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DIAGNOSTICANDO A CRISE AMERICANA

Posted By heldojr On 25 julho, 2008 @ 11:16 am In Conjuntura | No Comments

Por Heldo Siqueira*

Se economicamente essa crise é de dimensões incertas, já deu uma grande contribuição para a teoria econômica: nem os mais ferrenhos ortodoxos acreditam na liberalização total dos mercados financeiros como alternativa eficiente em alocação de recursos. A financeirização (que para os EUA foi muito mais benéfica que para os países emergentes) dos anos 90 culminou com o estouro da bolha dos sub-prime – aparentemente mais grave que as outras por estar alojada no setor imobiliário, um dos mais elementares de qualquer economia. Em seu bojo, trouxe de volta a discussão sobre os limites da abordagem econômica para prever crises sistêmicas. No Brasil, apesar de permanente, a mesma discussão é reavivada a cada vez que a financeirização provoca dificuldades na economia nacional. Entretanto, enquanto no Brasil só percebemos os seus efeitos nebulosos quando a privatização dos lucros já levou o Estado a problemas de financiamento, nos EUA, a discussão acontece em torno da obrigação do Governo de socorrer agentes financeiros ineficientes.

No Brasil, o Governo – a cada surto inflacionário (nacional ou internacional), que diminuiria os juros reais; ou há qualquer restrição do crédito internacional, que poderia dificultar o processo de arbitragem com as taxas de juros internacionais e retirar dos grandes agentes financeiros lucros importantes – não vacila em aumentar os juros. Na verdade, trata-se de uma atitude pró-ativa em relação a eventuais bolhas. Por outro lado, tanta eficiência custa aos cofres públicos bilhões de reais em recursos lastreados nos impostos dos brasileiros. Na verdade, não se trata de socialização dos prejuízos, mas uma privatização dos lucros.

A realidade americana é outra. Como lá, a financeirização serve justamente para evitar problemas de fluxos de capitais e a economia tem menos problemas inflacionários – por ser mais estável – os juros são razoáveis e não trazem problemas para o financiamento do Estado. Entretanto, quando há um risco de recessão acentuada, (relativamente muito menos grave que as brasileiras de 1996 e 1999, quando o desemprego chegou a mais de 15%) o consenso sobre o liberalismo é deixado de lado e o Estado passa a ser o único agente capaz de salvar a economia do colapso. A visão agora é distribuir dinheiro lastreado pelos impostos dos cidadãos para os agentes financeiros e evitar o recrudescimento da crise, mesmo com o risco de aceleração da inflação.

Apesar de tendenciosa para os padrões liberais a idéia é evitar que os efeitos sobre o emprego diminuam o investimento. Havendo diminuição no investimento e do emprego, cai toda a demanda agregada, fruto da diminuição do consumo. Assim, a deflação provoca um aumento ainda maior do desemprego e todo o sistema econômico se desarticula. Na verdade, no ciclo econômico, a reversão da trajetória de alta para a trajetória de baixa é muito mais rápida do que o inverso. Os economistas dos anos 30 sabiam disso, e os novos ortodoxos trataram de apagar esse fato de seus manuais. De qualquer forma, a socialização dos prejuízos, se representar uma queima de capital especulativo, pode realmente diminuir o impacto negativo da crise e representar um benefício para a sociedade. Os mais ricos saem melhor da crise, (como em qualquer situação, seja de crise ou não!) mas o resto da sociedade não fica desempregada.

Obviamente, os efeitos da crise ainda não são completamente conhecidos, mas, para o bem do mundo civilizado, os ortodoxos americanos não são tão surdos quanto os brasileiros. Assim, ouviram as vozes do bom senso e estão agindo para diminuir a amplitude da trajetória de baixa. Fosse um brasileiro no FED, já teria debelado essa inflação com aumento nos juros e estaríamos mergulhados na nova depressão.

* Gremista, economista graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Trabalho na Assessoria de Planejamento do IDAF-ES (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo).


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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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