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O novo impasse transatlântico

Posted By Imprensa On 7 agosto, 2008 @ 9:36 am In Conjuntura,Internacional | No Comments

Por David P. Calleo

Fonte: Valor Econômico (06/08/2008)

A recente viagem de Barack Obama à Europa sugere que o senador de Illinois é o preferido dos europeus para ser o próximo presidente americano. Mas os europeus não deveriam esperar muito dele. Embora Obama pudesse provavelmente restaurar a civilidade e polidez no discurso transatlântico, as fontes de fricção são mais profundas. Os interesses geopolíticos da Europa e dos EUA vêm divergindo e poderão continuar assim, pouco importa quem seja o presidente. 

Interromper esse distanciamento progressivo exigirá importantes mudanças nas perspectivas e políticas nos dois lados do Atlântico. Os EUA terão de parar de definir seus interesses transatlânticos em termos de sua mentalidade hegemônica e a Europa terá de assumir um comando mais pleno de sua própria região. 

A referência a interesses geopolíticos ressalta a influência da geografia na configuração desses interesses. É famosa a concordância expressa por Charles de Gaulle e Winston Churchill: “Em última instância, a Grã-Bretanha é uma ilha, a França é uma ponta de continente; os EUA são de outro mundo”. De Gaulle e Churchill compreenderam que durante séculos o Canal da Mancha constituiu uma colossal barreira geopolítica a um compartilhamento de interesses durável entre o Reino Unido e a França. Se o canal é tal barreira, vínculos duradouros através do Atlântico parecem implausíveis. 

Em outras palavras, dessa perspectiva os dois espaços econômicos mais ricos e mais poderosos do mundo, União Européia (UE) e EUA, tendem a ser rivais, mesmo quando são aliados. 

Com efeito, um inimigo compartilhado deu suporte à aliança dos EUA com partes da Europa durante grande parte do Século XX. Esse inimigo, porém, também era europeu – primeiro a Alemanha e depois a Rússia. De fato, o interesse geopolítico transatlântico compartilhado foi entre os EUA e uma parte da Europa contra outra. 

Com o colapso da União Soviética (URSS), em 1991, a aliança transatlântica confrontou novas realidades. Os interesses tanto da UE como dos EUA foram amplamente redefinidos. Na ausência de enormes contingentes do exército soviético no meio da Alemanha, a Europa deixou de estar firmemente dividida em hemisférios ocidental e oriental. A Europa Central reviveu e a Alemanha foi reunificada. A Europa Ocidental evoluiu – de uma “Comunidade” para uma “União” – e seus Estados tornaram-se menos firmemente vinculados à proteção americana. 

A extinção da URSS estimulou as elites políticas americanas a construir uma visão “unipolar” da posição e interesse mundiais dos americanos. Essa tendência acelerou à medida que o atual governo Bush tentou construir uma hegemonia unilateral mundial a partir da “guerra ao terror”, que provocou crescente inquietação na “Velha Europa”. 

Embora a invasão do Afeganistão pelos EUA tenha sido amplamente considerada como justificada, a invasão do Iraque por forças anglo-americanas provocou uma fratura exposta entre os EUA e seus dois maiores aliados continentais, França e Alemanha, que foram apoiados pela Rússia e pela China. Um grande bloco eurasiano surgiu repentinamente em oposição às pretensões de hegemonia mundial americana, prefigurando uma nova fluidez nos relacionamentos geopolíticos, se não uma mudança tectônica de alinhamentos. 

A eficácia da resistência franco-alemã à hegemonia americana foi, no entanto, temperada pelas reações de outros países europeus. Tony Blair, primeiro-ministro do Reino Unido, fez o melhor a seu alcance para ressuscitar a relação especial da era Churchill, e o Reino Unido recebeu a adesão da Itália e da Espanha, juntamente com quase todos os países da Nova Europa. A dupla franco-alemã já não pôde alegar estar falando em nome da UE como um todo. Os planos europeus para uma política externa e de segurança comuns e para uma cooperação mais estreita no setor de defesa pareceu brutalmente desacreditada. 

Aos poucos, porém, a Europa pareceu avançar em sua coesão na oposição às políticas e pretensões unipolares americanas. E após sua reeleição em 2004, Bush ficou mais conciliatório. Depois que Blair deixou seu posto de primeiro-ministro, Bush ficou cada vez mais isolado diplomaticamente, tendo as mudanças de governo em Berlim e Paris produzido melhorias apenas superficiais. A deterioração das condições econômicas domésticas implicaram limites mais rigorosos a intervenções americanas no exterior. 

É difícil saber onde esta instável distensão transatlântica de 2008 levará. Agora está claro que os interesses geopolíticos europeus e americanos não estão automaticamente em harmonia. Os europeus não aceitam a visão estratégica do governo Bush, e os EUA não têm condições de implementar essa visão sem apoio europeu. 

As razões para a defecção européia são eminentemente geopolíticas. A leste da Europa está a Rússia, a seu sul, o mundo muçulmano. A Europa necessita boas relações com ambos com a finalidade de penetrar mercados crescentes, acessar fontes de matérias-primas e energia e garantir sua própria estabilidade doméstica, ao mesmo tempo em que muitos europeus acreditam que as políticas americanas gerem atritos com essas regiões. Nessas circunstâncias, a aliança transatlântica sobrevive menos por interesses efetivamente compartilhados do que devido a inércia. 

Poderá alguma coisa restaurar a antiga harmonia transatlântica? Um forte renascimento do imperialismo russo ou uma guerra entre civilizações com o mundo muçulmano poderia criar ameaça tão ameaçadora que uma Europa amedrontada retomaria sua dependência em relação aos EUA, como durante a Guerra Fria. Mas a Europa não estará ansiosa por abraçar tal futuro. Os europeus poderão tomar cuidado para não antagonizar os EUA, mas terão dificuldades para construir um relacionamento colaborativo com vizinhos regionais. Naturalmente, as definições americanas de seu papel no mundo poderão mudar. As expectativas unipolares dos EUA não foram ratificadas pelos eventos. Com efeito, existe hoje considerável oposição a essa visão nos próprios EUA. Mas hoje poder demasiado está aglomerado em Washington para ser contido com êxito no âmbito de uma estrutura constitucional exclusivamente nacional. Freios e contrapesos no plano interno exigem um equilíbrio de poder correlato no exterior. A construção de um sistema de Estados tão balanceado em escala regional foi a grande realização da Europa no Pós-Guerra. 

A implementação desse sistema dependeu fortemente de um apoio americano. Talvez seja hora de a Europa retribuir o favor. Balanceamento, ao que parece, é sempre necessário, mesmo entre amigos. E entre amigos um balanceamento tem também maior probabilidade de ser bem-sucedido. Não se pode supor com garantias que a Europa poderá encontrar a vontade, os meios e a confiança para desempenhar esse papel. O que parece efetivamente claro é que uma Europa coesa, forte e mantendo bom relacionamento com seus vizinhos não se encaixará facilmente em uma aliança transatlântica estreita com os EUA se os americanos estiverem empenhados em manter hegemonia mundial. 

David P. Calleo é professor da cátedra Dean Acheson e diretor de Estudos Europeus na Faculdade Paul H. Nitze de estudos avançados internacionais da Universidade Johns Hopkins. Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org [1]


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[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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