Alargando as perspectivas teóricas
Escrito por Rodrigo Medeiros, postado em 10 dEurope/London junho dEurope/London 2008

Rodrigo L. Medeiros*
Um dos temas de grande controvérsia entre as correntes do pensamento econômico é a da inflação. Para a ortodoxia liberal, inflação é pressão de demanda. Quando a demanda cresce além da oferta há um desajustamento que se expressa pela elevação dos preços. Os adeptos da heterodoxia econômica, por sua vez, não negam que possa haver pressões de demanda e, conseqüentemente, inflação.
No entanto, os heterodoxos reconhecem que os mercados não são perfeitos e que existem desequilíbrios entre oferta e demanda que extrapolam o simplório arcabouço teórico dos ortodoxos. Em um artigo publicado no jornal O Globo, de 07/06/2008, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia 2001, afirma:
“Os bancos centrais formam um fechado clube, dado a manias e modismos. No início dos anos 80 sucumbiram ao encanto do monetarismo, teoria econômica simplista de Milton Friedman. Depois que o monetarismo caiu em descrédito – com elevado custo para os países que o adotaram – começou a busca de um novo mantra. A resposta veio na forma do regime de metas de inflação, segundo o qual sempre que os preços sobem acima de determinado nível os juros devem ser elevados. A receita se baseia em rala teoria econômica ou evidência empírica; não há razão para esperar que, qualquer que seja a fonte de inflação, a melhor resposta seja elevar os juros. Espera-se que a maioria dos países tenha o bom senso de não implementar esse regime; minha simpatia vai para os infelizes cidadãos daqueles que já o fizeram. O regime de metas (inflation targeting) está sendo testado – e quase certamente falhará. Países em desenvolvimento enfrentam taxas mais altas de inflação, não devido a problemas na política macroeconômica, mas porque os preços da energia e dos alimentos estão em alta, e estes itens pesam muito mais no orçamento doméstico do que nos países ricos. Na China, a inflação se aproxima dos 8% ao ano. No Vietnã, deverá chegar a 18,2% este ano, e na Índia está em 5,8%. Em contraste, a inflação nos EUA se mantém em 3%. Isto quer dizer que esses países em desenvolvimento deveriam subir suas taxas de juro muito mais do que os EUA? A inflação nesses países é, na maior parte, importada”.
O título do artigo é ‘A falência das metas de inflação’. Mercados perfeitos só existem nas cabeças dos adeptos da ortodoxia econômica liberal. Segundo Keynes, trata-se do “tipo de coisa em que nenhum homem poderia acreditar se não tivesse a cabeça entulhada de idéias insensatas durante anos e anos” [1]. Não há desculpas para a estreiteza teórica da ortodoxia econômica liberal, pois o trabalho de Keynes é amplamente conhecido há pelos menos 70 anos.
Quanto à necessidade de se ter poupança, ex ante, para consumar investimentos, Keynes foi muito claro: poupança e investimento são os dois lados da mesma moeda. Existem relações de poder em qualquer sociedade organizada e a preferência pela liquidez pode se revelar um tenebroso instrumento de tirania numa sociedade que necessita se desenvolver. No Brasil, os 10% mais ricos respondem por 75% da riqueza nacional [2]. Dificilmente se pode esperar a espontaneidade de uma política monetária neutra nesse contexto. Condições módicas de crédito à produção se fazem necessárias ao processo de desenvolvimento econômico. O sistema de intermediação financeira tem um importante papel a cumprir. A autoridade monetária brasileira, por sua vez, não pode se eximir de suas responsabilidades institucionais de fiscalização do mercado financeiro.
O processo de desenvolvimento econômico é multifacetado. Na segunda metade da década de 1950, Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia 1987, ressaltou a importância da incorporação dos progressos técnicos nos processos produtivos de bens e serviços, ou seja, inovações combinadas de bens de capital e organização social do trabalho [3]. A constante evolução das estruturas mentais das elites econômicas é necessária, pois o processo de inovação extrapola a mera incorporação estática do progresso técnico aos sistemas de produção. Mudanças institucionais – hábitos, práticas e rotinas gerenciais e a acumulação de competências profissionais dos trabalhadores, por exemplo – integram o quadro multifacetado do processo de desenvolvimento sustentado das sociedades.
De 1996 a até 2005, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, a participação da relação transformação industrial (VTI)/valor bruto da produção industrial (VBPI) passou de 47,1% para 42,9% no Brasil [4]. Há sinais, portanto, do processo de enfraquecimento dos elos produtivos nacionais. O aumento do coeficiente de penetração das importações acompanha esse processo. Câmbio apreciado, ou seja, acima do patamar do diferencial de produtividade médio em relação aos principais parceiros comerciais brasileiros, afeta o setor produtivo e o nível de emprego formal.
A preferência pela liquidez, em detrimento da formação bruta de capital, o investimento produtivo, fez com que o quadro social se agravasse na América Latina e no Brasil. A taxa de precarização das relações de trabalho, desemprego mais informalidade, é hoje de 50% da população economicamente ativa na região e 49% para o Brasil [5]. No Brasil, as remunerações médias reais encontram-se 11,4% menor do que em 2000.
* D.Sc. em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College (NY).
Notas
[1] The collected writtings of John Maynard Keynes. v. IX. Macmillan, 1972.
[2] POCHMANN, M. Desigualdade e justiça tributária. IPEA, 2008.
[3] BRUE, S. História do pensamento econômico. Thomson, 2005.
[4] IEDI. Mudança estrutural e produtividade industrial. Nov. 2007.
[5] CEPAL. Balance preliminar de las economías de América Latina y el Caribe. Dic. 2007.










