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Independência financeira

Posted By Katia Alves On 25 julho, 2008 @ 11:28 am In Assuntos,Conjuntura,O que deu na Imprensa,Política Econômica | No Comments

Por Katia Alves [1]

O autor afirma no artigo abaixo que nos últimos anos, em toda parte, as palavras de ordem eram desregulamentação e liberalização. O resultado foi uma crise financeira monumental nos EUA e em grande parte da Europa. A crise está sendo contida e digerida a duras penas e com forte intervenção dos governos e dos bancos centrais.

E hoje, já é basicamente aceita a interpretação de que o modelo de regulação “light” adotado nos EUA e em outros países desenvolvidos permitiu os excessos especulativos que levaram à crise financeira.

Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Publicado originalmente Folha [2]

“HÁ POESIA em tudo”, escreveu Fernando Pessoa. Até na turma da bufunfa? Não. Na turma da bufunfa, não. Nada mais antipoético, nada mais antiestético do que essa nociva confraria.

O leitor conhece a minha aversão aos bufunfeiros, especialmente à fração hegemônica da turma -a bufunfa financeira. Motivos não me faltam. A atual crise financeira nos EUA e na Europa Ocidental é o exemplo mais recente do estrago que a ganância e a especulação desenfreada podem fazer.
Um dos grandes problemas da economia contemporânea talvez seja a hipertrofia dos sistemas financeiros.

A concentração de poder e recursos nessa área produz imensas distorções e freqüentemente subordina os governos, os bancos centrais e as políticas públicas aos interesses da finança internacional. Nos últimos anos, em toda parte, as palavras de ordem eram desregulamentação e liberalização.
O resultado foi uma crise financeira monumental nos EUA e em grande parte da Europa. A crise está sendo contida e digerida a duras penas e com forte intervenção dos governos e dos bancos centrais.

O leitor conhece a turma da bufunfa pessoalmente? Se não conhece, não perdeu nada. Arrisco dizer que nunca tanto poder e dinheiro esteve concentrado nas mãos de gente tão idiota. Estou exagerando? Talvez. Não quero ser agressivo demais. Mas não esqueça, leitor, que um certo tipo de idiotice é perfeitamente compatível com a capacidade de acumular dinheiro. Essa capacidade depende de outros atributos que não a inteligência  esperteza, falta de escrúpulos, agilidade, hiperatividade etc.

Volto um pouco a Fernando Pessoa. O grande escritor português se considerava um nacionalista. “Por isso”, observou, “me foram sempre origem de repugnância e asco todas as formas de internacionalismo, que são três: a Igreja de Roma, a finança internacional e o comunismo.” Isso foi escrito em 1929. Desde então, duas das três formas de internacionalismo por ele mencionadas -a Igreja Católica e o comunismo- entraram em franca decadência. Em compensação, a finança internacional tomou proporções gigantescas.

Mostra-se capaz de desestabilizar economias inteiras -até as de grande porte. Pessoa teria certamente uma síncope se fosse obrigado a conviver com os bufunfeiros de hoje, ele que escreveu em outra ocasião: “É realmente duro ter de estar todos os dias “at home” para a Asneira e ter de a entreter com chá de banalidade e bolos de transigência”.

Asneira, com “a” maiúsculo mesmo, é a palavra apropriada para caracterizar muitas idéias que prevaleceram sem grande contestação no mundo das finanças até a eclosão da crise, em 2007. Entre elas, a idéia de que os mercados financeiros são eficientes. Ou a de que as autoridades podem confiar, em grande medida, na capacidade de auto-regulação das instituições financeiras privadas.

Essas ilusões foram para o espaço. Hoje, já é basicamente aceita a interpretação de que o modelo de regulação “light” adotado nos EUA e em outros países desenvolvidos permitiu os excessos especulativos que levaram à crise financeira. Uma palavra final sobre o Brasil. Para quem ainda tinha dúvidas, as turbulências recentes devem servir como comprovação final de que não se deve jamais deixar a sorte da economia nacional nas mãos da finança internacional. Os países bem-sucedidos são os que regulam cuidadosamente o sistema financeiro, mantêm ajustadas as contas externas e fiscais e preservam a sua independência em relação a capitais estrangeiros.


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[1] Katia Alves: http://desempregozero.org/quem-somos/#katia

[2] Folha: http://www.folha.com.br/

[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/

[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/

[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/

[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/

[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/

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