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O reverso do Ipea

Posted By Katia Alves On 5 julho, 2008 @ 5:00 pm In Assuntos,Comentários sobre a Imprensa Brasileira,Destaques da Semana,José Carlos Assis,O que deu na Imprensa | 2 Comments

Publicado originalmente no Monitor Mercantil [1]

Por J. Carlos de Assis*

Partiu de mim a sugestão ao então secretário Roberto Mangabeira Unger para que escolhesse o economista Márcio Pochmann para a presidência do Ipea. Não é meu, porém, o mérito pelo fato de ele ter aceitado. É do atual ministro Mangabeira.

Alegando problemas reais de família, Márcio me fez acreditar que não aceitaria. Foi Mangabeira, com uma insistência tenaz, quem o convenceu do contrário. Com isso, honrou o Governo Lula com um dos mais competentes quadros do país no terreno da pesquisa e da investigação econômica.

Não precisei de indicar João Sicsú para o segundo posto no Ipea. Quando ia mencionar o seu nome, Márcio já o havia escolhido. Indiquei, sim, como pesquisador ou para qualquer outro posto no instituto, o economista Miguel Bruno.

É o mais notável da nova geração de pesquisadores econômicos brasileiros. Fez uma primorosa tese de doutorado na França sobre financeirização da economia. Eu a usei na carta Momento Nacional, do Instituto Desemprego Zero, mostrando que 29% da renda interna líquida do país, entre 1992 e 2005, são juros.

É graças a essa tese, ignorada pela maior parte da imprensa brasileira, que o jovem doutor está sendo submetido à mais sórdida campanha de alguns jornais – os mesmos que denigrem a imagem do Ipea, com base em informantes desqualificados de ressentidos.

A motivação explícita é uma mudança de métodos na divulgação de pesquisas de conjuntura. A implícita é o despudor de quem quer fazer com que o Ipea continue sendo uma “dobradinha” do mercado financeiro.

Para o jornalista Elio Gaspari, “o comissariado está destruindo o Ipea”. Gaspari conhece as artes da destruição. Ele ajudou a destruir a ditadura com um competente jornalismo no Jornal do Brasil. Infelizmente, tomou de amores por sua principal fonte, o general Golbery, eminência parda dos governos Castello Branco e Geisel.

Sabe-se, pela coleção de livros históricos de Gaspari, tudo o que Golbery lhe contou. Apenas não se sabe o que Gaspari contou a Golbery. Não sei se isso o honra, ou o denigre.

A fúria contra Márcio Pochmann se justifica por esclarecedora entrevista, no último dia 23, a um jornal paulista, sob o título “BC pode matar ciclo de crescimento”. Não é necessário ler mais nada. Está em todos os jornais, todos os dias, afirmações de economistas do mercado e professores-banqueiros segundo as quais o único e exclusivo objetivo da política econômica brasileira é trazer a inflação para o centro da meta. Nada mais, e também nada menos, pois se for menos o Banco Central, contrariado, não terá justificativa para aumentar os juros.

Num instituto de pesquisa, como em qualquer repartição pública burocrática, a hierarquia é fundamental. Menos no Ipea. Ali, qualquer economista pode bater boca com seus dirigentes, sob a cobertura da liberdade de expressão e do direito à divergência. No sábado, 28 de junho, Paulo Levy se arvora o direito de definir o papel do Ipea. Ao lado, Márcio Pochmann procura esclarecer que o papel do instituto não é fazer projeções. Elas mudam todo o dia, ao sabor da especulação financeira. E pergunta: “Por que erram tanto?”

A resposta é simples. Erram porque são fruto de especulação primária, as quais, por sua vez, são a base dos gigantescos ganhos financeiros com que o povo brasileiro, através do superávit orçamentário primário combinado com taxas de juros estratosféricas e o swap reverso, premia os gangsters do mercado.

De fato, Márcio, que, como Miguel Bruno e João Sicsú, jamais se meteu com esse bando, a não ser como crítico, está pagando o preço de sua honestidade intelectual. É uma sorte que o Brasil conte, na administração pública, com gente como ele.

Ele varreu o Ipea. Leva farpas de gente que se esconde no serviço público e que, não contente com a terapia ocupacional a que foi relegada, se alia ao rebotalho da casa para denegrir a honra das pessoas e das instituições. Em linguagem bem clara, cospem no prato em que comeram.

O Brasil sofrido, o Brasil honesto, o Brasil trabalhador (mas ainda sem emprego suficiente), merece Márcio Pochmann, Sicsú e Miguel Bruno. Quanto a Bruno, Ancelmo Góis tem razão. Um dia, será o primeiro Prêmio Nobel brasileiro, por causa de sua tese sobre financeirização. É mais velho que Einstein quando recebeu o de Física.

José Carlos de Assis: Economista e Professor, Presidente do Instituto Desemprego Zero.


2 Comments (Open | Close)

2 Comments To "O reverso do Ipea"

#1 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Boletim Semanal do Blog do Desemprego Zero On 8 julho, 2008 @ 7:09 pm

[...] O reverso do Ipea [...]

#2 Comment By Juliana Domiciano Cupti Madeira On 26 agosto, 2008 @ 8:54 pm

Por que no brasil existe inflação?
A resposta é clara: simplesmente porque o BC precisa de uma justificativa para aumentar a taxa de juros, pois conforme salientado por muitos economistas (“não banqueiros”)o Brasil não convive com inflação e muito menos se esta for de demanda, assim como, está descartada a hipótese da volta do “dragão da inflação”, como sugere a revista Veja.


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[1] Monitor Mercantil: http://www.monitormercantil.com.br/

[2] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/

[3] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/

[4] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/

[5] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/

[6] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/

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