra foi a revelação de como são poucos os interessados na genuína liberalização do comércio agrícola. O segundo ensinamento é que as dificuldades serão ainda maiores em âmbito bilateral ou regional, não existindo alternativa satisfatória para fórum de 153 países como a OMC (Organização Mundial do Comércio).
A soma dessas duas parcelas é que economias como a brasileira, cujas vantagens comparativas se concentram em pequeno número de produtos agrícolas, terão opções cada vez mais limitadas para sua estratégia comercial. Nada ilustra melhor essas verdades do que o impasse responsável pelo fiasco final. De um lado, os EUA, cuja posição só pode ser qualificada de cínica: querem manter o dobro dos subsídios efetivamente utilizados e, ao mesmo tempo, obrigar os asiáticos a abrirem os mercados para produção subvencionada e desleal, que liquidará a agricultura interna.
Do outro lado, a Índia e a China.
Tomam carona na abertura dos demais a suas manufaturas e seus serviços para serem os campeões mundiais do crescimento. Nem por isso abrem o mercado agrícola até para “aliados” como o Brasil, que já se abriram à indústria chinesa e aos serviços indianos e não usam subsídios.
Os europeus, que nunca tiveram interesse sincero pelo êxito de uma negociação concentrada na agricultura, vertem lágrimas de crocodilo para disfarçar a satisfação de terem deixado a outros a culpa pela ruptura. As últimas três leis agrícolas americanas fizeram com que os EUA passassem de advogados da abertura agrícola a praticantes do pior tipo de subsídio, o ligado ao volume da produção. Com isso, na prática, todas as economias avançadas EUA, Europa, Japão, Coréia do Sul, Noruega, Suíça- militam contra a liberalização.
Como nenhuma negociação triunfa sem o impulso de um país hegemônico, é duvidoso que essa muralha de defesa deixe passar algo de significativo. Ainda mais quando, do lado dos subdesenvolvidos, a pressão é, no mínimo, ambígua. Será talvez exagero o apoio de cem países alegado pelo ministro do Comércio da Índia para a proteção da agricultura doméstica. Não andará longe disso, porém, pois, até na América Latina, o México, os caribenhos, a Venezuela pouco têm a ganhar com as exportações agrícolas.
O que sobra é um punhado de gente: Brasil, Austrália, Nova Zelândia, alguns latino-americanos. Até a Argentina, antes campeã da causa, está hoje empenhada em não pôr em risco sua “reindustrialização”. É muito pouco para resultado ambicioso.
Tentar o bilateral ou o regional tampouco resolve. Amarrado numa união aduaneira com a Argentina, o Brasil terá o mesmo problema que teve em Genebra para flexibilizar concessões industriais. Ainda que o consiga, a experiência do acordo de livre comércio da Austrália com os Estados Unidos mostra que serão excluídos os produtos do nosso interesse: açúcar, álcool, suco de laranja, carnes.
A saída é diversificar e não jogar tudo na agricultura. O que depende, por sua vez, de câmbio melhor e de condições macroeconômicas para melhorar a capacidade de oferta: juros e impostos menores, redução dos custos de transação, melhoria da infra-estrutura de serviços. Sem isso, não existe, a curto prazo, alternativa para as negociações da Organização Mundial do Comércio.
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[2] Folha: http://www.folha.com.br/
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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