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A nova desordem mundial

Posted By Imprensa On 18 junho, 2008 @ 10:33 am In Conjuntura,Desenvolvimento,Internacional | 1 Comment

Luís Nassif

Fonte: Projeto Brasil [1]

A situação mundial continua complexa. O que seria o desfecho positivo da atual crise?

1. A recessão americana começar a refluir e o FED (o Banco Central americano) aumentar as taxas de juros.

2. Ao mesmo tempo, a inflação começaria a ceder na Europa, levando o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra a reduzir as taxas de juros.

3. Com esses dois movimentos, concatenados, haveria uma revalorização do dólar e uma depreciação do euro e da libra.

4. A conseqüência seria um movimento dos fundos de investimentos em direção ao dólar, desmontando as posições em commodities e, especialmente, em petróleo.

5. Com a redução desse movimento especulativo, cairiam os preços das commodities, reduzindo a inflação mundial.

6. Sem a pressão inflacionária, a economia européia poderia recuperar a vitalidade. Somada à recuperação da economia americana (que precederia o aumento de juros nos EUA) e o ritmo de crescimento dos BRICs, a economia mundial poderia entrar em novo ritmo.

Esse é o cenário benigno, aguardado por muitos bancos para voltarem ao dólar.

No entanto, esbarra na dura realidade atual.

Nos Estados Unidos, ainda não há sinais de que a crise tenha batido no fundo do poço. Os preços dos imóveis continuam caindo, há no ar cheiro de crise financeira. Ainda está longe o momento em que se poderá reverter a trajetória dos juros – embora algumas instituições e publicações respeitadas, como o Financial Times, ainda apostem nessa reversão.

Na Europa, o combate à inflação tornou-se prioridade maior. Em maio houve um recorde da inflação, batendo em 3,7%.

Ontem, o BCE (Banco Central Europeu) se declarou em “estado de alerta avançado” em relação à inflação, especialmente os preços de energia e dos alimentos. A declaração foi do governador do BC de Luxemburgo Yves Mersch, durante apresentação do relatório do seu BC.

Ele anunciou que o conselho de governadores do BCE atuará de forma objetiva, e em tempo oportuno, para impedir os efeitos da alta de preços sobre o conjunto da economia e sobre a estabilidade de preços.

O conselho dos governadores constatou que a inflação deverá permanecer em níveis elevados por um período maior do que o previsto.

Agora, a maioria dos analistas espera que as taxas de juros do BCE aumentem dos atuais 4% ao ano para 4,25%.

É um jogo complexo. Desde a crise da Ásia, na década passada, se acreditava na capacidade de articulação dos bancos centrais. Tinha-se uma situação similar à das primeiras décadas do século 20, em que essa articulação se dava em torno do Banco da Inglaterra. Seus movimentos eram acompanhados por um conjunto de bancos centrais europeus, permitindo uma relativa estabilidade monetária.

Da crise da Ásia para cá se tinha em conta de que, finalmente, os BCs tinham conseguido os movimentos articulados, que permitiriam manter o fluxo de capitais livre, sem restrições.

Esse sonho acabou. As disfunções do mercado financeiro internacional são amplas, há um conflito de prioridades entre os diversos blocos econômicos.

Só o Brasil continua permitindo a apreciação da sua moeda, como se nada tivesse mudado.


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1 Comment To "A nova desordem mundial"

#1 Comment By Rodrigo L. Medeiros On 18 junho, 2008 @ 10:39 am

Há um livro muito interessante sobre esse tema – ‘States and the reemergence of global finance: from Bretton Woods to the 1990s’ (Cornell University Press, 1994), de Eric Helleiner. A desregulamentação dos mercados financeiros foi um processo construído pelas vias da política, ou seja, com o apoio dos Estados nacionais. Tais mercados existem sob a autoridade e a permissão dos Estados nacionais. Certamente no concerto das nações os diversos atores políticos pe$am de forma distinta nos proce$$os decisórios dos organismos multilaterais.

Segundo Helleiner: “The task of maintaining an open financial order also presented few collective action problems. (…) two activities necessary to prevent financial crises: international lender-of-last-resort action and international prudential supervision and regulation” (p.18). Não se pode olvidar que o projeto de arquitetura financeira internacional de Keynes, baseado na criação do “bancor” para lastrear a expansão do comércio internacional, foi derrotado em Bretton Woods.

Para Keynes: “Freedom of capital movements is an essential part of the old laissez-faire system and assumes that it is right and desirable to have an equalization of interest rates in all parts of the world. In my view the whole management of the domestic economy depends upon being free to have the appropriate rate of interest without reference to the rates prevailing elsewhere in the world. Capital control is a corollary to this” (KEYNES apud HELLEINER, op. cit., p.34). Reduzir a velocidade do cassino financeiro instalado se faz um passo necessário para que o Brasil possa realizar seu grande potencial como nação. O BACEN possui instrumentos para tanto.

Bastaria, portanto, que Lula chamasse Meirelles para uma conversa e se afirmasse como o chefe de Estado de um país que deseja o desenvolvimento democrático-equitativo.


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[1] Projeto Brasil: http://www.projetobr.com.br/web/blog/6

[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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