Brasil está à beira de ser superpotência, diz “FT”
Escrito por lucianasergeiro, postado em 16 dEurope/London julho dEurope/London 2008
Publicado em: O Estado de S. Paulo
Por: Daniela Milanese
JORNAL DESTACA AVANÇOS DOS ÚLTIMOS ANOS E BOAS CONDIÇÕES PARA PRODUÇÃO AGRÍCOLA E DE ENERGIA, MAS LEMBRA QUE AINDA HÁ MUITOS DESAFIOS A SUPERAR
“Surfando em uma grande onda de confiança.” É dessa forma que o jornal britânico Financial Times apresenta o Brasil, em um caderno especial de seis páginas sobre o País, divulgado ontem. A série de reportagens mostra os avanços econômicos, políticos e sociais obtidos nos últimos anos, mas aponta que a tarefa de transformação ainda não está completa. “Não é um exagero dizer que o Brasil está à beira do status de superpotência”, diz o jornal. Conforme a publicação, em um momento de aumento da demanda por alimentos e energia, o País tem uma posição singular.
Além de ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo, o que inclui o etanol de cana-de-açúcar, o Brasil está entre os líderes da indústria automobilística e em breve deve se tornar um importante exportador de petróleo. O mercado interno está explodindo, o que passou a representar um ímã para o investimento externo direto. “Muito disso se tornou possível pelas reformas feitas nos últimos 15 anos”, afirma.
Segundo o FT, as bases da prosperidade do Brasil foram feitas sob a administração de Fernando Henrique Cardoso, e na época condenadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT), então na oposição. “Mas, no governo, Mr. Lula da Silva e seus conselheiros passaram a ver o valor, especialmente para os pobres, da inflação baixa e da estabilidade econômica.”
O jornal destaca a importância do programa Bolsa Família, que colocou uma quarto da população brasileira, de 190 milhões de pessoas, no mercado de consumo pela primeira vez. O FT diz que o programa começou a ser desenvolvido no governo FHC, mas foi amplamente expandido durante a gestão Lula.
Mas a publicação aponta desafios. “A infra-estrutura do País é uma confusão. A saúde pública e os serviços de educação são persistentemente inadequados”, diz. “O custo de falhar ao lidar com essas questões pode trazer outra geração de oportunidades perdidas.”
Conforme o FT, ainda é preciso fazer as reformas da Previdência, da legislação trabalhista e a fiscal. Além disso, um dos principais problemas é o tamanho do setor público, considerado pela publicação um obstáculo ao crescimento.
Mas o jornal reconhece os custos políticos de mudanças como essas. “Para fazer as reformas você precisa queimar o seu próprio capital político”, afirma Fernando Henrique Cardoso, entrevistado pelo FT. “Mas os ganhos só vêm ao longo do tempo.” Por causa disso, afirma o ex-presidente, a agenda do atual governo mudou das reformas mais difíceis para as mais leves, como educação e segurança.
A publicação também aponta que há ameaças à estabilidade macroeconômica. O País passou recentemente a registrar déficit em conta corrente e a inflação pode encerrar o ano em 6,5%, dois pontos porcentuais acima do centro da meta estabelecida pelo governo.
Ness sentido, diz o FT, o ciclo de aperto monetário é um desafio para o cenário de expansão do crédito registrado recentemente no Brasil. “O perigo é que a alta dos juros leve a um aumento da inadimplência e prejudique a expansão dos bancos”, diz o jornal. “O bancos brasileiros estão desafiando a tendência global ao registrar saudável melhora de rentabilidade, tornando pública sua confiança sobre o futuro”, afirma a publicação. Mas, para o FT, a alta dos juros, diante do aumento da inflação, poderá sufocar os empréstimos e reduzir as fontes mais baratas de financiamentos.
Em entrevista ao jornal, o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, traça um quadro positivo, de saúde robusta. Como exemplo, cita que a instituição está abrindo 194 agências este ano, mais do que o número entre 140-150 registrado em 2007. Ele ainda planeja triplicar os empréstimos do banco para R$ 6 bilhões neste ano, ante R$ 2 bilhões em 2006.
Para Celina Vansetti, analista da Moody’s, a alta do juro provoca dois efeitos. De um lado, os bancos aproveitam o rendimento maior de suas carteiras de investimentos. Mas há o risco de alta da inadimplência e de redução da expansão do crédito.











17 dEurope/London julho, 2008 as 9:57 am
A dicotomia liberal, sob a qual quanto mais livre forem os movimentos de capitais, menos alternativas políticas um país têm para o desenvolvimento, parece ter dado espaço a um pouco de bom senso. Surfando na onda internacional, parece que o capitalismo brasileiro vai se libertando de algumas amarras do modelo de acumulação internacional. As vantagens comparativas brasileiras parecem estar deixando de ser heranças divinas e passando, gradativamente, a ser frutos de políticas industriais de desenvolvimento focadas para nossas alternativas.
Durante os anos 90, a financeirização global focada nos investidores individuais geraram dificuldades políticas. Com a centralização dos fluxos de recursos financeiros (por agentes individuais), a alternativa para os países intermediários (no qual se inclui o Brasil) incluía o aumento das taxas de juros, na tentativa de honrar seus balanços de pagamentos. Assim, grande parte das receitas tributárias desses governos migrava (e ainda migra) para o sistema financeiro. Com maior facilidade de evadir esses recursos os governos passaram a ser “reféns” dos seus credores (estrangeiros) que passam a cobrar altos juros para manter seus recursos no país. O resultado são cada vez menos alternativas de política econômica e cada vez mais a uniformização. Quer dizer, a liberdade financeira individual limitou as alternativas de estratégias nacionais.
Por outro lado, há alguns anos essas políticas passaram a trazer dificuldades também para os países desenvolvidos. Os fluxos financeiros deixaram os sistemas de preços de commoditties inflacionados e as bolhas financeiras são cada vez mais recorrentes. Nesse “salve-se quem puder”, parece que o Brasil está tomando um rumo interessante, ao pensar políticas alternativas de desenvolvimento, baseado em avanços produtivos e melhora da eficiência que os tempos de vacas magras nos impeliram.
Com esse novo cenário internacional, políticas que visem melhorar as condições produtivas nacionais, aproveitando nossas vantagens voltam a ser alternativas viáveis. Assim, um país com milhões de pessoas sub-utilizadas (desempregadas ou sub-empregadas) e riquíssimo em recursos naturais só não é uma superpotência se não quiser (ou não encontrar condições políticas para ser).
Abraços
18 dEurope/London julho, 2008 as 10:46 am
Há luz no fim do túnel? O que há de liquidez na econômica real brasileira vem sendo enxugado pelo viés de alta da Selic, a taxa básica de juros. Claro que o rentier tupiniquim não tem do que reclamar. (Ele inclusive torce desesperadamente para que o FED eleve a taxa básica de juros norte-americana.) Afinal, basta observar o seu peso nos agregados monetários contabilizados pelo BCB. A perspectiva do “fim da história” dos neoliberais, por sua vez, alega que o Brasil e os demais países da denominada América Latina deveriam se pautar nas tradicionais vantagens comparativas estáticas da região.
Em mais um artigo n’O Globo, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia 2001, afirma: “O mundo não tem sido bom para o neoliberalismo, este apanhado de idéias baseado na noção fundamentalista de que os mercados são autocorrigíveis, alocam recursos de forma eficiente e atendem bem ao interesse público. Embora os neoliberais não queiram admiti-lo, sua ideologia não passou em outro teste. Ninguém pode argumentar que os mercados financeiros fizeram um belo trabalho ao alocar recursos no fim da década de 90, quando 97% dos investimentos em fibras óticas levaram anos para ver alguma luz” (O fim do neoliberalismo? 16/07/08). Stiglitz continua: “Os mercados também não nos prepararam para os custos ascendentes do petróleo e dos alimentos. É claro que nenhum dos dois setores serve de exemplo de livre mercado, mas este é, em parte, o ponto: a retórica do livre mercado tem sido usada seletivamente – abraçada quando serve a interesses especiais, descartada quando não o faz. Defensores do fundamentalismo de mercado querem transferir a culpa pela falha do mercado para o governo”.
Eles, os fundamentalistas de mercado, desejam também que os governos socializem os prejuízos provocados pelos “mercados livres”.
Um abraço.
21 dEurope/London julho, 2008 as 9:02 pm
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