Mercado perdoa ‘duplo erro’ do BC
Escrito por Katia Alves, postado em 18 dEurope/London junho dEurope/London 2008
No artigo a seguir, o autor do texto afirma que o banco central errou duas vezes, a primeira vez foi quando subestimou o retorno da inflação, reajustou 0,50 ponto da taxa Selic e o segundo erro foi por não confessar que errou.
Mas assumir o engano significaria a confissão de uma falibilidade imprópria a um BC mundialmente enaltecido por seu inflexível conservadorismo de resultados.
Por Katia Alves
Publicado originalmente no Valor
Por Luiz Sérgio Guimarães
O mercado monetário não está muito preocupado em checar a veracidade das acusações de que o Copom teria errado duplamente. O primeiro erro teria sido o de subestimar o retorno da inflação ao, na reunião de abril, aplicar um ajuste de 0,50 ponto à taxa Selic e considerá-lo – como a pedir desculpa pelo excesso de ortodoxia – “parte relevante” do movimento total de alta. Traduzidas coloquialmente, a decisão e a ata de abril diziam o seguinte ao mercado: “Olha gente, eu sei que a inflação não merece esse aumento todo, mas eu preciso mostrar que continuo conservador. Por isso, o primeiro golpe será fundo, mas os posteriores, superficiais”.
Os índices sobre a inflação corrente divulgados depois mostraram que, na verdade, o Copom não estava de modo algum agindo “preventivamente”. Os indicadores deixaram patente que a alta de 0,50 ponto era, isto sim, muito condescendente. Este foi o primeiro erro. O segundo foi o de não confessar que errou. No Copom seguinte, o Banco Central sustentou o ritmo de 0,50 ponto e garantiu que o repique inflacionário tinha sido previsto. O mercado sabe que esta serenidade é forjada e falsa.
Projeções de CDI oscilam pouco depois do Focus
O Copom tem consciência de que errou – como, de resto, errou todo o mercado, ninguém esperava tamanha violência inflacionária -, mas assumir o engano significaria a confissão de uma falibilidade imprópria a um BC mundialmente enaltecido por seu inflexível conservadorismo de resultados. Se o último Copom tivesse acelerado a velocidade de alta para 0,75 ponto, assumiria publicamente o seu escorregão anterior. Não assumiu nem na decisão, nem na ata, tida como exageradamente autoconfiante. Mas os analistas têm certeza que irá jogar-se de cabeça na nova realidade inflacionária no próximo Relatório de Inflação, a ser publicado na semana que vem. Nele, abrirá um canal importante para a possibilidade de o juro subir 0,75 ponto já na reunião de 23 de julho. O Relatório pode contradizer a ata do Copom? E a ata não é mais relevante que ele para sinalizar a política monetária? Temporalmente, o Relatório é um complemento ricamente detalhado da ata, sobretudo dos aspectos relevantes que ocorreram após a reunião ordinária do Copom. E, do ponto de vista do arcabouço legal do sistema de metas, um documento não é mais importante que o outro. Nem tecnicamente, para o mercado.
Esta certeza tira força da alta dos juros negociados no mercado futuro da BM&F. O pregão sabe que, se o BC não gosta de dar a mão imediatamente à palmatória, não teima no engano repetidamente. Se a manutenção da alta de 0,50 ponto no Copom de junho fosse interpretada pelos analistas como alteração na postura essencial do BC, para uma feição inflacionária mais tolerante, a expectativa de IPCA para 2009 teria explodido. Mas não. A expectativa de inflação para o ano que vem subiu suavemente, segundo o Boletim Focus divulgado ontem, de 4,60% para 4,63%. Nesse prognóstico, está presente um largo voto de confiança do mercado no seu BC. O de que, apesar dos equívocos iniciais, a administração monetária não permitirá que a inflação de 2008 contamine inercialmente a de 2009 a ponto de fazê-la distanciar-se do centro da meta.
Nos prêmios robustos incorporados à estrutura a termo da taxa de juros são tangíveis duas apostas. A primeira é que o IPCA de 2008 não vai estourar o teto da banda de flutuação admitido pelo sistema de metas. Pelo sistema, a inflação anual não deve ser menor que 2,5% nem maior que 6,5%. A segunda é que o repique se extingue em 2008. Pelo Focus, a Selic fecha o ano em 14,25% e depois começa a cair até chegar a 12,75% em dezembro de 2009. As mudanças de taxas feitas ontem nos contratos de juros futuros foram muito tímidas. O vencimento mais negociado, para julho, cedeu 0,01 ponto, para 12,08%. Para agosto e setembro, a alteração foi igualmente diminuta: alta de 0,01 ponto, para 12,20% e 12,40%, respectivamente. Outubro de 2008 também se mexeu somente 0,01 ponto, mas para baixo, a 12,62%. E o contrato para a virada do ano ficou estável a 13,24%.
Nada que transmita, portanto, qualquer suspeita de preocupação com o destino inflacionário do país e a capacidade do BC em lidar com os problemas. O Copom não perdeu a batalha das expectativas, como alguns altistas já estão querendo insinuar. Até porque o câmbio não chancela o jogo de prêmios incessantemente mais elevados armado pelo DI sobretudo na parte longa da curva de juros. Ontem, o dólar fechou em baixa de 0,61%, cotado a R$ 1,6260. A inflação ainda é um caso de choque de oferta em meio a uma demanda aquecida, sem traumatismo cambial.










