Resistir às pressões inflacionárias
Escrito por Imprensa, postado em 30 dEurope/London maio dEurope/London 2008
Segundo Delfim Netto, o Banco Central precisa ter uma noção muito clara se estamos diante de um processo de inflação ou se estamos diante apenas de uma alteração de preços relativos. A inflação exige uma causa permanente, um crescimento de demanda continuado, o que não é o caso.
Publicado originalmente no DCI
Por Antônio Delfim Netto
O Brasil, como qualquer outra economia, recebe pressões inflacionárias. Nesse momento, se quisermos comparar com outros parceiros de porte parecido como a Rússia, a Índia e a China, estamos numa situação um pouco melhor, pois temos uma política fiscal razoável e uma política monetária que acompanha rigorosamente a meta de inflação. A pressão existe no mundo inteiro e se acentuou nos últimos meses, mas ninguém, até agora, que eu saiba, abandonou o sistema de metas de inflação.
No nosso caso, a meta de 4,5% tem margens de 2% acima e 2% abaixo, de forma que ela pode flutuar entre 2,5% e 6,5%. O objetivo do Banco Central deve ser fazer convergir a meta para os 4,5% num prazo de 18 ou 24 meses. O importante é que a meta não escape do intervalo previsto.
O que está ameaçando esse objetivo é a espécie de cabo-de-guerra que se estabeleceu entre Fazenda e Banco Central, cada um querendo mostrar que tem mais poder que o outro – e essa excitação favorece as expectativas de inflação e ajuda a criar o clima favorável à elevação dos juros.
Por conta disso, o ambiente de negócios começa a ficar intranqüilo, investimentos são postergados, há uma redução de demanda de alguns produtos e sente-se que algumas empresas passam a usar os seus estoques e deixam de aumentar a produção.
Podemos ter uma situação complicada porque a alta da taxa de juros vai aumentar a despesa do governo com a sua dívida interna que já é de 47% do PIB. Quer dizer, o custo do governo cresce ao mesmo tempo em que a desaceleração da atividade econômica faz cair a arrecadação. É o caminho para o pior dos mundos: custos em alta e receita em queda levam ao desequilíbrio fiscal em um prazo muito curto.
O Banco Central precisa ter uma noção muito clara se estamos diante de um processo de inflação ou se estamos diante apenas de uma alteração de preços relativos. A inflação exige uma causa permanente, um crescimento de demanda continuado, o que não é o caso. O que existe de verdade é um crescimento das expectativas um tanto forçado na direção do aumento da inflação. No momento, o mais correto seria manter tudo como está: a meta de 4,5% é bastante razoável, pode ser atingida sem grandes turbulências porque acomoda os atritos institucionais que existem na economia brasileira, como ficou demonstrado nos últimos dois anos, em que o PIB cresceu bem e a inflação se manteve nos patamares prometidos.
Não é preciso ficar procurando desvios para que a meta não se afaste do núcleo. O ideal é não mexer em nada agora e aguardar um pouco mais o comportamento dos preços, porque não existem fatores que justifiquem a quase-histeria que se formou por causa dos tremores externos que ao final já vão arrefecendo. E que na verdade não têm mesmo a ver com pressões de inflação, mas sim com o descontrole que tomou conta de uma parte do sistema bancário no primeiro mundo, que, cegado pela ganância, ignorou os mais simples princípios de segurança nos empréstimos hipotecários.
Custos em alta e receita em queda levam ao desequilíbrio fiscal em um prazo muito curto.



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