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Inflação, manias e pânicos
Posted By Katia Alves On 29 junho, 2008 @ 4:34 pm In Assuntos,Conjuntura,O que deu na Imprensa,Política Econômica | No Comments
Por Katia Alves [1]
De acordo com o autor, Antonio Prado, temos uma combinação incomum de fatores que projetam os preços para cima. Uma demanda crescente de alimentos nos países emergentes, principalmente nos BRICs, uma disputa por alimentos para a produção de etanol a partir de grãos (EUA), e não cana de açúcar (Brasil), e uma especulação gigantesca no mercado de commodities, ainda como eco da crise do dólar e dos subprimes.
O dilema está em elevar os juros demais a um custo muito alto de desaceleração do crescimento do PIB; ou elevar de menos e deixar a inflação ultrapassar os limites da meta de inflação e derrubar o poder aquisitivo dos salários. Não é uma decisão fácil, mas recomenda a prudência que em mar de icebergs deve-se navegar despacito. O Bacen não deve se impressionar com os gritos de pânico.
Publicado originalmente Valor [2]
Por Antonio Prado
A literatura sobre políticas monetárias é ampla, diversa e plena de polêmicas. Mesmo entre os que confessam a mesma fé, há divergências. O pai das regras que regem as políticas de metas de inflação, Mr. Taylor, desenvolveu um método para avaliar a qualidade das políticas monetárias e o aplicou ao seu país, os Estados Unidos. Sugeriu que em vários momentos o aperto monetário foi excessivo, em outros, tardio, incorrendo em sobre-custos em relação ao desemprego e ao Produto Interno Bruto (PIB) ou em volatilidade da inflação. Ele garante que os bancos centrais erram a mão e não é um keynesiano heterodoxo.
Mesmo que o seu método, o de Mr. Taylor, seja também objeto de polêmica, a questão é que não há tal coisa como um banco central dotado da infalibilidade. Para os espíritos que necessitam deste conforto, nossa solidariedade. Mas os bancos centrais muitas vezes seguem o tato. Demoram a agir quando deveriam ou exageram na reação quando o fazem. É natural que isso ocorra, pois atuam sobre uma rede de alta tensão ligada, que é a economia.
Uma coisa está clara para todos que observam o ambiente inflacionário brasileiro e mundial: o problema é grave. Temos uma combinação incomum de fatores que projetam os preços para cima. Uma demanda crescente de alimentos nos países emergentes, principalmente nos BRICs, uma disputa por alimentos para a produção de etanol a partir de grãos (EUA), e não cana de açúcar (Brasil), e uma especulação gigantesca no mercado de commodities, ainda como eco da crise do dólar e dos subprimes.
Este último fator merece atenção especial, pois tem havido um silêncio de túmulo em relação a ele, com raras exceções. O mercado financeiro mundial gira a incompreensível fortuna de US$ 120 trilhões, buscando de forma incessante sua valorização. Essa busca frenética, em um ambiente de regulação escassa, causa distorções e também falcatruas espetaculares. Já testemunhamos, desde 1998, o estouro trilhionário provocado pelos gênios da alavancagem na LTCM, o colapso da Nova Economia-Nasdaq, a crise das fraudes financeiras da Enron&Arthur Andersen e outras impecáveis.
A vergonhosa crise dos subprimes aguçou uma nova bolha, a dos preços das commodities. Os que correm do dólar fraco e do esboroamento da ciranda imobiliária americana estão se posicionando em commodities. O crescimento dos preços dos grãos, dos metais e do petróleo não pode ser explicado apenas pela dinâmica entre demanda e oferta de bens e serviços. Há uma avalanche de investidores institucionais no mercado de futuros comprando contratos com voracidade. A esse respeito, é instrutivo ler o depoimento que Mr. Michael Masters fez no Senado americano, em 20 de maio de 2008.
Temos uma grave combinação, com demanda crescente de alimentos, disputa produtiva entre alimentos e etanol e uma especulação gigantesca
Este especialista chama a atenção para os efeitos da entrada de novos investidores no mercado de futuros de commodities e apresenta muitos dados para respaldar seus argumentos. Em sua visão, é a ação destes especuladores não-tradicionais que está provocando este aumento brutal dos preços de alimentos, metais e petróleo.
As autoridades americanas já perceberam o risco econômico e político de mais essa aventura financeira. A inflação escala em nível mundial e com ela os protestos dos famintos de energia ou comida. Vêm aos poucos sinalizando que podem intervir. Mr. Paulson, do Tesouro dos EUA, declara que não afasta uma intervenção para valorizar o dólar, e Mr. Bernanke, do Fed, que poderá a qualquer momento voltar a subir os juros. Mesmo que não façam nada abrupto, os especuladores entenderam muito bem a mensagem. O que vem subindo, pode cair.
Este é o ponto que deve chamar atenção de nossas autoridades. O cenário à frente é de ampliação da volatilidade. As pressões inflacionárias externas estão apenas chegando ao IPCA – é só verificar as séries de preços de tradables e non-tradables, no Ipeadata. Por enquanto, são principalmente os choques adversos internos que pressionam a cesta básica, mas os externos estão chegando.
O dilema está em elevar os juros demais a um custo muito alto de desaceleração do crescimento do PIB; ou elevar de menos e deixar a inflação ultrapassar os limites da meta de inflação e derrubar o poder aquisitivo dos salários. Não é uma decisão fácil, mas recomenda a prudência que em mar de icebergs deve-se navegar despacito. O Bacen não deve se impressionar com os gritos de pânico. Nossa inflação é menor que a média dos emergentes e está dentro da margem de tolerância da política de metas de inflação. E, mais uma vez, a bolha de commodities pode estourar mais à frente, logo quando a transmissão da elevação da taxa de juros à demanda e aos preços se concretizar.
No Brasil há um culto à autoridade monetária. E uma tentativa permanente de interditar o debate sobre suas políticas. É bom dizer, é melhor que ele ocorra e que seja público, pois isso amplia os insumos para análise daqueles que tomam as decisões nas reuniões do Copom. Os artigos de ex-banqueiros centrais publicados na imprensa brasileira não são unânimes sobre as decisões do Copom. Há os que vêem acertos na direção, nos ritmos, nas intensidades e na presciência; e outros que lamentam o triste senso de sintonia fina do Bacen. E sua falta de arte, como prefere o ex-ministro Delfim Netto – que aliás nunca foi banqueiro central.
A continuidade do controle fiscal, a ampliação dos estímulos fiscais e creditícios à produção de alimentos, a política industrial e a moderação no crédito ao consumo poderão por sua vez ajudar bastante na contenção do surto inflacionário atual. O importante é diagnosticar com precisão os fatores que pressionam os preços e atuar sobre eles. Assim, a nossa procissão de milagres poderá se sustentar.
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[2] Valor: http://www.valor.com.br/
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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