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Instituições, inovações e desenvolvimento
Posted By Rodrigo Medeiros On 4 julho, 2008 @ 3:16 pm In Assuntos,Desenvolvimento,Destaques da Semana,O que deu na Imprensa,Política Econômica,Rodrigo Medeiros | 1 Comment
Por Rodrigo L. Medeiros*
Publicado originalmente no valor Online [1]
Todas as sociedades vivem embates internos parecidos com os descritos por José Ingenieros em “O homem medíocre”, cuja primeira edição data de 1913. Ingenieros analisa como duas forças se chocam nas sociedades e definem os rumos da sua evolução. Idealismo e mediocridade são essas forças.
Os idealistas podem ser divididos em dois grupos: românticos (paixão) e estóicos (virtude). A maturidade e o acúmulo de experiências são caminhos que levam os românticos ao estágio dos estóicos. Medíocres são pessoas sem ideais. Possuem idéias que se baseiam no senso comum; são intransigentes e rejeitam o bom senso.
Ingenieros argumenta ser a mediocracia perigosa para as sociedades, pois ela trava os respectivos avanços institucionais. Uma das faces do projeto mediocrático no Brasil é a seguinte: “O custo da mão-de-obra é caro neste país e, por isso, não se tem competitividade global”.
Não é preciso muito esforço para se demonstrar que os custos do fator trabalho nos EUA, na União Européia e no Japão, por exemplo, são mais elevados do que os praticados no Brasil. O trabalho é apenas um dos TR ês fatores de produção concebidos pelos economistas clássicos. O nó górdio do processo evolucionário das organizações está na busca pelo desenvolvimento de sistemas produtivos mais eficientes (grau de utilização dos fatores de produção) e eficazes (alcance dos objetivos a partir da utilização dos fatores de produção). O enorme giro da mão-de-obra nas empresas traduz a opção tardia pela internalização do fordismo no Brasil. De 1980 a 2005, houve perdas de 20% do poder aquisitivo dos trabalhadores, ao passo que a produtividade permaneceu estagnada.
Quem acredita que os países democráticos mais desenvolvidos aceitariam passivamente conviver com taxas de precarização das relações de trabalho, desemprego mais subemprego, que girassem em torno de 50% para a sua população economicamente ativa? O argumento simplório de que em todo lugar do mundo é assim não se sustenta como um fato.
Após a Segunda Guerra, o Japão era um país derrotado. Duas bombas atômicas haviam destruído vidas e deixado marcas profundas de humilhação. No início da década de 1950, grupos de engenheiros e técnicos da Toyota viajaram para os EUA com o intuito de observar como se poderia ser competitivo na fabricação do automóvel. O jogo já era global naquele tempo. Eles visitaram as instalações da Ford e perceberam que não teriam condições de adotar ortodoxamente tal paradigma de organização da produção. As condições de contorno japonesas – demografia, território, cultura empresarial, instituições – diferenciavam-se do caso norte-americano. Países desenvolvidos realizam políticas industriais com muita eficácia por meio de seus sistemas de inovação
Não havia espaço para desperdícios no Japão do pós-guerra e os trabalhadores não aceitavam ser tratados como custos variáveis. A força de ocupação norte-americana, por sua vez, temendo o avanço das idéias comunistas, apoiou as reivindicações dos trabalhadores. O jeito era repensar os sistemas japoneses de produção e organização industrial. As idéias de Shewhart, Deming e Juran, formuladores das bases teóricas do Gerenciamento da Qualidade Total, seriam úteis para o novo momento. Edith Penrose e Joseph Schumpeter também foram influências importantes.
Combinando automação de baixo custo com trabalhador multifuncional, o sistema Toyota de produção revolucionou a forma de se produzir bens e serviços mundo afora. Variações desse sistema difundiram-se pelo globo e alargaram o escopo de estudo da gestão estratégica das organizações. Teóricos internacionalmente renomados reconhecem serem múltiplas as perspectivas do pensamento estratégico.
Para o Século XXI, a redução dos ciclos de vida dos produtos desafia os sistemas tradicionais de gestão e planejamento organizacional. O VCR, por exemplo, demorou 20 anos para que seu preço médio caísse de $ 400,00 para $ 45,00 na Grã-Bretanha, enquanto o DVD levou apenas cinco anos para cair na mesma proporção. A competição pela inovação e pelo tempo já é uma realidade. O Brasil atravessa um momento de grandes desafios. Administrado a partir de uma perspectiva ortodoxa, o Banco Central do Brasil (BCB) aponta para um viés de alta na taxa básica de juros para o final de 2008, ao passo que o governo do presidente Lula apresentou recentemente uma política industrial compensatória. Países retardatários necessitam articular políticas industriais, comerciais e tecnológicas ativas. Os países mais desenvolvidos as realizam com muita eficácia por meio dos seus respectivos sistemas nacionais de inovação. Para se ter apenas uma rápida dimensão dessa questão, basta mencionar que os Estados Unidos, a União Européia e o Japão respondem por 68,80% dos gastos globais em pesquisa e desenvolvimento. No caso dos EUA, pode-se afirmar que o complexo militar-industrial carrega grande parte dos gastos nacionais em pesquisa e desenvolvimento (P&D).
As políticas de juros altos e câmbio valorizado, em um contexto global de taxas básicas de juros de um dígito, certamente não contribuem para o crescimento sustentado do Brasil. O controle eficaz da inflação demanda uma adequada regulação de monopólios, duopólios e oligopólios. Áreas que estão fora da intervenção direta de um banco central.
*D.Sc. em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College (NY).
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[1] valor Online: http://www.valor.com.br/
[2] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[3] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[4] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[5] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[6] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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