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Desenvolvimento, crise e recuperação da indústria
Posted By Katia Alves On 13 junho, 2008 @ 8:09 pm In Assuntos,Desenvolvimento,O que deu na Imprensa,Política Econômica,política industrial | 1 Comment
Márcio Pochmann, presidente do IPEA, declara no artigo abaixo a característica da industrialização brasileira. Após a década de trinta começa a ter políticas voltadas para o processo de industrialização no país e a expansão da indústria ocorreu associada à liderança dos capitais estrangeiros que introduziram pouca inovação tecnológica. O parque produtivo ficou dependente do financiamento externo e o país ficou vários anos sem conseguir reduzir substancialmente o grau de dependência externa
Pochmann afirma que desde a década de 70 houve profunda alteração na posição das grandes corporações transnacionais e nas modificações do sistema financeiro internacional, o Brasil por mais de duas décadas passou por uma grave crise no seu sistema produtivo. Sob o baixo dinamismo da produção e a semi-estagnação da renda per capita que se seguiram à crise da dívida externa (1981 a 1983).
Adoção de programas de constantes ajustes fiscais levou à contenção e modificações no curso do Sistema Brasileiro de Ciência e Tecnologia em construção desde a década de 1940 afetando os incentivos a pesquisa. Com a privatização isso piorou, porque houve desarticulação nos ambientes de pesquisa e desenvolvimento mantidos por grandes empresas públicas e aplicados às atividades produtivas.
Por Katia Alves [1]
Publicado originalmente no Valor [2]
Por Márcio Pochmann
Na relação com outros poucos países da periferia mundial que conseguiram avançar na industrialização, o Brasil apresenta dois aspectos especiais. O primeiro refere-se à constituição do Estado simultaneamente à explosão da Revolução Industrial, permitindo diferenciar-se das demais experiências de descolonização que acompanharam os países que ousaram instalar uma estrutura industrial ampla e diversificada. O segundo aspecto revela a escassa experiência do núcleo tecnológico endógeno na industrialização brasileira equivalente aos países centrais, indicando o avanço insuficiente da base técnico-produtiva.
Na fase de relativa estabilidade tecnológica mundial, quando o Brasil conseguiu internalizar entre as décadas de 1930 e 1970 as bases da industrialização oriunda da segunda Revolução Industrial e Tecnológica surgida no final do século XIX, a expansão da estrutura industrial ocorreu associada à liderança dos capitais estrangeiros. Noutras palavras, parte importante da estrutura industrial dependeu da transferência de módulos fabris capazes de reproduzir a fábrica matriz por meio de empresas filiais no Brasil, que mantiveram distantes, em geral, as funções relacionadas às inovações tecnológicas.
Ademais da presença determinante das fontes tecnológicas estrangeiras, constata-se também que a instalação do parque produtivo industrial manteve se dependente do financiamento externo. Com isso, o Brasil, após meio século de industrialização, permanecia ainda sem conseguir reduzir substancialmente o grau de dependência externa. Isso tendeu a se agravar mais a partir da arrancada de uma nova onda de modernização tecnológica desde a década de 1970, acompanhada de profunda alteração na posição das grandes corporações transnacionais e nas modificações do sistema financeiro internacional, com o esgotamento do padrão monetário e das instituições reguladoras instaladas desde o segundo pós-guerra mundial (Sistema de Bretton Woods). A partir de então, frente ao movimento mais geral de concentração e centralização do capital no interior dos grandes grupos econômico-financeiros do mundo, com ampliação dos investimentos em tecnologia e ampliação do comércio intrafirmas, o Brasil ingressou – por mais de duas décadas – numa grave crise no seu sistema produtivo que terminou por transformar profundamente a forma anterior de inserção na economia mundial. Sob o baixo dinamismo da produção e a semi-estagnação da renda per capita que se seguiram à crise da dívida externa (1981 a 1983), importantes modificações foram sendo introduzidas no interior do sistema produtivo, capazes de torná-lo ainda mais dependente de fontes externas de tecnologia.
De um lado, a adoção seguida de programas de constantes ajustes fiscais levou à contenção e modificações no curso do Sistema Brasileiro de Ciência e Tecnologia em construção desde a década de 1940. Afetou, sobretudo, o conjunto de procedimentos, de recursos e de ações dos organismos de financiamento e apoio à pesquisa, bem como os próprios centros nacionais de produção de conhecimento. Da mesma forma, notou-se que a partir da década de 1990, com a privatização do setor produtivo estatal, ocorreu uma importante desarticulação nos ambientes de pesquisa e desenvolvimento mantidos por grandes empresas públicas e aplicados às atividades produtivas.
De outro lado, a desconexão do Sistema Brasileiro de Ciência e Tecnologia agravou-se ainda mais com a abrupta e despreparada abertura comercial, produtiva e financeira conduzida pelo país ao longo dos anos 90. Além do vigor da onda de internacionalização das empresas privadas nacionais (compra pelo capital estrangeiro), ganhou crescente destaque a opção pela aquisição externa de “pacotes tecnológicos” ao invés da produção interna ou em parceria cooperada.
Nesse contexto, o Brasil parece ampliar o grau de heterogeneidade no interior do seu sistema produtivo. Destaca-se, assim, o aparecimento de uma superelite de empresas e de trabalhadores que se diferenciam significativamente do conjunto da estrutura industrial devido ao peso nos investimentos em tecnologia e na especialização qualitativa de seus empregados. Tudo isso vem alcançando dimensão destacada a partir do esgotamento do projeto de desenvolvimento durante a década de 1980. De lá para cá, observa-se que a indústria de transformação interrompeu a longa trajetória de expansão de sua participação tanto no Produto Interno Bruto (PIB) quanto na ocupação total do país. De 1950 a 1980, a indústria de transformação aumentou sua participação relativa em 86,1% no PIB e 35,2% na ocupação total.
Nas duas últimas décadas, no entanto, a indústria de transformação perdeu 66,1% de participação relativa no PIB, enquanto a ocupação teve uma queda relativa de 33,5%. Com a mudança do regime cambial, em 1999, o peso da indústria de transformação voltou a recuperar 13% de sua participação relativa no valor agregado nacional. O emprego na indústria de transformação também recuperou em 20,6% a sua participação relativa no total da ocupação. Com as ações governamentais tomadas especialmente no segundo governo Lula, o fortalecimento do setor industrial tornou-se mais evidente, como apontam o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). O melhor resultado disso, contudo, pode ser arrefecido pelas medidas de curto prazo, como as políticas monetárias e cambiais que parecem aprisionar o país ao regime da semi-estagnação e especialização produtiva.
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[2] Valor: http://www.valor.com.br/
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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1 Comment To "Desenvolvimento, crise e recuperação da indústria"
#1 Comment By Rodrigo Medeiros On 14 junho, 2008 @ 4:53 pm
Do Valor Econômico (13/06/08): ‘A principal iniciativa do Banco Mundial para incentivar países pobres a diminuir a regulamentação sobre empresas tem falhas profundas, disse o órgão interno de fiscalização do banco, refletindo a divisão crescente dentro da entidade sobre qual é a melhor maneira de impulsionar o desenvolvimento. Desde 2003, o braço de financiamento ao setor privado do banco, a Corporação Financeira Internacional, prepara uma série anual de indicadores que classificam os países segundo o grau de facilidade de se fazer negócio. Os países competem para se tornar um dos “maiores reformistas” do relatório “Doing Business” diminuindo a regulamentação e reescrevendo as leis de um jeito que melhore a sua classificação. Os países em desenvolvimento concorrem uns com os outros para ascender na lista de 178 países, de olho numa boa colocação que significará mais investimento e, por conseqüência, crescimento econômico. Mas a crítica feita pelo Grupo de Avaliação Interna do banco, que não é subordinado à diretoria, diz que a pesquisa é distorcida para incentivar a desregulamentação e diz ainda que não há “nenhuma relação estatisticamente relevante” entre os indicadores e as taxas de crescimento’.
A frágil e débil ideologia neoliberal tupiniquim não ajuda a educar os jovens e ainda se mostra perversa para o desenvolvimento do Brasil.