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Blog do Desemprego Zero

Frei Beto – ótima reflexão

Escrito por Katia Alves, postado em 24 dEurope/London julho dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Por Carlos Alberto Libânio

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China.Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus  mantos  cor  de  açafrão.Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.

Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas, como a companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente (robôs, escravos do modernismo, ignorantes que não estão vivendo, uma triste situação humana!!!

Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã… ‘ ‘Que tanta coisa?’, perguntei.  ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu  programa  de garota robotizada.

Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!”

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a inteligência emocional.

Não adianta ser um superexecutivo se não  se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias  e uma academia de ginástica; hoje, tem 60 academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘ Como estava o defunto?’ ‘Olha, uma maravilha, não tinh uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade?  Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento  emocional,  controla-se  no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode  ter  uma  amiga  íntima  em Tóquio, sem nenhuma preocupação  de  conhecer  o  seu  vizinho  de  prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos  na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com  o  real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos   místicos  virtuais,  religiosos  virtuais,  cidadãos virtuais.  Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina.  Cultura é o refinamento do espírito.  Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções – é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.  A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então,é o dia nacional  da  imbecilização  coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a  publicidade  não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade  é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir  este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo,  que  acaba  precisando  de  um  analista.  Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, falta de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade  onde  há  uma catedral, deve procurar saber a história  daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,  constrói-se  um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers  tem  linhas  arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali  dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.  Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno…  Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados  na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático’. Diante dos olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’.

Para saber mais sobre o autor clique aqui.



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2 Respostas para “Frei Beto – ótima reflexão”

  1. Denise Ribeiro Vilanova falou:

    Frei Beto,
    Tenho sempre esse sentimento de inadequac~ao ,nos tempos
    modernos e sua louca compuls~ao consumista.Tenho uma bus/
    ca espiritual desde dos 13 anos,embora tenha caminhado por
    caminhos tortos.Encontrei o caminho budista,e agora sinto
    que retornei ao meu lugar,tenho uma profunda paz,e sabemos
    como tudo é impermante e interligado.Um pensamento budista
    diz:a verdeira vitória é aquela em que todos vencem.
    FREI BETO LUZ e Estrelas …… Denise

  2. Miriam Konishi falou:

    FREI BETO
    Estou procurando pessoas que me ajudem a ajudar alguém. A preocupaçao com a fome no mundo é constante para mim. Me pergunto se no final das contas saberemos vencer os moralismos e legalismos para chegar ao cerne da questao: a de que somos pessoas indignas se nao ajudarmos a salvar as pessoas da morte pela fome, uma das piores chagas do mundo moderno. Por favor, aguardo uma resposta!

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