A arte da Guerra na Era Nuclear
Escrito por lucianasergeiro, postado em 30 dEurope/London junho dEurope/London 2008
Fonte: Desemprego Zero
Por: J. Carlos de Assis*
Presidente do Instituto Desemprego Zero
A arte da guerra consiste em reunir meios de força, estabelecer um objetivo que signifique a vitória final sobre o inimigo e lançar-se ao ataque, ou à defesa da própria posição, com o uso indiscriminado da violência.
O objetivo da guerra é sempre vencer. Quando se quer manter estável uma situação em relação ao adversário, o recurso é a diplomacia ou a política. Não se faz a guerra para perder.
Karl von Klausewitz, um dos três maiores estrategistas ocidentais da história, deixou um aforismo segundo o qual “a guerra é a continuação da política por outros meios”.
À sombra do poder nuclear contemporâneo, partilhado entre três superpotências e no mínimo seis potências secundárias, é a política que se firmou como a continuação da guerra por outros meios.
Não há mais solução militar, exceto no caso de terrorismo econômico global, para conflitos nacionais ou internacionais extremados. Resta, sim, a política.
Karl Marx, outro dos três grandes estrategistas ocidentais, confiava sobretudo na revolução proletária para confrontar o poder burguês dominante. Contudo, sua releitura em termos contemporâneos revela uma extraordinária intuição, ao confiar também na vitória baseada na divisão das forças adversárias, ou seja, nas contradições internas do próprio capitalismo como determinação de seu fim iminente.
O terceiro dos grandes estrategistas, Maquiavel, resume num pequeno livro todas as estratégias de conquista e manutenção do poder e, em conseqüência, nos coloca em posição de escolher a mais conveniente na era nuclear: a persuasão.
Alexandre Magno, conquistador do maior império da Antiguidade, antecipou-se aos conselhos de Maquiavel e só combatia em último caso. Antes, preferia casar-se com as princesas, filhas dos reis potencialmente adversários, formando alianças.
César e Napoleão usavam métodos estratégicos que estão definitivamente ultrapassados. César vencia pela surpresa e pela agressividade. Na era da vigilância global por satélites e dos submarinos nucleares indetectáveis, já não existe surpresa, e a agressividade se converte num bumerangue.
Napoleão, em cujas práticas de guerra global inspirou-se o alemão Klausewitz, primava pela organização e pela velocidade nos movimentos. Isso também é inócuo na era nuclear. Organizar significa reunir meios de força, e a reunião e distribuição ordenada de 10 mil ogivas nucleares norte-americanas e de 8 mil russas não acrescenta nada à própria força diante da única ogiva de uma potência secundária, como a Coréia do Norte ou Irã, capaz de deflagar o conflito geral.
É melhor, pois, aprender com Sun Tzu, ou com os vários autores que se esconderam sob esse pseudônimo na antiga China ao longo de vários séculos, que a suprema arte da guerra é não lutar. Portanto, fazer política. Em seu tempo, poucos seguiram seu conselho, pois praticava-se a guerra como um esporte de honra – algo, no Ocidente, bem simbolizado pela busca de glória dos exércitos prussianos.
A glória, hoje, pertence aos que buscam a paz. Faz bem a Academia Nobel ao conferir maior destaque a esse prêmio. Contudo, como diz o Deuteronômio, “a paz é fruto da Justiça, e a tranqüilidade se funda no direito”. Isso leva à regra estratégica central de nosso tempo: promover a justiça e respeitar o direito.
Numa democracia, o direito básico é o direito à propriedade privada. Como contrapartida necessária, para os que não têm propriedade o direito básico é o direito a um trabalho dignamente remunerado.
A esse direito não corresponde um dever privado, como observou o Prêmio Nobel Amarthya Sen em “Desenvolvimento como Liberdade”. É um dever de todos, através do Estado. Daí decorre que, na era nuclear, onde também as revoluções estão ultrapassadas por causa do poder igualmente dissuasório das armas convencionais – químicas, bioquímicas, eletrônicas, genéticas -, o Estado tem o dever de promover o pleno emprego, para evitar que a busca de sobrevivência dos desempregados se transforme em desespero e violência revolucionária.
A grande guerra dos tempos contemporâneos, pois, uma verdadeira guerra mundial, é a guerra contra o desemprego. Fazer essa guerra significa confrontar o neoliberalismo, que é o inimigo visível das nações e do mundo. A estratégia específica dessa guerra está num livro de L. Randall Wray que traduzi para o português com o titulo de “Trabalho e Moeda Hoje”: garantir emprego pelo Estado a todos os que querem e estão aptos a trabalhar por um salário básico! Aqui, tomou a forma do Projeto Cidade Cidadã, apresentado recentemente num simpósio no BNDES, com o qual se pretende que todas as cidades com nível de desemprego superior a 4%, medido pelo IBGE, possam garantir trabalho a todo desempregado, ao mesmo tempo em que se aplica a força de trabalho assim reunida na regeneração das periferias sociais urbanas.
Projeto de pleno emprego semelhante deve ser organizado para o meio rural, já que, do contrário, serão reforçadas as ondas migratórias do campo para a cidade.
Como pôr isso em prática? Shakespeare, num de seus clássicos, põe na boca de Henrique III os seguintes versos:
Por causa do cravo perdi a ferradura
Por causa da ferradura perdi o cavalo
Por causa do cavalo perdi a batalha
Por causa da batalha perdi o reino.
E tudo por causa de um cravo.
O desemprego é o cravo. Vencendo o desemprego, pela política, mediante financiamento do projeto Cidade Cidadã, e similares, da ordem de R$ 40 bilhões/ano, oriundos da tributação dos jogos legais e a serem legalizados – leve quando se tratar de jogos dos pobres ou idosos, como o Jogo do Bicho e o bingo; pesada quando se tratar dos cassinos dos ricos, como swap normal e reverso. Com isso faremos nossa parte para evitar a guerra clássica e promoveremos a paz mundial.
Para derrotar definitivamente o neoliberalismo, as nações periféricas devem visar a outro cravo, o câmbio flutuante. Numa ação coordenada, devem centralizar, controlar e administrar o câmbio, como âncora estável dos preços num nível favorável às exportações, porém não inflacionário.
O dinheiro fluirá imediatamente para os paraísos fiscais, por temor de que também os países centrais controlem o câmbio. A taxa de juros cairá a zero nestes últimos, ameaçando com uma grande depressão de proporções catastróficas.
Ameaçados na sua estabilidade econômica, os países centrais devem agir com violência na única oportunidade que lhes resta para isso: deverão coordenar suas forças estratégicas para a invasão simultânea dos 93 paraísos fiscais existentes no mundo, pelo que o dinheiro “limpo” ali depositado retornará aos países centrais e periféricos, afastando o risco da depressão global. Só ficará nos paraísos fiscais o dinheiro “sujo” do terrorismo, da droga e da corrupção, pois este não pode voltar, a não ser que lhe seja imposto um alto tributo para o retorno como poupança aos países de origem ou como aplicação produtiva em qualquer destino. Com isso, finalmente, o dinheiro “sujo” mundial ficará sujeito à vigilância da banda limpa da espionagem norte-americana e russa, em ação combinada.
Para evitar que a situação nos Estados Unidos evolua para o caos, as forças do bem poderão inspirar o candidato presidencial democrata, Barack Obama, a propor no Senado uma resolução em caráter urgente determinando a intervenção nos mercados futuros de petróleo e outras commodities minerais e agrícolas, com o que se controlará a expectativa de inflação com juros zero. Seria de grande simbolismo se o encarregado desse controle fosse James Galbraith, filho do grande economista do século XX, John Kenneth Galbraith, vitorioso xerife dos preços nos Estados Unidos nos anos da Segunda Guerra Mundial.
Com a tranqüilidade econômica, virá a paz eterna. As potências nucleares, dando-se conta da inutilidade de seus arsenais estratégicos, se engajarão em conversações sérias para suprimi-los de vez da face da terra. Todos os conflitos se resolverão pela política, sendo os assuntos do cotidiano entregues aos governos eleitos democraticamente, e ficando todos os temas ligados à vida – guerra, genética, meio ambiente e moral -, entregues a autoridades estáveis reconhecidas diretamente pelo povo, fora de esquemas partidários sujeitos à paixão das ondas eleitorais.
*José Carlos de Assis: Economista e Professor, Presidente do Instituto Desemprego Zero.
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