Autonomia nacional
Escrito por beatriz, postado em 15 dEurope/London julho dEurope/London 2008
*Paulo Nogueira Batista Jr.
O Globo
Posso retomar o tema do desqulíbrio externo? Não quero abusar da paciência do leitor. Sei que a inflação é a preocupação do momento. Mas não devemos esquecer das contas externas, ainda que nessa área não existam grandes riscos no curto prazo. Um país que acumula déficits e dívidas com o exterior pode comprometer o seu desenvolvimento e, até mesmo, a sua autonomia. Ninguém é independente quando precisa de apoio financeiro externo.
É notável a piora da balança comercial no passado recente. As remessas de lucros, as despesas com turismo e outros gastos externos vêm crescendo de forma extraordinária.
Em conseqüência, a conta corrente do balanço de pagamentos (que inclui a balança comercial, serviços, rendas e transferências unilaterais) tem registrado rápida deterioração. Passamos de um superávit de US$13,6 bilhões em 2006 a um déficit de US$15,2 bilhões nos 12 meses até maio de 2008. O levantamento das projeções de mercado, realizado pelo Banco Central, aponta para um déficit em conta corrente de US$23,6 bilhões em 2008 e de US$32,5 bilhões em 2009.
Um déficit em conta corrente de mais de US$30 bilhões já é motivo de preocupação. É verdade que temos atualmente reservas de US$203 bilhões. Mas repare, leitor, essas são as reservas brutas no Banco Central. O país tem um montante considerável de dívidas ou vencimentos externos de curto prazo que, não sendo refinanciados, levam à perda de reservas ou à depreciação cambial.
Em maio, a dívida de curto prazo chegava a US$38 bilhões. A dívida de médio e longo prazos com vencimento nos 360 dias seguintes situava-se em US$24 bilhões. Além disso, há que considerar o estoque de investimentos de porftólio pertencentes a estrangeiros (basicamente ações e títulos de renda fixa). Em abril, esse estoque era de US$225 bilhões. A maior parte desses recursos pode sair rapidamente do país.
Assim, o estoque de passivos externos de curto prazo ou voláteis é da ordem de US$290 bilhões (admitindo-se que todos os títulos de renda fixa em mãos de estrangeiros sejam líquidos ou de curto prazo). Em suma, há um risco de drenagem externa das reservas em situações de grave crise no país ou no exterior.
Não se deve perder de vista que a drenagem externa costuma ser acompanhada de uma drenagem interna, isto é, de fuga de capitais pertencentes a brasileiros. Essa fuga pode ser rápida, pois os ativos financeiros internos têm liquidez e não existem mais restrições importantes à saída de capitais.
É claro que estamos longe desse cenário. Dificilmente haveria uma situação de pânico que pudesse levar à saída imediata das aplicações financeiras ou à impossibilidade de refinanciar as dívidas externas de curto prazo, grande parte das quais está ligada ao financiamento do comércio exterior. Além do mais, uma fuga dos investidores portfólio derrubaria o valor de mercado das suas aplicações. E se o Banco Central permitisse a depreciação do real, em resposta às dificuldades de refinanciamento e às saídas de investimentos de portfólio, ocorreria diminuição automática do equivalente em dólares do estoque de ações e títulos pertencentes a estrangeiros e brasileiros.
De qualquer maneira, bastaria que parte considerável desses investidores e credores buscasse a porta de saída para que se materializasse uma pressão tremenda sobre as reservas ou a taxa de câmbio. A própria desvalorização dos ativos poderia reforçar o movimento de fuga. Nesse caso, a pressão seria provavelmente suficiente para desencadear inflação e para forçar um aumento abrupto da taxa de juro e a adoção de outras medidas recessivas.
No limite, o país seria levado a voltar ao FMI. Experimentaríamos de novo todas as delícias de ter que seguir as metas e o aconselhamento desse organismo. E (menor dos males) o diretor-executivo do Brasil ficaria reduzido à condição de pedinte aqui em Washington.
*PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net










