São Jorge não tem só uma lança
Escrito por Katia Alves, postado em 16 dEurope/London junho dEurope/London 2008
No artigo abaixo, o autor Paulo Nogueira Batista Jr. escreve que a inflação desde 2007 não é um fenômeno brasileiro, mas sim por causa do choque internacional de preços de alimentos, petróleo e outras matérias-primas, mas o aumento da demanda interna acaba contribuindo nos preços também.
É necessário conter a inflação, no entanto deve-se ter cuidado com as medidas que serão adotadas. O autor observa que devem ser usados vários instrumentos para o combate e não apenas a elevação da taxa de juros.
Pois taxas altas têm como conseqüência: atingir o investimento e comprometer o crescimento; sobrecarrega o custo da dívida pública e o déficit governamental. Parte da dívida pública está atrelada à taxa básica de juro e o seu prazo médio ainda é relativamente curto e reforça as pressões para a valorização do real em relação a moedas estrangeiras, afetando as contas externas.
Outras medidas que podem ser usadas são: contenção do crédito, diminuição dos gastos governamentais que não são prioritários e o governo pode atuar também pelo da oferta.
Por Katia Alves
Por Paulo Nogueira Batista Jr.
Publicado originalmente na Folha online
A inflação voltou ao centro das atenções. Fala-se até no despertar do dragão. Os indicadores não chegam a ser alarmantes, mas a preocupação é natural.
O Brasil tem antecedentes monetários deploráveis. O nosso processo inflacionário até meados dos anos 90 foi dos mais intensos e prolongados da história mundial. Assim, todo cuidado é pouco – tanto mais que a inflação costuma atingir com mais força as camadas de baixa renda, especialmente quando ela é liderada pelos alimentos, como ocorre agora. Tendo em vista que a alimentação pesa mais no orçamento dos pobres, a subida dos preços dos alimentos corrói o salário real na base da pirâmide social e provoca concentração da renda.
A aceleração da inflação desde 2007 não é um fenômeno brasileiro. A grande maioria dos países está experimentando aumento da inflação na esteira do choque internacional de preços de alimentos, petróleo e outras matérias-primas. Em vários casos, esses choques externos se combinam com pressões internas decorrentes de um excesso de demanda agregada.
No caso do Brasil, parece claro que a causa dominante é o choque externo de preços, especialmente de alimentos. Mas a rápida expansão da demanda interna de consumo e de investimento também vem contribuindo para o aumento do nível geral de preços.
O que fazer? O desafio é conter a inflação sem sacrificar o crescimento da economia e, em especial, sem derrubar o investimento, que vem mostrando dinamismo no passado recente. O investimento é, ao mesmo tempo, um componente da demanda e a variável que garante a expansão da oferta agregada, isto é, da capacidade produtiva da economia.
O combate à inflação será mais eficaz se estiver baseado num conjunto de instrumentos – e não apenas na elevação da taxa básica de juro. A alta da taxa de juro nominal – e talvez até da taxa básica real – pode ser inevitável. Mas esse instrumento precisa ser usado com moderação, principalmente num país que já é recordista mundial em termos de juros reais.
A moderação é necessária por vários motivos. Primeiro, porque a alta muito acentuada dos juros pode atingir o investimento e comprometer o crescimento não apenas no curto prazo como no médio e longo prazos. É contraproducente conter a demanda via contenção do investimento. O aumento do investimento permite elevar a taxa de crescimento econômico sustentável e compatível com o controle da inflação ao longo do tempo.
Segundo, não se deve perder de vista que o aumento dos juros básicos sobrecarrega o custo da dívida pública e o déficit governamental. Parte da dívida pública está atrelada à taxa básica de juro e o seu prazo médio ainda é relativamente curto.
Por último, mas não menos relevante, a elevação da taxa de juro reforça as pressões para a valorização do real em relação a moedas estrangeiras. Essa valorização ajuda no combate à inflação, mas já foi longe demais e está solapando as contas externas brasileiras, como comentei repetidamente nesta coluna.
Há outros instrumentos, e o governo começou a acioná-los. A demanda pode ser contida, por exemplo, com mais disciplina no controle dos gastos públicos não-prioritários. É isso que o governo parece estar sinalizando quando anunciou o aumento da meta para o superávit primário. É importante preservar os investimentos públicos em infra-estrutura e os programas sociais e de distribuição de renda. Mas também é necessário disciplinar despesas correntes menos essenciais e cortar desperdícios.
Outra forma de segurar a demanda é estabelecer controles seletivos de crédito, especialmente do crédito destinado ao consumo. Grande parte do estímulo à expansão do consumo parece advir da ampliação da oferta de crédito.
O governo também pode atuar do lado da oferta. Quando conveniente, pode lançar mão de medidas pontuais de redução de impostos ou de tarifas e barreiras à importação para desafogar pressões localizadas de preços, como fez no caso do trigo e dos combustíveis.
Controlar a inflação, sim. Mas sem depender excessivamente de um único instrumento e sem sacrificar outros objetivos da política econômica.










