Carta dos alunos: A cheia do mainstream na UFRJ
Escrito por Katia Alves, postado em 17 dEurope/London junho dEurope/London 2008
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apresenta um perfil heterodoxo que vem se consolidando desde a formação do curso de pós-graduação em Economia, cerca de trinta anos.
Portanto, devido ao critério de avaliação da CAPES, a UFRJ tem que se enquadrar para receber recursos, porque sem esses recursos não é possível melhorar o centro de pós-graduação e como conseqüência disso acaba deixando de lado sua identidade heterodoxa que é excelente.
Um ponto deixado para reflexão é:
Por que um centro de formação de pesquisadores, economistas e professores de excelência como da UFRJ não está cumprindo tais critérios? será porque o corpo docente perdeu qualidade ou será porque se pretende especificar um perfil para os centros de pós-graduação em economia que não inclua a tradição heterodoxa?
Por Katia Alves
Autores: Grupos Lema e Crítica Econômica
A escola de economia da UFRJ – outrora conhecida como Faculdade de Economia da Universidade do Brasil – tinha sua matriz curricular voltada para a formação de técnicos e planejadores para o desenvolvimento econômico do país. Politicamente, seus catedráticos, dos quais se destacavam Eugenio Gudin e Octávio Bulhões, tinham um perfil conservador, fortemente marcado pela teoria neoclássica.
A história da Faculdade de Economia começa a mudar quando, a partir da formação de novos quadros teóricos – muito deles influenciados pela CEPAL – ingressam no corpo docente e promovem uma autêntica revolução teórico-política no perfil da instituição. A profª Maria da Conceição Tavares, hoje emérita da UFRJ, foi uma das figuras-chave dessa transformação. Depois, muitos se juntariam à profª Tavares, como Carlos Lessa e Antonio Barros de Castro.
O ingresso desses novos quadros proporcionou uma guinada ideológica da escola de economia da UFRJ. Dos métodos tradicionais de ensino dos cânones das ciências econômicas, a UFRJ ganhou uma marca muito particular: a da heterodoxia econômica. Diversas correntes alternativas ao mainstream, tais como o estruturalismo desenvolvimentista, o keynesianismo, o marxismo e o schumpeterianismo, ganharam destaque na formação dos novos economistas.
Este perfil heterodoxo da economia da UFRJ vem sendo reafirmado ao longo do tempo, inclusive quando se fundou o programa de pós-graduação da casa, há cerca de trinta anos. Chamado de Instituto de Economia Industrial, o centro de pesquisa e ensino notabilizou-se, no Brasil inteiro, por construir linhas de pesquisa sobre as principais transformações estruturais sócio-econômicas do país – desigualdade de renda, indústria, trabalho -, bem como sobre inserção externa e sobre a economia política internacional, a partir das teorias heterodoxas.
Esta é a cara do Instituto de Economia da UFRJ. Foi em torno de temáticas e abordagens heterodoxas que esta Escola se constituiu e produziu larga literatura adotada como livros-texto nas escolas de economia de todo o país. É assim que o Instituto de Economia é visto nos cenários nacional e internacional. Foi com este perfil que atraímos e formamos pesquisadores e economistas para os principais centros de pesquisa e planejamento econômico do país, bem como professores para as universidades públicas.
Recentemente, de forma silenciosa, estamos perdendo esta característica, na medida em que viemos aceitando os critérios da CAPES – nada neutros nem do ponto de vista científico nem do ideológico – como receitas a serem cumpridas em nome de recebermos recursos. É fato que sem recursos não há como se levar a frente uma pós-graduação de qualidade, porém a pergunta que se tem deixado de fazer é porque um centro de formação de pesquisadores, economistas e professores de excelência como o nosso não está cumprindo tais critérios? Será porque perdemos qualidade ou será porque se pretende especificar um perfil para os centros de pós-graduação em economia que não inclua a tradição heterodoxa? Nós economistas heterodoxos já conhecemos bem o preço de recursos recebidos com condicionalidades a serem cumpridas. Aprendemos isso com a política econômica nacional e internacional.
Consideramos que esta reflexão deve ser feita com urgência, pois a negligência em enfrentá-la pode resultar na perda de nossa identidade e no enfraquecimento de nossos aliados. Ajustarmo-nos acriticamente a critérios contra os quais lutamos em todos os comitês científicos é desconsiderar a nossa capacidade política e abrirmos mão da resistência.










