No ritímo do País
Escrito por lucianasergeiro, postado em 10 dEurope/London junho dEurope/London 2008
Na entrevista concedida a Revista CartaCapital, o presidente da Nestlé Brasil, Ivan Zurita mostra-se
otimista a respeito do futuro do País, segundo Zurita, a economia entrou em um ritmo irreversível de crescimento, com a inclusão da população paupérrima ao mercado de consumo. A empresa apostou neste consumo e fábrica produtos mais baratos que são vendidos por senhoras de comunidades carentes porta a porta. As classes C, D e E, que representam 82% do consumo de alimentos no País.
A empresa acredita em projetos que criem valor para a sociedade, e recruta senhoras de comunidades carentes, para tornarem-se vendedoras porta em porta, auferindo uma renda de 1,5 mil a 2 mil reais por mês, a empresa também criou um projeto em que crianças do Rio de Janeiro moradoras de favelas, que ganhariam cerca de R$ 600,00 por mês com o tráfico de drogas, se elas venderem os produtos da empresa também de porta em porta, irão obter uma renda de R$ 800,00 por mês. A empresa levou essa idéia para os governos estaduais.
Para Zurita o Brasil mudou, e quem não entender isso, ficará a margem do mercado, há uma nova classe de consumidores surgindo velozmente. Através dos programas sociais potencializados no governo Lula, a classe social menos favorecida pôde consumir produtos que antes não era possível. A sociedade vai cobrar a continuidade desses programas de redução contra a pobreza. O Brasil ainda tem muitos problemas para serem solucionados, porém nada será capaz de interromper o curso positivo do País.
Por Luciana Sergeiro – Editora
Publicado em: CartaCapital
Por: Márcia Pinheiro
Ivan Zurita é presidente da Nestlé Brasil desde maio de 2001. É um otimista sobre o futuro do País. A economia teria entrado em ritmo irreversível de crescimento, com a inclusão da população paupérrima ao mercado de consumo, seja pelo acesso ao crédito ou pelos programas sociais do governo. A empresa apostou nesse nicho há três anos e fabrica produtos mais baratos, vendidos por senhoras de comunidades carentes porta a porta. A companhia tem 17 mil empregados diretos e 120 mil indiretos. Fatura cerca de 12,6 bilhões de reais por ano, sendo 300 milhões na linha popular. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à CartaCapital.
CartaCapital: Há uma clara ascensão das classes C, D e E a produtos um pouco mais sofisticados, que extrapolam a mera sobrevivência alimentar. Em termos macroeconômicos, como o senhor avalia essa nova realidade?
Ivan Zurita: De uns anos para cá, despertamos para a sensibilidade social. É um fato histórico e inédito, de incluir os excluídos no mercado de consumo. Como organização, a Nestlé não acredita no sucesso da companhia sem uma economia sólida. Com esse despertar e a análise profunda das diferenças regionais e do perfil do consumidor, com 85 anos de idade, nossa empresa tem 87% de presença nos domicílios. Criou-se uma empresa multinacional, com sabor local. Nosso compromisso é responder às expectativas do consumidor, com diferentes níveis de renda. A partir de estudos, deparamos com um imenso potencial nas classes C, D e E, que representam 82% do consumo de alimentos no País.
CC: Programas sociais compensatórios estão relacionados com o maior poder de compra das classes mais pobres?
IZ: Sem dúvida. Sentimos isso nas regiões onde estão nossos distribuidores. Infelizmente, ainda, a pobreza extrema passou para a pobreza. O processo é lento, mas foi dado um passo muito importante para os cidadãos participarem do mercado de consumo. Por que os muito pobres não compram nos supermercados, nas grandes cadeias? Porque a incidência do transporte poderia pesar em até 50% do salário. Esse cidadão não tem dinheiro para fazer a compra do mês. É no dia-a-dia. Nem tem como transportar uma compra grande. Há ainda o que chamam de famílias escondidas. São os parentes que vivem na mesma casa: tios, primas, avós. A renda per capita pode ser baixa, mas a do lar não é. Há ainda a importância fortíssima do crédito, que cresceu. Temos agora 5,8 mil mulheres que trabalham como revendedoras de produtos mais populares da Nestlé. Vendem porta a porta. Conhecem a vizinhança e criam a fidelidade.
CC: Como a Nestlé recruta essas vendedoras?
IZ: São senhoras, que moram na própria favela, e precisam de trabalho. Fazemos uma seleção. E há os gerentes de produto, também da comunidade, que é um minidistribuidor e armazena as mercadorias. As senhoras tiram de 1,5 mil a 2 mil reais por mês. Quanto aos gerentes, a Nestlé controla o estoque e faz a gestão para eles. São funcionários terceirizados. Financiamos o estoque. Quase uma venda por consignação.
CC: Em que regiões, basicamente, essa estratégia para a baixa renda está concentrada?
IZ: No Nordeste, principalmente com produtos feitos em uma fábrica em Feira de Santana (Bahia). Investimos 120 milhões de reais e ela já opera a plena capacidade. Não se toca na qualidade, que é a mesma para a renda mais alta. O estômago não tem classe social. Mudamos a embalagem e a distribuição. Por exemplo, o Nescafé é produzido em Araras (SP), a maior fábrica. Transporta-se e envasa-se lá no Nordeste em sachês, não em frascos, que são mais caros. Também o imposto, que lá é bem mais barato. São as vantagens fiscais. Na periferia de São Paulo, estamos fazendo o teste porta a porta, por enquanto. No Rio de Janeiro, quanto ganha uma criança que distribui drogas? Cerca de 600 reais por mês. Fizemos um plano para eles venderem na favela e ganhar no mínimo 800 reais. Estamos levando esse tipo de idéia para os governos estaduais. Nós só acreditamos em projetos que criem valores para a sociedade. Por exemplo, o setor leiteiro. Há os assentados em Paranapanema e em Andradina, interior de São Paulo, que receberam o seu título de terra e capital para tocar o negócio. Organizamos uma produção de leite e hoje cada um produz até 500 litros por dia, têm renda, vida digna, as crianças na escola. Estão felizes. E é negócio para a Nestlé. Não é filantropia. Trabalhamos juntos. Temos 120 mil pessoas no campo trabalhando para nós, de maneira indireta. Diretos, somos 17 mil funcionários.
CC: Além do leite, o que mais as classes mais pobres demandam?
IZ: Os produtos básicos, como biscoitos e iogurtes. Fornecemos uma bolsa térmica, para o consumidor que não tenha uma geladeira. Na semana seguinte, o consumidor paga à revendedora, que traz outra bolsa. Temos também sorvete líquido, para colocar apenas meia hora na geladeira e não consumir eletricidade. Isso diminui o nosso custo de transporte.
CC: Quem é o grande concorrente da Nestlé nesse segmento?
IZ: Saímos na frente. Há três anos trabalhamos esse mercado.
CC: E em outros? Quem olhou rapidamente para esse novo consumidor?
IZ: O crédito ajudou muito. Por exemplo, é sustentável comprar um automóvel a prestações por 200 ou 300 reais ao mês. Os pobres nunca tiveram crédito. Por que não podem consumir? Por que não podem viajar? Por exemplo, o setor da construção. O Brasil tem um grande déficit habitacional. Há um tremendo potencial. Há construtoras financiando casas de 20 mil a 30 mil reais.
CC: Mas vocês concorrem com as soluções locais, não?
IZ: Sempre vão existir. Somos mais uma solução. Havia uma pequena empresa que vendia suco para as escolas da prefeitura em São Paulo. Oferecemos leite. Hoje, as crianças levam leite para casa das escolas municipais. Claro que as mães não querem outro leite que não seja o Ninho, porque percebem a diferença na qualidade. A empresa entra no setor de baixa renda por meio da merenda.
CC: Em termos de faturamento total da Nestlé no Brasil, qual é o porcentual dos produtos mais populares?
IZ: Nos setores de baixa renda, superamos 300 milhões de reais ao ano de faturamento. É pouco diante do total de 12,6 bilhões de reais de receita da Nestlé em um ano? É, por enquanto, mas se trata de um nicho interessante, em crescimento. No máximo em cinco anos, espero faturar 1 bilhão de reais com produtos populares. O crescimento no Nordeste é o dobro do restante do País. Mesmo porque temos embalagens menores. O cidadão que está com fome no ônibus pode comprar uma miniporção de bolacha. Na periferia do Recife, por exemplo, vi vendas de café em pó por colher. Essa é a realidade.
CC: Uma empresa do porte da Nestlé investe sempre pensando a longo prazo. Por ora, temos o governo Lula, que, indubitavelmente, incentivou o consumo das classes menos favorecidas. Mas em dois anos e meio, tudo pode mudar. Como fica a estratégia da empresa?
IZ: Esse é um curso social irreversível. O cidadão não é pobre por ser vagabundo. A velocidade do crescimento do Brasil será rápida. Independentemente de governos ou orientações políticas. Somos apolíticos porque respeitamos a opinião da maioria. Trabalhamos com qualquer partido político. Com todos os governadores e ministros. O Brasil mudou. Quem não entendeu isso vai morrer na praia. Lula teve a inteligência de consolidar vários programas sociais e potencializá-los. A própria população vai cobrar a continuidade. Ninguém pode estar contra a redução da pobreza. Não vale a pena comparar o país de hoje com o passado. Temos de comparar com o mundo. É claro ser preciso movimentar o Brasil, o que não é fácil. Temos problemas urgentes de infra-estrutura, para fazer frente ao crescimento. Mas, sinceramente, não vejo, no futuro, nenhum problema político, econômico e social capaz de interromper esse curso positivo.










