O Brasil não vai escapar da inflação
Escrito por lucianasergeiro, postado em 1 dEurope/London julho dEurope/London 2008
Por: Luciana Sergeiro 
Em entrevista concedida a revista Isto É o economista Carlos Lessa faz um alerta ao governo, dizendo que este não está dando a devida importância à crise internacional de petróleo, ainda que o Brasil tenha reservas, a situação mundial pressionará os preços, especialmente das commodities, e o País não pode como ter única resposta o aumento das taxas de juros e a política cambial para controlar a inflação, Lessa diz que medidas como essas são consideradas como suicídio.
Mesmo o Brasil, tendo uma posição favorável devido às descobertas do pré-sal, o País não ficara livre da inflação mundial já que o petróleo é o formador dos custos de todos os alimentos de commodities do mundo. Lessa diz ainda que, a política do petróleo do País ligada ao futuro está apenas justificando as elevações dos juros feitas por Meirelles. Essa elevação dos juros gera a premiação do capital especulativo, e impede que o governo faça política de saúde, educação entre outras.
Favorável aos biocombustíveis apóia Lula na questão do biodiesel e do combustível renovável. O Brasil tem tudo para ser uma grande potência. “Nós temos muita energia hidrelétrica e podemos ampliar muito a oferta. E é a mais renovável de todas. Temos sol quase todo o ano, temos solo e temos água. Então, podemos produzir comida e energia renovável. Temos petróleo no pré-sal e temos urânio. Temos a sexta reserva de urânio do mundo e mais da metade do território nacional ainda não foi pesquisada. Mas não se discute energia neste País, discutem-se juros.”
Publicado em: ISTOÉ
Por: OCTÁVIO COSTA E RUDOLFO LAGO
Brasil deixou de ser a República de Empreiteiras para ser o Império dos Banqueiros. Ex-presidente do BNDES critica estratégia do governo para enfrentar alta do petróleo, mas elogia biocombustível.
Entrevista com Carlos Lessa
Aos 72 anos, o economista Carlos Lessa desistiu de disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSB.
Por um partido de estrutura ínfima no Estado, seria uma aventura sem maiores conseqüências. Mas a receita que Lessa teria para o Rio é a mesma que tem para o Brasil: é preciso que tanto a cidade como o País recuperem a auto-estima. “O presidente Lula é muito bom nas políticas sociais e tem instinto para o que quer o povo brasileiro, mas não tem nenhuma visão nacional; se ele tivesse, não se deslumbrava tanto com os aplausos que recebe no Exterior”, critica. Duro e irônico, Lessa cobra, inclusive, a atitude da mulher de Lula, Marisa Silva, que requereu cidadania italiana para ela e para os filhos: “Se o Lula soubesse o que é Estado nacional, teria dado uma bronca na mulher.” Crítico ferrenho da política econômica – motivo, inclusive, da sua saída da presidência do BNDES em novembro de 2004 -, Lessa alerta que o governo não está dando a devida importância à crise internacional de petróleo. Ainda que o Brasil tenha reservas, a situação mundial pressionará os preços, especialmente das commodities, e o País não pode ter como única resposta o aumento das taxas de juros e a política cambial, determinados pelo Banco Central. “Querer controlar a inflação com câmbio é suicídio nacional”, dispara. Lessa afirma que “é preciso acabar com a ‘paulistocentria’ na política brasileira”. Sua chapa ideal seria formada pelo governador tucano Aécio Neves e o deputado Ciro Gomes, do PSB. Na segunda-feira 23, Lessa deu a seguinte entrevista à ISTOÉ:
ISTOÉ – A crise do petróleo que abala a economia mundial veio para ficar?
Carlos Lessa – Veio para ficar, por uma razão muito simples: há 25 anos, as reservas conhecidas e estimadas de petróleo vêm crescendo menos do que o consumo. Grande parte do crescimento das reservas se dá por reavaliação dos campos já conhecidos. Não há descobertas relevantes de novos grandes campos.
ISTOÉ – A escassez tende a se agravar?
Lessa – Sem dúvida. E a escassez empurraria inexoravelmente o preço do petróleo para cima. Eu não entendo por que o governo brasileiro não assume isso como um dado estratégico. Isso modifica todo o futuro. Talvez seja o dado mais importante à meditação do planejamento do País.
ISTOÉ – O governo alega que, graças às reservas de pré-sal, o Brasil está em situação mais confortável.
Lessa – Não é esse o problema. Em primeiro lugar, é inexorável uma inflação mundial. E o Brasil não vai escapar a ela. Por quê? O petróleo é o formador de custos de todos os alimentos e de todas as commodities no mundo. Tudo que é produzido tem um componente pesado de transportes, principalmente as commodities e as matérias- primas. Então, todos os preços mundiais não vão parar de subir.
ISTOÉ - Nesse quadro, não importa se você é auto-suficiente ou não?
Lessa – Só se você tiver uma política em relação ao seu próprio petróleo, diferenciando o preço para dentro do preço para fora. Aliás, é o que eu recomendaria ao Brasil. Não se trata de subsidiar. Deveria se vender pelo preço internacional para o mundo, mas, internamente, o combustível seria vendido com certa margem de ganho, porém pequena. Em vez de a crise inspirar uma política de petróleo para o País, ligada ao futuro, está inspirando outra coisa.
ISTOÉ – O que exatamente?
Lessa – Está justificando o dr. Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central) a empurrar os juros para cima, para segurar a inflação pela taxa de câmbio. Ele só segura a inflação mundial empurrando para baixo a taxa de câmbio. Ao elevar os juros, ele consegue até segurar o câmbio, pois dá um prêmio colossal para os aplicadores estrangeiros em papéis brasileiros. Além disso, não aplica imposto sobre essas aplicações.
ISTOÉ – E assim atrai investimentos.
Lessa – O dinheiro entra. E a taxa de câmbio vai para baixo. Meirelles segura a inflação com a taxa de câmbio. Mas a custa de quê? De pagar uma taxa de juros proibitiva, que impede o governo de fazer política de saúde, política de educação, política de transportes e tudo mais.
ISTOÉ - A inflação já ultrapassou o chamado centro da meta. A situação pode se agravar?
Lessa – A inflação mundial já está produzindo intensos movimentos sociais de protesto na Europa. Eles estão importando petróleo a US$ 140 o barril e empurrando para cima os preços de tudo. Portanto, querer controlar a inflação por câmbio é suicídio nacional. Você premia a especulação de uma maneira desvairada. Quando empurra a taxa de câmbio para baixo, todos os indivíduos que trouxeram dólar antes e compraram títulos da dívida pública têm dois ganhos: um com a taxa real de juros louca que o Brasil paga e, outro, com a diferença entre o dólar que ele vendeu e o que ele compra, bem mais barato. O que o Meirelles faz é um suicídio nacional.
ISTOÉ - Há risco de desequilíbrio nas contas externas do País?
Lessa – O problema é o seguinte: o especulador internacional adora receber os juros que o Meirelles paga. Aliás, isso também vale para o especulador brasileiro, que vai para o Caribe e volta como internacional. Agora, há um medo, que é o de o balanço de pagamentos do País começar a ratear. Se a conta comercial ficar fraca, o especulador internacional vai recuar.
ISTOÉ – A economia brasileira, a seu ver, está frágil?
Lessa – Está estruturalmente muito frágil do ponto de vista macroeconômico de longo prazo. Acho também que está frágil do ponto de vista macropolítico de longo prazo. Pela seguinte razão: é caríssimo furar o pré-sal, exige desenvolvimento tecnológico e a manutenção de um patamar de preço internacional do petróleo altíssimo. Dominar os campos de pré-sal pode se converter na melhor aplicação financeira possível para o Brasil. Mas, se extrair além de nossas necessidades, adoidado, o Brasil pode se tornar o Iraque do futuro. Por que os americanos estão no Oriente Médio? Por uma razão muito simples: os Estados Unidos não produzem nem 40% do petróleo que consomem. Imagine o Brasil dizer que tem um pré-sal colossal, que pode cobrir a brecha americana? Vamos virar de novo o quintal dos Estados Unidos. E não há pior coisa no mundo do que ser quintal deles.
ISTOÉ – Com relação à política de biocombustíveis, o Brasil está na posição certa?
Lessa – Sou inteiramente favorável. Se o presidente Lula comete alguns erros estratégicos brutais, como a política em relação ao petróleo, em outras coisas ele acerta em cheio. Está certíssimo na questão do biodiesel e do combustível renovável. O Brasil tem tudo para ser uma grande potência. Nós temos muita energia hidrelétrica e podemos ampliar muito a oferta. E é a mais renovável de todas. Temos sol quase todo o ano, temos solo e temos água. Então, podemos produzir comida e energia renovável. Temos petróleo no pré-sal e temos urânio. Temos a sexta reserva de urânio do mundo e mais da metade do território nacional ainda não foi pesquisada. Mas não se discute energia neste País, discutem-se juros. O que se há de fazer?
ISTOÉ - Mas Lula já disse que é preciso aguardar o resultado da política monetária, antes de tomar novas medidas.
Lessa – Não é verdade. Estão cortando despesas por todos os lados. As verbas prometidas não chegam. É uma quadratura do círculo. Como é possível compatibilizar o Meirelles empurrando os juros reais para cima e, ao mesmo tempo, expandir gastos? É impossível.
ISTOÉ – Não há uma política de investimentos, através do PAC?
Lessa – É preciso tomar cuidado. O PAC é a lista de projetos de infra-estrutura que o País devia ter começado a fazer em 2003, quando Lula assumiu. Sei disso porque ele me pediu a relação de projetos. Quando eu era presidente do BNDES, trabalhei três meses com uma equipe de 50 pessoas e fiz uma relação dos projetos prioritários. É quase a totalidade dos projetos que estão no PAC. Mas faltam ao PAC os projetos de infra-estrutura urbana, como metrô e trem. Fazer a economia crescer com o automóvel vendido a 90 prestações mensais congestiona ainda mais as cidades. O PAC é modesto em relação ao que o Brasil precisa e chegou muito atrasado.
ISTOÉ – O sr. ficou surpreso com as denúncias que envolveram recentemente financiamentos do BNDES?
Lessa – Duvido que essas coisas tenham acontecido. A estrutura de decisão e de operações do banco tem uma quantidade muito grande de filtros. Para haver corrupção, tem de corromper de cima a baixo. Por exemplo, todo o pleito passa pela comissão de prioridades, que é formada por todos os superintendentes do banco. E a decisão final é da presidência do banco. Vai ver que tem firma de consultoria vendendo o que não tem para entregar.
ISTOÉ – Esse cenário de denúncias e de repique inflacionário vai ter reflexo nas eleições deste ano?
Lessa – Eu acho que a despolitização avançou no Brasil numa extensão inacreditável. O povo não confia no Congresso e nos políticos. Curiosamente, isso aumenta o prestígio do Lula. Ele é o grande pai. Como acredita que os políticos são um poder inútil, quando não corrupto, o povo tende a buscar o pai universal.
ISTOÉ – O que poderá acontecer na eleição de 2010, que pela primeira vez não terá o presidente Lula como candidato?
Lessa – Pode acontecer qualquer coisa. Acho que o PT vai apresentar a Dilma (Rousseff, da Casa Civil) como candidata à Presidência. E o Palocci (ex-ministro da Fazenda) vai tentar se mexer para ser candidato, se o Supremo Tribunal Federal absolvê-lo.
ISTOÉ – Mas a ministra Dilma Rousseff tem chances, apesar de todo o tiroteio contra ela, antes do início da campanha?
Lessa – Qualquer um que não for o nome querido do mercado de capitais e do sistema de bancos vai tomar pancada de todos os lados. A Dilma está apanhando de maneira injusta. Acho que o Palocci é a figura de eleição do mercado. Se não podem fazer o Meirelles candidato a presidente, então que seja o Palocci.
ISTOÉ – Como o sr. avalia as chances do deputado Ciro Gomes, que seria o candidato de seu partido, o PSB?
Lessa – O Ciro seria um bom candidato. Gosto muito da idéia, do ponto de vista regional, de fazer uma aliança que não seja paulista. O Brasil precisa de um candidato que não seja paulista. A “paulistocentria” é excessiva. Gosto muito da idéia de que Minas esteja na composição presidencial. Gosto muito do Aécio, uma pessoa de muito potencial, e gosto muito do Ciro. Se eu fosse Deus e pudesse escolher, comporia uma chapa com os dois. A questão da cabeça de chapa ficaria para depois. Mas sou um ilustre marginal.
ISTOÉ - E o PMDB, ao qual o sr. foi filiado por tanto tempo, ficaria fora da corrida presidencial?
Lessa – Pertenci ao PMDB no tempo do dr. Ulysses (Guimarães). Fiquei no partido por respeito a Ulysses. E havia figuras no PMDB que acho residuais, mas maravilhosas, como Roberto Requião, Pedro Simon, Luis Henrique. Mas o lado bom está completamente sufocado pelo PMDB das “capitanias hereditárias”. O PMDB hoje é do Renan Calheiros e do Edison Lobão. Esse PMDB não quer a Presidência, quer lotear cargos.
ISTOÉ – Qual é a avaliação que o sr. faz do presidente Lula?
Lessa – Acho que o Lula sabe o que é povo. Instintivamente, ele faz gestos e propostas que coincidem com o ânimo popular. Mas ele não sabe o que é nação. Não tem a menor idéia do que é nação e Estado nacional. Prova disso é a inércia do governo diante dos maustratos a cidadãos brasileiros, como se viu recentemente na Espanha. E a política econômica é uma catástrofe. Costumo dizer que o Brasil deixou de ser a República de Empreiteiras para ser o Império dos Banqueiros. E a empreiteira é mais conveniente, porque empurra o País para adiante. O presidente Lula fica deslumbrado pelo aplauso mundial. Ele é aplaudido por quem? Pelos parceiros dos banqueiros brasileiros.
ISTOÉ – E onde o governo acerta?
Lessa – Em toda a política social. É correta a política de elevar o salário mínimo. É correta a política de bolsa família. É correto o Lula botar uma cortina protetora na Previdência Social. Acho que ele instintivamente sabe o que o povo quer. E, se ele estiver com o coração bom, volta em 2014. Mas espero que ele volte sabendo o que é nação. Que estude um pouco para saber o que é nação.










