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Dependência de capital brasileiro e de outros emergentes é risco para EUA
Posted By Katia Alves On 24 junho, 2008 @ 2:30 pm In Assuntos,Internacional,O que deu na Imprensa,Política Econômica | 1 Comment
Por Katia Alves [1]
Os Estados Unidos há muito tempo vem dependendo dos países emergentes – China, Brasil, México – para financiar suas importações. Os EUA têm que importar quase US$ 2 bilhões líquidos em capital por dia para cobrir seu déficit comercial.
Joseph Quinlan, estrategista-chefe de mercado do Bank of America, afirma que “Não apenas estamos viciados em dinheiro do resto do mundo, mas esse dinheiro vem de países pobres”. Há uma anomalia histórica, porque em vez do capital dos países ricos migrarem para os pobres, vem ocorrendo exatamente o oposto, os recursos saem dos países pobres e vão para os ricos, declara Barry Eichengreen, economista da Universidade de Berkeley, na Califórnia.
Uma forma de explicar isso é a dependência americana de eletrônicos chineses, petróleo russo e eletrodomésticos mexicanos. Quanto mais os americanos gastam, mais esses países acumulam dólares. Como esses países não podem investir tudo internamente acabam investindo externamente.
Por Michael M. Phillips,
Publicado no The Wall Street Journal [2]
Há muitos anos os Estados Unidos dependem da bondade de estranhos para financiar suas importações. Mas hoje em dia é provável que esses estranhos estejam na China, Brasil, México ou em algum outro país emergente.
Os EUA têm que importar quase US$ 2 bilhões líquidos em capital por dia para cobrir seu déficit comercial. Dos US$ 920 bilhões que estrangeiros investiram em ações, títulos e papéis do governo americano no ano passado, US$ 361 bilhões – impressionantes 39% do total – vieram de países emergentes, segundo cálculos do Bank of America com base em dados do Departamento do Tesouro americano.
Só a China foi responsável por 21 pontos porcentuais desse total, com o Brasil em seguida, com 8,4 pontos porcentuais, Rússia com 2,8 e México, Cingapura, Malásia, Coréia do Sul e outros também no grupo.
E provavelmente isso é só a ponta do iceberg. Capital de países do Golfo Pérsico ricos em petróleo geralmente flui através de Londres rumo a Nova York, então bilhões de dólares em fluxo de investimento, que nos relatórios do governo parecem ter origem britânica, na verdade são árabes.
“Não apenas estamos viciados em dinheiro do resto do mundo, mas esse dinheiro vem de países pobres”, diz Joseph Quinlan, estrategista-chefe de mercado do Bank of America.
Claro que os países do Golfo Pérsico não são pobres. Mas, se comparados aos EUA, países como Brasil, México e Rússia são. De acordo com os livros de economia, o capital deve fluir de países ricos com crescimento lento, que contam com muito dinheiro disponível, para países pobres de rápido crescimento, que não o têm. Certamente era assim antes da 1a Guerra Mundial, quando os europeus ainda exploravam os recursos naturais de suas colônias. Agora, os livros de economia estão de cabeça para baixo.
“É uma anomalia histórica o fato de que nos últimos cinco ou seis meses ainda mais recursos tenham fluído dos países pobres para os ricos do que dos ricos para os pobres”, diz Barry Eichengreen, economista da Universidade de Berkeley, na Califórnia.
A situação é conseqüência, em parte, da dependência americana de eletrônicos chineses, petróleo russo e eletrodomésticos mexicanos. Quanto mais os americanos gastam, mais esses países acumulam dólares. A situação seria outra se eles gastassem todo esse dinheiro em carros da Ford ou filmes de Hollywood. Mas eles não fazem isso. Os chineses, por exemplo, poupam quase metade da produção do país.
“Eles não podem investir internamente e de maneira produtiva 48% do PNB por ano, então acabam obrigados a transferir uma parte desse dinheiro e investi-lo no exterior”, diz Eichengreen.
Mas o que também vem acontecendo é que os países emergentes estão comprando dólares e buscando onde aplicá-los.
A tendência vem se acelerando desde a crise asiática no fim dos anos 90. Naquela época, vários países tiveram problemas porque ficaram sem reservas internacionais e não tinham como cobrir suas dívidas em moeda estrangeira. Eles aprenderam a lição e começaram a juntar reservas internacionais para se proteger de uma corrida aos bancos.
A acumulação acelerou em 2002. Quando o dólar começou a cair, vários governos resolveram comprar dólares para manter suas moedas estáveis perante a americana. No ano passado, autoridades do Brasil, Índia, Malásia e outros países emergentes intervieram nos mercados para evitar que suas moedas se valorizassem ainda mais, um processo que eles temem que prejudique suas economias e empresas.
No ano passado, os bancos centrais de países emergentes acrescentaram cerca de US$ 1,2 trilhão em moedas de países ricos às suas reservas, sendo que o dólar correspondeu a US$ 800 bilhões desse total, segundo Brad Setser, pesquisador do importante centro de estudos Council on Foreign Relations. Os fundos soberanos de países emergentes acrescentaram outros US$ 150 bilhões. A maior parte disso acaba sendo reinvestida nos EUA.
Está claro que os EUA precisam desse dinheiro e não devem evitá-lo. Mas há várias razões para se preocupar com o que está acontecendo.
O governo do presidente George W. Bush sempre argumentou que os estrangeiros investem nos EUA porque o país oferece rendimento atraente. Mas uma pesquisa recente da economista Kristin Forbes, professora do Instituto de Tecnologia Massachusetts e ex-assessora de Bush, revela que de 2002 a 2006, enquanto o dólar caía, os estrangeiros obtiveram um rendimento anual médio de 4,3% em seus investimentos nos EUA, enquanto os americanos obtiveram 11,2% em suas aplicações no exterior. Forbes concluiu que não são os lucros que atraem o capital estrangeiro e sim a sofisticação do mercado americano.
Mas nada garante que essa benevolência continuará e em algum momento os governos de capitais como Pequim podem decidir aproveitar mais agressivamente a vantagem fornecida por suas polpudas reservas. “Estamos assistindo a um fluxo extremamente volumoso de recursos de outros países para o mercado americano”, diz Setser.
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[1] Katia Alves: http://bnshost.org/dzero/katia.jpg
[2] The Wall Street Journal: http://online.wsj.com/public/us
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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