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A pancada nos juros

Posted By lucianasergeiro On 29 julho, 2008 @ 7:15 pm In O que deu na Imprensa,Política Econômica | No Comments

Por: Luciana Sergeiro [1]

O Banco Central esta semana deu uma pancada na taxa básica, surpreendendo a maioria dos analistas. Em grande parte do mundo inclusive em países desenvolvidos, os juros básicos são atualmente muito baixos. O Brasil lidera o ranking mundial de juros reais. Uma elevação expressiva dos juros básicos terá efeitos negativos, diretos e indiretos, sobre as decisões de investir.  A alta dos juros ameaça também, indiretamente, o investimento público. A alta dos juros beneficia os mais ricos, isto é, os detentores da dívida pública e de ativos financeiros, e também provoca concentração da renda nacional. A enorme diferença entre os juros brasileiros e os do resto do mundo tende a produzir um fortalecimento adicional do real. E o real forte já vem fazendo um grande estrago nas contas externas.

Publicado em: O Globo

Por: Paulo Nogueira Batista Jr.

A batalha contra os juros altos parece não ter fim. Nesta semana, o Banco Central deu uma verdadeira pancada na taxa básica, surpreendendo a maioria dos analistas. A Ata do Comitê de Política Monetária (Copom), a ser divulgada na semana que vem, deveria explicar com especial cuidado as razões dessa decisão radical.

Em grande parte do mundo, inclusive em países desenvolvidos, os juros básicos são atualmente muito baixos ou até negativos em termos reais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa básica é negativa até mesmo quando comparada com o núcleo da inflação (que exclui itens voláteis como alimentos e energia).

Já o Brasil insiste em liderar, e com bastante folga, o ranking mundial de juros reais. Depois do aumento de 0,75 ponto percentual anunciado na última quarta-feira, a nossa taxa real básica alcança nada menos que 7,3% a.a., quando se considera a expectativa mediana de inflação do mercado apurada pelo levantamento do Banco Central. Não há quem possa rivalizar com isso – pelo menos no mundo estatisticamente conhecido.

Existe alguma justificativa plausível para praticar esse nível de juros? Bem, não há dúvida de que a inflação preocupa. O choque externo de preços de alimentos e energia foi violento – é o maior desde a década de 1970. E esse choque ocorreu num momento em que a demanda interna vinha crescendo rapidamente no Brasil. Ainda que o choque externo possa ser considerado a principal causa do aumento da inflação, é compreensível a decisão do governo e do Banco Central de conter a demanda interna, especialmente o consumo.

Mas o uso agressivo da taxa básica de juro não parece defensável. Já tentei argumentar nesta coluna em favor de uma política antiinflacionária mais abrangente e menos dependente desse instrumento.

Há vários motivos para não depender demais da alta dos juros. O primeiro é que essa alta atinge não só o consumo como também o investimento produtivo. É verdade que parte dos investimentos no Brasil é financiada com juros especiais, não afetados pela taxa básica definida pelo Banco Central. Mesmo assim, não se pode desprezar o impacto da taxa básica e das taxas de juro de mercado influenciadas por ela. Uma elevação expressiva dos juros básicos terá efeitos negativos, diretos e indiretos, sobre as decisões de investir.

Ora, é do investimento que depende, em grande medida, a possibilidade de sustentar a retomada em curso no passado recente. Deprimir o investimento é quebrar a espinha dorsal do crescimento.

A alta dos juros ameaça também, indiretamente, o investimento público. Quem paga o grosso da despesa resultante dos juros mais elevados é o próprio Tesouro, pois o custo da dívida pública é determinado pela taxa básica de juros. Como costuma dizer o vice-presidente da República, José Alencar, juros altos produzem um grande desajuste fiscal. E uma das respostas mais fáceis a esse desajuste é cortar ou adiar investimentos públicos. Foi assim que sucessivos governos geraram superávits primários para cobrir parte da conta de juros.

Outro problema é o efeito da política monetária sobre a distribuição da renda. Fala-se muito que a inflação afeta sobretudo os mais pobres e provoca concentração da renda nacional. É verdade. Fala-se muito menos, entretanto, que a alta dos juros beneficia os mais ricos, isto é, os detentores da dívida pública e de ativos financeiros, e também provoca concentração da renda nacional.

Por último, uma palavra sobre o câmbio. A enorme diferença entre os juros brasileiros e os do resto do mundo tende a produzir um fortalecimento adicional do real. E o real forte já vem fazendo um grande estrago nas contas externas.

Espera-se, pelo menos, que o Banco Central compre reservas internacionais para conter a tendência à apreciação real. Ou que o governo reforce as restrições, tributárias ou de outra natureza, à entrada de capitais especulativos.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net [2].


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[3]

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[4] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/

[5] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/

[6] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/

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