Falta um pouco de humildade
Escrito por Imprensa, postado em 11 dEurope/London agosto dEurope/London 2008
Delfim Netto
Fonte: DCI
O Banco Central brasileiro é provavelmente o único dentre os bancos centrais do mundo que “sabe” como se formam as expectativas inflacionárias e como essas expectativas afetam a taxa de inflação.
Porque tem essa “sabedoria” que falta ao restante do universo, a nossa autoridade monetária está sugerindo que só um novo e dramático aumento na taxa de juro real (em seguida à absurda elevação de 0,75 da última sessão do Copom) será capaz de reconduzir “tempestivamente” as expectativas do mercado para 4,5%, o centro da meta inflacionária, já no início de 2009.
Seria interessante que, antes de insistir na overdose de juros que está impondo aos brasileiros, o Banco Central demonstrasse que sabe aferir o quanto as expectativas influenciam a formação dos preços no setor produtivo de bens. Um pouco de humildade não faria mal ao nosso pessoal, reconhecendo pelo menos que existem sérias dúvidas nesse processo, como recentemente confessou o presidente do Federal Reserve dos EUA, Ben Bernanke.
Discursando na abertura da 53ª Conferência Econômica Anual do Federal Reserve Bank of Boston, em 9 de junho último, ele disse que nem ele, nem o Fed, nem os demais bancos centrais sabem como se formam as tais “expectativas de inflação”.
A verdade é que estamos todos no meio de um nevoeiro, tentando entender uma inflação planetária que, não importa sua origem, se manifesta num aumento enorme dos preços da energia, dos alimentos, dos produtos minerais.
Bernanke concedeu humildemente que não sabe como conciliar a idéia dos aumentos com este negócio de “expectativas inflacionárias” e deixou no ar uma pergunta: “como a expectativa inflacionária pode afetar a taxa de inflação se grande maioria dos empresários afirma não levá-la em conta no processo de decisão sobre o preço de seu produto?”
Isso foi demonstrado empiricamente numa enorme pesquisa junto aos empresários norte-americanos para tentar entender até que ponto eles se deixavam influenciar pelas tais “expectativas inflacionárias” para a precificação de seus produtos. A esmagadora maioria respondeu que não levava isso em consideração na formação de seus preços e nem sabia bem o que significa.
Uma questão da maior importância, levantada pelo presidente do Fed na ocasião, é que seria muito útil saber como a formação das expectativas é influenciada pela comunicação da política monetária.
Hoje, no Brasil, a alta interna dos preços depende dos preços externos, mais do que de qualquer outro fator, o que mostra o caráter ilusório da argumentação da autoridade monetária sobre a formação das expectativas inflacionárias.
Diante disso, é absolutamente insensata a insistência na política de elevação da taxa de juros para reverter as expectativas da inflação. Vai contribuir, isto sim, para desacelerar o crescimento e cortar empregos de brasileiros. Trata-se da repetição da política monetária oportunística que usa o câmbio para controlar a inflação. É preciso interromper tal processo, pois já pagamos muito caro por esse tipo de aventura.











