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O erro tipo 3

Posted By Katia Alves On 13 junho, 2008 @ 4:19 pm In Assuntos,Conjuntura,O que deu na Imprensa | No Comments

O novo livro de Ian I. Mitroff e Abraham Silvers: Dirty Rotten Strategies: How We Trick Ourselves and Others into Solving the Wrong Problems Precisely, a ser lançado em 2008, fala a respeito do erro tipo três. A idéia do erro tipo 3 veio do estatístico John Tukey, que argumentava que a maior parte dos erros ocorre porque tentamos resolver os problemas errados e não porque falhamos em conseguir as soluções certas para os problemas certos.

Os autores alegam que a maioria das situações nas quais surgem os erros tipo 3 é que acreditamos saber, de antemão, qual é a raiz de um problema. Parte considerável dessa questionável premissa, segundo os autores, se deve ao sistema de “des-educação” – onde somos treinados para resolver exercícios, que têm soluções lógicas e únicas, e não problemas, difíceis que podem levar a várias soluções.

Por  Katia Alves [1]

Por Thomaz Wood Jr.

Publicado originalmente na Carta Capital [2]

Há pouco mais de dez anos, as montadoras instaladas em Pindorama viviam um momento bem diferente do atual. Diante da situação econômica desfavorável e da retração do consumo, elas tinham os pátios inundados com um mar de veículos novos e reduziam a produção. Enquanto isso, um grande fornecedor de autopeças, embora ligado por cordão umbilical às montadoras, agia como se habitasse um planeta distante. Seu diretor industrial, orgulhoso dos quadros e das máquinas, comemorava mais um recorde de produção. O paradoxo era óbvio. Como seria possível para um fornecedor quebrar recordes, se os seus principais clientes reduziam drasticamente a produção? De fato, milagre não havia. A empresa em questão produzia, mas não vendia. Os estoques de produto acabado lotavam seus armazéns e eram levados para armazéns externos, alugados em ritmo de emergência e a preço de ouro. A queda do faturamento obrigava a empresa a captar dinheiro em bancos para comprar matéria-prima. A situação era, de fato, surreal. A empresa tomava empréstimos para produzir em velocidades cada vez maiores e estocar, a um custo cada vez mais alto, um produto que seus clientes não queriam. Felizmente, a insensatez foi descoberta e o prejuízo contido.

Situações como essa são muito comuns. A todo momento, nas empresas, é possível identificar esforços sinceros para resolver da forma mais eficaz possível determinados problemas. No entanto, em muitos casos, esses problemas são errados. No caso acima, um enorme esforço da equipe de produção havia sido realizado para eliminar gargalos e maximizar o uso dos equipamentos e recursos. A questão real, no entanto, situava-se além da fronteira da produção: era uma questão de mercado.

Esse é o tema do novo livro dos veteranos pesquisadores Ian I. Mitroff e Abraham Silvers: Dirty Rotten Strategies: How We Trick Ourselves and Others into Solving the Wrong Problems Precisely, a ser lançado em 2008 pela Stanford University Press. Mitroff e Silvers denominam a conduta acima de erro tipo 3. Os erros do tipo 1 e 2 tiveram seu uso consagrado pela estatística. O erro tipo 1 refere-se a rejeitar como falsa uma hipótese verdadeira e o erro tipo 2, a aceitar como verdadeira uma hipótese falsa. Em síntese, o erro tipo 3 refere-se a solucionar de forma correta o problema errado.

A idéia do erro tipo 3 veio do estatístico John Tukey, que argumentava que a maior parte dos erros ocorre porque tentamos resolver os problemas errados e não porque falhamos em conseguir as soluções certas para os problemas certos. A denominação de erro tipo 3 foi dada por Howard Raiffa, um pesquisador da teoria das decisões.

O ponto de partida de Mitroff e Silvers foi o trabalho de Jerome Groopman, um hematologista de Harvard. Groopman analisou a questão dos erros médicos. Seu argumento é que parte considerável desses erros resulta da forma padronizada como os médicos são formados e da pressão a que são submetidos para agir com assertividade e rapidez. Em lugar de considerar diversas possibilidades de problemas e diagnóstico, a formação e a prática dos médicos os forçam a usar certas rotinas para tratar problemas complexos. Falta análise crítica. Os resultados podem ser, eventualmente, fatais.

A dificuldade com a maior das situações nas quais surgem os erros tipo 3 é que nós acreditamos saber, de antemão, qual é a raiz de um problema. Parte considerável dessa questionável premissa, segundo os autores, se deve ao sistema de “des-educação” (sic). Explica-se: na escola, em todos os níveis, somos induzidos a confundir “exercícios” com “problemas”. Somos treinados para resolver exercícios, que têm soluções lógicas e únicas, e não problemas, que são complexos, exigem análises amplas e podem levar a múltiplas soluções. Então, levamos tal distorção para a vida profissional e tentamos resolver situações complexas com o uso de ferramentas simples.

 Ambiciosa, a obra de Mitroff e Silvers procura ir além dos casos específicos e compreender os padrões que permeiam as situações que levam ao erro tipo 3. Seu foco ultrapassa as fronteiras corporativas e repousa sobre grandes temas da atualidade norte-americana: o caro e criticado sistema de saúde (objeto do mais recente documentário de Michael Moore), as meias-verdades e inverdades utilizadas para justificar a Guerra do Iraque, o fiasco do atendimento das vítimas do furacão Katrina e o polêmico fenômeno das megaigrejas e a “reinvenção de Deus”.

 

 


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[1]  Katia Alves: http://desempregozero.org/quem-somos/#katia

[2] Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=1032

[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/

[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/

[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/

[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/

[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/

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