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Keynes e a conjuntura: breves comentários

Posted By Rodrigo Medeiros On 15 agosto, 2008 @ 11:05 am In Conjuntura,Desenvolvimento,Destaques da Semana,Política Brasileira,Política Econômica,Rodrigo Medeiros | 2 Comments

Por Rodrigo L. Medeiros*

Há muitos anos atrás John Maynard Keynes escreveu: “Os dois principais defeitos da sociedade em que vivemos são sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas” (Teoria geral. Cap. 24, I). Keynes não atacou a inconseqüente degradação do meio ambiente causada pela fúria industrialista, pois isso alargaria o escopo de sua obra clássica. As prioridades de seu tempo eram outras.

Keynes revolucionou a ciência econômica então estabelecida ao descrever como um sistema econômico poderia operar abaixo do pleno emprego dos fatores de produção e quais as suas conseqüências sociopolíticas para os sistemas democráticos. Estado e mercado, assim como havia descrito Adam Smith, eram complementares no processo de desenvolvimento das nações. Keynes demonstrou também como a teoria neoclássica estabelecida nas crenças dos seus adeptos mais ortodoxos negava a possibilidade do desemprego involuntário. Oferta e demanda encontravam periodicamente os seus pontos de equilíbrio abaixo do pleno emprego do fator trabalho.

Onde estariam as causas desse fenômeno? Keynes detectou nas expectativas dos agentes econômicos elementos psicológicos capazes de influenciar o nível dos investimentos produtivos numa economia. Em situações de grandes incertezas quanto à demanda por bens e serviços, a preferência pela liquidez era exercida com freqüência. Recursos financeiros acabavam sendo drenados da economia real para as aplicações financeiras. Os investimentos produtivos, medidos pela formação bruta de capital fixo, eram travados e a ociosidade dos fatores de produção tornava-se uma realidade crônica.

Em um sistema socioeconômico brutalmente desequilibrado pelas disparidades de renda, a possibilidade de uma minoria privilegiada tiranizar uma maioria que depende da renda da produção de bens e serviços para subsistir é real. A ausência de coesão social pode ainda fazer com que o crescimento econômico não seja uma prioridade nacional. Nesse contexto, o importante seria manter a estabilidade da moeda e a inflação baixa. Defensores do status quo no Brasil alegam que isso não teria nada de mal, pois até mesmo os mais pobres acabariam se beneficiando da ortodoxia monetarista.

Segundo dados do Boletim do Banco Central do Brasil de junho de 2008, as quotas de fundos de renda fixa representam 40,9% dos meios de pagamentos, enquanto os depósitos de poupança apenas 12,2%. Títulos privados mais quotas de fundos de renda fixa respondem por 42,3% do PIB brasileiro. Os depósitos de poupança, por sua vez, somam 8,6% do PIB. A taxa de precarização das relações de trabalho, desemprego mais subemprego, segundo a CEPAL, gira em torno dos 50% da população economicamente ativa. De 2000 para 2007, houve queda das remunerações médias reais de 11,4% no Brasil. Nota-se, portanto, que os benefícios e os custos do modelo econômico vigente não são repartidos de forma equitativa.

A história não terminou. O Estado nacional precisa cumprir papéis importantes no desenvolvimento das sociedades organizadas. Segundo Keynes, “a extensão da poupança efetiva é rigorosamente determinada pelo montante de investimento” (obra citada, Cap. 24, II). Este, por sua vez, cresce por efeito de uma taxa de juros baixa, desde que não se tente levá-la além do pleno emprego. “Assim sendo”, continua Keynes, “o que mais nos convém é reduzir a taxa de juros até o nível em que, em relação à curva da eficiência marginal do capital, se realize o pleno emprego” (idem). O Banco Central do Brasil controla a taxa básica de juros e possui a legitimidade institucional para atuar sobre as expectativas dos agentes econômicos. Recente levantamento da Up Trend Consultoria Econômica, de julho de 2008, para a taxa básica de juros praticada por 39 países mais Hong Kong aponta para o fato do Brasil ser campeão de juros reais; 7,2% contra -0,2% da média dos países analisados. Entre os países que praticam taxas básicas de juros reais negativas encontram-se Chile, EUA, Israel, Rússia, Coréia do Sul, Japão, Malásia, Argentina, Filipinas, Índia, Indonésia, Taiwan, Bélgica, Espanha e Tailândia.

Não se trata de algo simples reverter o conjunto de crenças e interesses pecuniários estruturados em torno da sabedoria convencional do rentier tupiniquim.

 

*Membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College (NY).


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2 Comments To "Keynes e a conjuntura: breves comentários"

#1 Comment By heldojr On 15 agosto, 2008 @ 1:40 pm

Rodrigo,

pela minha interpretação, uma das principais modificações que Keynes introduziu no pensamento econômico foi o fato de demonstrar que as variáveis reais não são determinadas naturalmente. Pelo contrário, são construídas pela interação entre a organização privada, através dos investimentos, e o da orientação do gasto público.

Portanto, as expectativas dos agentes influenciam as variáveis reais (como oferta de insumos e demanda por seus produtos) e não simplesmente as variáveis monetárias (como querem nos empurrar os iluminados do BC). Essa idéia de que no longo prazo, um crescimento maior que a “taxa natural” (calculada sobre a base de estrutura de capital atual e não sobre uma eventual modificação na estrutura de capital) redunda em inflação, tem como corolário a suposição de que a determinação da estrutura de capital da economia é dada naturalmente. No contexto suposto, as expectativas não teriam o poder de influenciar as variáveis reais, a conclusão exatamente oposta à keynesiana.

Ou seja, são economistas que acham que conseguem prever a estrutura de capital brasileira (e a taxa de crescimento que essa suportaria) em um horizonte de tempo infinito. Trata-se de um misto de arrogância e burrice, incompatível com as virtudes necessárias para gestores públicos.

Abraço

#2 Comment By Rodrigo L. Medeiros On 15 agosto, 2008 @ 2:43 pm

O Banco Central do Brasil (BCB) é provavelmente o único que “sabe exatamente” como se formam as expectativas inflacionárias e como essas mesmas afetam a taxa de inflação. Ben Bernanke, ao discursar na abertura da 53ª Conferência Econômica Anual do Federal Reserve Bank de Boston, em 09 de junho último, disse que nem ele, nem o FED e tampouco os demais bancos centrais sabem como se formam as tais expectativas de inflação.

Em uma enorme pesquisa junto aos empresários norte-americanos para tentar entender até que ponto eles se deixavam influenciar pelas “expectativas inflacionárias” para a precificação de seus produtos, a esmagadora maioria respondeu que não levava isso em consideração na formação de seus preços e nem sabia bem o que significa.

Maiores detalhes: [6]


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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

[6] : http://desempregozero.org/2008/08/11/falta-um-pouco-de-humildade/

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