A mão que afaga é a mesma que apedreja
Escrito por lucianasergeiro, postado em 7 dEurope/London julho dEurope/London 2008
Por: Luciana Sergeiro
As mesmas commodities que fomentam a inflação são as mesmas responsáveis pela geração de superávits comercias que permitiram ao Brasil ancorar o seu ajuste externo e acumular US$ 200 bilhões de reservas cambiais. O índice de inflação do Brasil está um pouco acima dos países desenvolvidos como EUA e os países da Europa, e abaixo dos países em desenvolvimento como China, Chile, Índia, Rússia, Argentina e Venezuela.
As expectativas do mercado, no Brasil, apontam para uma inflação de 6,3% em 2008, maior que a atual, mas ainda no intervalo superior de tolerância da meta. Para 2009, espera-se 4,8%, mais próxima do centro da meta. O fato é que nunca como agora estivemos preparados para a turbulência, considerando a situação das contas externas, o quadro fiscal e o crescimento dos investimentos.
Publicado em: Folha Online
Por: Antonio Corrêa de Lacerda
A inflação tem crescido na maioria dos países, muito em decorrência do aumento da demanda. O período 2002-2007 foi o de maior crescimento econômico mundial das últimas três décadas, e isso tem elevado a demanda por alimentos e combustíveis, sobretudo com a incorporação de novos consumidores, com destaque para China e Índia.
Mas há também o impacto advindo da especulação nos mercados de ativos, favorecidos pelas baixas taxas de juros reais no mercado internacional.
Primeiro, no mercado imobiliário, o que culminou na crise “subprime”, e, depois, no das commodities. No de petróleo, por exemplo, há o aumento da atuação de fundos de investimentos (pensão, hedge etc.) nos mercados futuros, que, de 2000 para cá, cresceu de US$ 15 bilhões para US$ 250 bilhões. Estima-se que essa participação quase equivalha à demanda anual da China, para ter uma idéia do seu impacto sobre os preços.
O combate à inflação tende a levar inexoravelmente a uma redução do ritmo de crescimento mundial, devido basicamente à elevação dos juros. Também se discute alguma regulação nos mercados futuros visando inibir o espaço para especulação, mas essa medida é um tanto menos exeqüível, dada a complexidade do assunto.
Para o Brasil, lembrando Augusto dos Anjos, “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Se elas fomentam a inflação, essas mesmas commodities em alta foram determinantes para geração de superávits comerciais que permitiram ao Brasil ancorar o seu ajuste externo e acumular US$ 200 bilhões de reservas cambiais.
Embora a inflação no Brasil (IPCA) acumule 5,6% em 12 meses, ainda é pouco acima da dos EUA e da Europa (cerca de 4%) e uma das menores entre países em desenvolvimento. Em período equivalente, o Chile acumula 8,8%, a China, 7,7%, a Índia, 7,8%, e a Rússia, 15,1%, sem falar de Argentina e Venezuela, acima de 30%.
As expectativas do mercado, no Brasil, apontam para uma inflação de 6,3% em 2008, maior que a atual, mas ainda no intervalo superior de tolerância da meta. Para 2009, espera-se 4,8%, mais próxima do centro da meta. O fato é que nunca como agora estivemos preparados para a turbulência, considerando a situação das contas externas, o quadro fiscal e o crescimento dos investimentos.
Para médio e longo prazos, vale destacar o expressivo espaço de expansão na fronteira agrícola. Do ponto de vista energético, há enorme potencial, não só no petróleo e no gás, mas também no etanol e nos biocombustíveis, e plenas condições de explorá-los de forma sustentada. Sob o ponto de vista macroeconômico, há debilidades de curto prazo. A valorização exagerada do câmbio destrói cadeias industriais e gera um crescente déficit nas contas externas.
O câmbio valorizado, em algum momento, cobrará seu preço, na lógica do regime flutuante. A depreciação cambial gerará novas pressões inflacionárias, que exigirão uma política monetária mais apertada e uma certa contração do ritmo de crescimento, embora sem inviabilizá-lo. A base do crescimento do PIB tem sido sustentada pela crescente demanda doméstica, que indubitavelmente perderá ritmo com a maior corrosão da renda pela inflação, alguma contração do crédito e queda relativa da confiança dos consumidores.
Porém, no balanço geral, as oportunidades superam os riscos. O fundamental vai ser ter maestria para separar, sobretudo no tocante à inflação, o que é risco de fato da especulação de mercados e barulho eleitoreiro. Também há que ter sapiência para não cair da acomodação e, ao mesmo tempo, ter serenidade para esperar o efeito de algumas ações em curso que levam algum tempo para surtir efeito.
Nesta semana, o Conselho Monetário Nacional tomou duas decisões sensatas. A primeira foi confirmar para 2010 a meta inflacionária de 4,5%. A segunda foi manter a TJLP em 6,25%, que é importante balizador para tomada de financiamentos para investimentos produtivos no BNDES.
Afinal, se quisermos, de fato, conter pressões inflacionárias futuras e, ao mesmo tempo, manter a economia em crescimento, não seria inteligente exagerar em medidas que provoquem postergação ou mesmo cancelamento de investimentos produtivos.
ANTONIO CORRÊA DE LACERDA , doutor pela Unicamp, é professor doutor do Departamento de Economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de “Crise e Oportunidade: o Brasil e o Cenário Internacional”.










