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A qualidade das expectativas inflacionárias
Posted By heldojr On 24 julho, 2008 @ 10:55 am In Artigos Teóricos,Política Econômica | No Comments
Por Heldo Siqueira
Os modelos macroeconométricos, os principais instrumentos na formulação das expectativas sobre inflação e expansão do PIB utilizados por analistas de mercado, apesar de utilizarem rebuscado ferramental probabilítico, provavelmente tenham muito pouco a explicar sobre a economia real. Na verdade, baseiam-se em uma simplificação drástica da realidade que os permite dar resultados tão precisos (na casa dos centésimos) quanto equivocados. Segundo o bom e velho John Keynes, tratam-se de economistas que preferem estar precisamente errados, a aproximadamente certos. No caso brasileiro, a cada novo boletim Focus, as previsões mudam completamente, sem que os modelos sequer revistos, quanto mais abandonados.
A antiga controvérsia de Cambridge, segundo a qual, a substitubilidade de capital por trabalho não acontece ao longo de toda a distribuição de taxa de juros parece trazer conseqüências mais profundas para os novos modelos macroeconômicos do que pode-se imaginar. O problema surge quando tentamos somar quantidades heterogênias de capital e é denominado reversão de técnicas. Como ilustração, poderíamos recorrer ao questionamento de Joan Robinson sobre as funções de produção, pois, enquanto o trabalho é medido em quantidade de homens hora, não existe unidade de medida para capital.
Tecnicamente, o problema ocorre por causa da integração das funções de produção microeconômicas. Na microeconomia, as funções de produção determinam a distribuição de técnicas, de utilização entre capital e trabalho, que permitiriam uma dada produção. Ao longo da mesma curva (isoquanta), a quantidade produzida seria a mesma. Assim, para que uma isoquanta tenha apenas uma distribuição entre capital e trabalho ótima para cada quantidade produzida, necessariamente ela deve ser convexa em relação à origem. Caso contrário, teríamos várias distribuições de capital e trabalho ótimas para produzir a mesma quantidade de produto, ou ainda, vários pontos de equilíbrio.
Essa é a principal questão da controvérsia do capital. Afinal, mesmo que essa imposição microeconômica seja feita a todas as curvas de produção, é improvável que se verifique quando somamos várias curvas de produção. A solução novo-clássica e novo-keynesiana foi ignorar tal fato e assumir uma economia ultra-simplificada, com apenas uma mercadoria, e que por esse motivo possui uma função de produção com as mesmas características das funções microeconômicas. Assim, poderíamos auferir vetores de preços e quantidades únicos, que permitiriam previsões probabilísticas acerca do crescimento do PIB e sobre a inflação.
A abordagem alternativa, implicaria em vários pontos de equilíbrio determinando uma mesma quantidade. Dessa forma, uma outra distribuição entre capital e trabalho ótima, que não a atual, pode ser utilizada em um momento de expansão ou retração da atividade econômica. Para tanto, basta que haja uma mudança, que no caso de haver perfeita mobilidade de preços é automática, na remuneração dos fatores de produção e, por conseqüência, na distribuição entre capital e trabalho.
A principal conseqüência é que as previsões para inflação e crescimento do PIB dos modelos macroeconométricos tornam-se inconsistentes. Afinal, não pegam as mudanças na remuneração dos fatores de produção e na distribuição entre capital e trabalho. Dessa forma, a cada nova medição os modelos apresentam novas “previsões”, pois apresentam distribuições de capital e trabalho antigas.
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