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Blog do Desemprego Zero

‘O BNDES não substituiu o mercado’

Escrito por beatriz, postado em 16 dEurope/London julho dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Irany Tereza

O Estado de S. Paulo

Luciano Coutinho: Presidente do BNDES – para presidente do banco, há hoje no Brasil uma ‘combinação virtuosa’ de fontes de financiamento para as empresas.

Enquanto os juros elevados afastarem instituições financeiras privadas de projetos com taxas de retorno mais baixas e tempo de maturação mais prolongado, o BNDES continuará mantendo o esforço para tirar do papel essas iniciativas, disse o presidente do banco, Luciano Coutinho. Mas, segundo ele, também crescem os financiamentos via mercado de capitais e os investimentos feitos com o aumento dos lucros das empresas.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado:

Por que está aumentando o peso do BNDES nos investimentos?

O que está acontecendo é, primeiro, uma aceleração geral dos investimentos. Nos últimos dois anos, claramente os investimentos estão crescendo de maneira muito firme, o que é muito bom para o País. A Formação Bruta do Capital Fixo é um conceito amplo, que inclui todo o investimento, desde a pequena ampliação das unidades que já existem até a construção civil, que tem um peso importante no investimento. Quando o investimento está mais desaquecido, a Formação de Capital reflete muito o incremental, de pequena monta, feito de maneira difusa. Quando se entra num ciclo de crescimento do investimento, começa a haver projetos mais intensivos em capital, novas fábricas, novas unidades.

E o BNDES é a única alternativa disponível?

Quando se tem um ciclo de investimentos onde há muitas unidades produtivas novas, grandes projetos intensivos em capital, a demanda por investimentos típicos de escala relativamente grande e prazo de maturação muito longo fica mais forte e é natural, portanto, que o BNDES, que é o principal fornecedor/supridor desse tipo de crédito, tenha uma demanda que cresce mais forte do que a média.

A causa é essa e não a dificuldade de crédito privado?

Eu atribuo esse aumento do peso do BNDES ao fato de que a gente tem um ciclo de investimentos com características dessa natureza, especialmente com investimentos crescentes em infra-estrutura que, portanto, pressionam mais.

Qual foi o aumento de peso do banco?

Na verdade, o peso do BNDES na Formação do Capital, que era alguma coisa de 6%, 6,8%, de 2000 a 2005, no ano passado ficou acima de 8% e estamos caminhando para perto de 10% no momento.

Esse aumento é também reflexo da redução da TJLP?

Esse processo data do fim de 2005, quando a TJLP ainda não tinha caído tanto. E é concomitante a um aumento muito expressivo da participação do mercado de capitais no financiamento do investimento. Na verdade, o BNDES não substituiu o mercado; ao contrário, há um crescimento saudável do investimento. Na hora em que o investimento cresce a taxas muito mais rápidas, a duas vezes e meia o crescimento do PIB, e passa a ter perfil de prazo mais longo, é natural que a necessidade de financiamento aumente. Temos três componentes importantes que ajudaram. O primeiro é o aumento do lucro das empresas. A massa de lucro das grandes empresas tem sido constantemente reinvestida na formação de capital. A segunda parte é pelo mercado. As empresas usam parte do crédito de curto prazo, que elas rolam de maneira continuada. Em terceiro lugar, o mercado de capitais, que cresceu muito nos últimos anos. E o BNDES também cresceu.

O BNDES não está, então, substituindo o mercado?

Não vejo um processo de substituição, mas de combinação virtuosa de fontes. O fato de o BNDES ter uma taxa mais favorável não deve ser encarado como uma coisa negativa. Se isso não existisse, é muito discutível a tese de que o sistema bancário teria uma taxa muito mais baixa enquanto a Selic tiver de ser o que ela é.

A Selic encarece o mercado?

Não estou criticando a Selic, que está determinada pela política de controle da inflação e é fundamentalmente orientada por essa política. Se eu tivesse de calibrar a Selic, que produz uma taxa de longo prazo de mercado, compatível com a necessidade de investimento da economia, eu não conseguiria controlar a inflação.

O controle inflacionário emperra o mercado?

O desejável é que o Brasil consiga recolocar as expectativas de inflação sob controle e retomar o processo de queda da Selic, de tal maneira que a gente possa ter a taxa de juros de mercado muito próxima à TJLP ou até melhor. Nesse caso, então, o setor bancário privado poderá assumir, em grande escala, o papel que o BNDES desempenha hoje. Esse é um cenário que achamos positivo. Taxas de juros que voltem a cair e possam convergir para taxas de longo prazo compatíveis com o atual status de investment grade do Brasil.

Em quanto tempo o mercado financeiro assumirá o seu papel?

Acho que a subida necessária da Selic agora retardará um pouquinho no tempo esse processo. Mas ele vai ser retomado e, quando isso ocorrer, esse papel do BNDES pode ser reconfigurado.

A TJLP continuará descolada da Selic?

O problema é que não sabemos quanto tempo vai demorar, quanto a inflação vai subir, e é prematuro qualquer julgamento com relação à TJLP. Tenho absoluta confiança na capacidade do BC e do Ministério da Fazenda de colocarem a inflação dentro dos eixos.



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