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A Nairu no Brasil
Posted By Katia Alves On 12 junho, 2008 @ 2:25 pm In Assuntos,O que deu na Imprensa,Política Econômica | 2 Comments
No artigo abaixo, Delfim Netto afirma que o produto potencial pressupõe uma função de produção macroeconômica cuja existência não pode ser provada, a sua aparente “revelação” empírica é resultado da manipulação de uma identidade. As estimativas da Nairu (a taxa de desemprego que mantém estável a taxa de inflação), são acompanhadas de imensa variância e, portanto, também inservíveis para a orientação da política monetária.
Ao final do texto, Delfim observa que o Banco Central calcula que a Nairu no Brasil estaria entre 7,4% e 8,8%, através de um método que considera as estimativas pontuais de diferentes modelos, selecionando a menor e a maior estimativa e chamando isso de intervalo o que é incoerente com os métodos estatísticos corretos.
Por Katia Alves [1]
Publicado originalmente na Folha online [2]
Por Antônio Delfim Netto
POUCOS ECONOMISTAS podem ser considerados realmente “grandes”. Um deles foi Alfred Marshall (1842-1924), cujo livro “Principles of Economics” (1890) dominou o pensamento econômico durante quase meio século. A fecundidade da contribuição marshalliana pode ser melhor apreciada quando lembramos que suas observações sobre a estrutura das indústrias estão na base da revolucionária geografia econômica moderna.
É de Marshall a afirmação “que em assuntos econômicos qualquer explicação curta ou é equivocada, ou falaciosa ou um truísmo”. Ela se aplica como uma luva a muitas criações econômicas de aparência simples que, à custa de serem repetidas sem uma crítica mais cuidadosa, acabaram sendo incorporadas no corpo da economia. Em alguns casos, apesar da absoluta imprecisão e fluidez conceitual, são submetidas à continuada tortura econométrica na esperança que algum dia confessarão a sua existência. Dois desses conceitos dominam a imaginação “científica” de uma certa classe de economistas.
De um lado, o famoso “produto potencial”, que por hipótese pode ser empiricamente estimado com segurança e que limitaria o crescimento não inflacionário. De outro, a renascida Nairu, uma suposta taxa de desemprego abaixo da qual acendem-se as pressões inflacionárias e que, também, poderia ser empiricamente determinada com segurança.
O primeiro caso é mais grave. Revela um complicado autismo profissional para socorrer-se de um brinquedo conveniente que só existe na imaginação dos atores. O produto potencial pressupõe uma função de produção macroeconômica cuja existência não pode ser provada. A sua aparente “revelação” empírica é resultado da manipulação de uma identidade, como mostraram Herbert Simon e Ferdinand Levy há meio século! O caso da Nairu é de outra natureza. Suas estimativas são sempre acompanhadas de imensa variância e, portanto, também inservíveis para a orientação da política monetária. Recentemente fomos surpreendidos com a revelação que a Nairu no Brasil estaria entre 7,4% e 8,8% devido ao que seria um pequeno intervalo de confiança. Lendo o trabalho do economista do Banco Central, sr. Tito Nícias Teixeira da Silva Filho, vemos que não se trata disso, mas sim do intervalo entre estimativas pontuais obtidas através de diferentes modelos. O problema é que cada uma delas, no seu modelo, tem grandes intervalos de confiança. Portanto são também inservíveis para a política monetária como, aliás, reconhece corretamente o seu autor e Greenspan provou, em 1990, contrariando o “staff” do Fed.
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[2] Folha online: http://www.folha.com.br/
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
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2 Comments To "A Nairu no Brasil"
#1 Comment By Heldo Siqueira On 12 junho, 2008 @ 3:35 pm
Amigos,
pior que isso é achar que essas estimativas ficam paradas. A distribuição de probabilidade que baseia todas as formulações das curvas de oferta e demanda depende a expectativa dos agentes. Quem é o iluminado que, mesmo com todos os dados que a realidade já ofereceu ou poderá oferecer, pode prever o que pensam os agentes econômicos.
Fora isso, por hipótese, os erros estatísticos surgem porque a amostra é pequena em relação à população. Ou seja, como não se pode fazer uma análise aritmética (que seria tomar ), recorre-se à estatística, supondo que os resultados possam ser generalizados com alguma precisão. Entretanto, o mecanicismo de algumas análises é tão grande e tão desprovido de formulação metodológica que atribui o erro estatístico à população.
Quer dizer, o analista pressupõe uma identidade e ao estimá-la diz que é pq os agentes erraram que houve a divergência, e, no longo prazo, quando deixarem de repetir o erro, a análise é verdadeira. Ou, em muitos casos, corrige os “erros da amostra” modifincando-a. Ora, se a amostra não é aleatória é pq as decisões econômicas não são aleatórias. Tentar tornar a amostra aleatória utilizando diferenças ou corrigindo divergências na distribuição de probabilidade modifica a amostra irremediavelmente. Não há nada na realidade econômica que implique que no longo prazo as atitudes das pessoas serão independentes no tempo e em relação às outras pessoas.
Na verdade, alguns economistas são como fotógrafos de revistas masculinas. Eles tiram várias fotos da mulher, depois escolhem algumas, consertam os defeitos e vendem para o público. Daí, vc encontra a mulher que eles fotografaram na rua e vê que não era nada daquilo, e se pergunta: será que é ela mesma?! Ao que os economistas dizem: Não, mas será no longo prazo…
#2 Comment By Rodrigo L. Medeiros On 13 junho, 2008 @ 10:18 am
Segundo Douglass C. North, Prêmio Nobel de Economia 1993: “It is a peculiar fact that the literature on economics contains so little discussion of the central institution that underlines neoclassical economics – the market” (Markets and other allocation systems in history. Journal of European Economic History 6, 1977). North, que esteve no Brasil nos últimos anos, não conhece o nível de discussão proposto pela idiotia neoliberal tupiniquim, uma arrogante e ignorante turma de baixa leitura acadêmica.
Em sua Nobel Lecture, North é enfático: “A theory of economic dynamics is also crucial for the field of economic development. There is no mystery why the field of development has failed to develop during the five decades since the end of the second World War. Neo-classical theory is simply an inappropriate tool to analyze and prescribe policies that will induce development. It is concerned with the operation of markets, not with how markets develop”. O bom senso não é privilégio de Stiglitz.
Há no livro do Greenspan, ‘A era da turbulência’ (Elsevier, 2008), uma passagem bem interessante sobre o governo Reagan. Eram tempos de Paul Volcker no FED e juros altos. Reagan chamou Volcker para uma conversa é disse: “Estou curioso. As pessoas estão se perguntando se realmente precisamos de um FED”. Segundo Greenspan, “ele [Reagan] fez exatamente o que precisava para lembrar a Volcker que era de fato o chefe” (p.89).