- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
Pondo a Amazônia em seu devido lugar
Posted By Imprensa On 30 maio, 2008 @ 8:17 pm In Assuntos,Desenvolvimento,Desenvolvimento Regional,O que deu na Imprensa | 1 Comment
O Estado brasileiro tem, portanto, essencial e prioritária responsabilidade com a preservação da integridade do território nacional, isto é, em sua extensão e qualidade. Trata-se de cuidar para que os futuros brasileiros se encontrem amparados por uma reserva de recursos no mínimo equivalente àquela de que a geração atual dispõe.
*Por Katia Alves [1]
Wanderley Guilherme dos Santos
Publicado originalmente no Valor [2]
A Amazônia é matéria de soberania. Em segundo lugar, apresenta desafio à promoção de um desenvolvimento ecologicamente sustentável. Em último caso, trata-se de integrá-la a qualquer custo imediato. Integrar a Amazônia e o Centro-Oeste. Depõe a história que a sustentabilidade é recuperável – até animais extintos são trazidos à vida pela reprodução do DNA. A perda de território nunca foi. Não existem dois mapas geográficos iguais entre si. Quero dizer, mapas históricos ou contemporâneos. Sem dúvida, fauna, flora e epiderme do planeta têm sido profundamente sacrificadas pela intervenção humana, século após século, mas o traçado de fronteiras e o poderio dos países são igualmente mortais. Nenhum império resiste ao tempo (lembrar o império soviético), mas pode durar bastante, vide o império romano.
A propósito, os Estados Unidos não param de expandir-se ao Norte, ao Sul, a Oeste e, pelo estacionamento de tropas, também a Leste, tendo colaborado para modificações geográficas em, pelo menos, três continentes. Nem sempre pelo convencimento ideológico. Na contabilidade de Robert Kagan, estrategista da Carnegie Endowment for International Peace, “entre 1989 e 2001, os Estados Unidos intervieram no exterior, pela força, mais freqüentemente do que em qualquer outro período de sua história – com média de uma nova ação militar significativa a cada 16 meses – e muito mais do que qualquer outro poder no mesmo espaço de tempo”. (“The Return of History and the End of Dreams”, 2008, pág. 50).
Francis Fukuyama, depois de analisar as crises internacionais que ocorreram no mesmo período, em “State-Building – Governance and World Order in the 21st Century” (2004), aconselha aos americanos que exportem, por assim dizer, estruturas estatais de preferência a instituições políticas democráticas. Segundo Kagan, o mundo não deve alimentar dúvidas sobre o provável comportamento dos Estados Unidos no desenrolar do atual conflito entre as democracias e o que ele designa por autocracias.
Já em “Paradise and Power” (New York, 2004), ele havia advertido a Europa de que os Estados Unidos estavam se preparando para assumir explicitamente seu papel de império e, conseqüentemente, de vir a agir cada vez mais autonomamente, em estrita consulta a seus interesses materiais e estratégicos. Os conceitos de ação legítima e de ação justa estão abalados na recapitulação européia, como se sabe, desde o recente bombardeamento e posterior invasão americana do Iraque. Antes tarde do que nunca, e algum dia o confisco de território mexicano, pelo menos, será devidamente anotado nos anais.
Justiça e legitimidade nas relações internacionais estão abaladas tal como abaladas estão as regiões da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro. Dormentes até há cerca de 30 anos, pertenciam ao Brasil cartográfico, não ao país econômico. Hoje, embora ainda de densidade populacional rarefeita, dispõem de mais de 28 milhões de habitantes, correspondentes a 15% da população total do Brasil, com crescimento econômico a taxas asiáticas. Há 50 anos mal superavam os 7% da população e, economicamente, não passavam de um problema. A transformação de escala foi muito rápida: o crescimento populacional da Região Norte, entre 1950 e 1991, foi de 456% e no Centro-Oeste atingiu a taxa de 442%. O significado desses valores pode ser avaliado pela média nacional de 183%, entre os mesmos anos.
Deslocamentos populacionais de grande porte para as cidades provocam desconforto social, perda de referência axiológica e ansiedade. Acoplados à mobilização estimulada pelos partidos políticos, as novas tensões se refletem nos conflitos tornados mais agudos e na descoberta dos canais eleitorais como tradutores de demandas. No Norte, dentro dos mesmos parâmetros temporais, o eleitorado aumentou em 1426% e no Centro-Oeste, em 1.650%. No Brasil, o crescimento foi de 727%. Hoje, as duas regiões deixaram de ser anotações cartográficas e participam do universo jurídico, político e econômico da nação.
Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais em largos trechos do território
A experiência com formas antiquadas de acumulação material recomenda cautela na incorporação de novos segmentos do território à economia ativa. A audiência imediatamente interessada nesse processo é a própria população brasileira, atenta para os custos intergeracionais do aproveitamento dos recursos naturais e de suas conseqüências. Estão aí os exemplos das grandes potências, em particular os Estados Unidos, cujo histórico de ocupação predatória do planeta deve ser permanentemente lembrado, a fim de que se evite sua repetição. Nem potências emergentes, nomeadamente a Índia e a China, estão isentas de responsabilidade quanto ao legado que destinarão às gerações futuras. O cuidado dos governos atuais com as respectivas próximas gerações bem pode ser uma das vacinas contra o cultivo de ambições vicinais. Ou mesmo remotas.
O Estado brasileiro tem, portanto, essencial e prioritária responsabilidade com a preservação da integridade do território nacional, isto é, em sua extensão e qualidade. Trata-se de cuidar para que os futuros brasileiros se encontrem amparados por uma reserva de recursos no mínimo equivalente àquela de que a geração atual dispõe. Comprometer essa possibilidade significa incorrer em desídia histórica. No caso, preservar é uma homenagem ao futuro, não ao passado. Não está sendo uma tarefa de somenos.
Inadequado às suas funções presentes, o Estado brasileiro deixa de cumprir suas mínimas obrigações constitucionais – garantia universal de direitos – em largos trechos do território. Nas zonas urbanas, são as áreas controladas pelo tráfico nas quais a tentativa de introduzir ordem pública produz justamente o oposto: desordem e conflitos. Nas regiões de fronteira física ou econômica – caso do Norte e do Centro-Oeste – a apropriação do mundo material tem se dado conforme as leis do mundo natural – cada um por si – sem que o Estado exerça algum poder preventivo e sem que as instituições judiciárias, em ação posterior, funcionem livres da coação local. A ordem legal aparece como invasora do espaço idílico da infernal competição sem regras. Menos do que ausência, verifica-se a insuficiência da capacidade estatal de instituir o solo constitucional da convivência.
Vem a calhar, portanto, o início da retomada pelo Estado da soberania perdida nas regiões do Norte e do Centro-Oeste para a indústria predatória, o contrabando e a apropriação indébita. Todos precisam se convencer de que a Amazônia que nos cabe, assim como o Centro-Oeste, não pertence aos aventureiros do capitalismo nascente, nem às ONGs, nem aos movimentos ecológicos, nem às missões religiosas. O Norte não pode se converter em santuário, objeto de romarias, turismo e reverência como os altares nas estradas da Grécia clássica.
A Amazônia brasileira corporifica excepcional recurso a ser mobilizado e preservado em benefício das futuras gerações de nacionais. Depois de aproximadamente 30 anos de financiamento de pesquisas, fundações de todos os quadrantes e grupos de interesse organizados conseguiram impor, como de urgência, uma agenda de preconceito racialista e de desespero ambiental, causas de solidária aderência à opinião pública. Separe-se o joio do trigo, respeitem-se as demandas legítimas, e que se dê um chega pra lá aos descalabros do cerco ideológico.
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/05/pondo-a-amazonia-em-seu-devido-lugar/
URLs in this post:
[1] Katia Alves: http://desempregozero.org/quem-somos/#katia
[2] Valor: http://www.valor.com.br/
[3] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/
[4] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/
[5] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/
[6] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/
[7] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.
1 Comment To "Pondo a Amazônia em seu devido lugar"
#1 Comment By Bruno On 1 junho, 2008 @ 3:19 am
Katia,
Recomendo a publicação dessa denúncia que saiu no blog do Nassif: reporteres do Dia foram barbaramente torturados pelas milicais no Rio. O problema que isso nçao deve sair na imprensa oligopolizada porque o Dia é concorrente da Globo. Então quando mais gente publicar isso melhor. Sugiro que se ponha no destaque tb.
Beijos
Bruno
As milícias cariocas
Milícias: política do terror, em O Dia
Rio – Criadas sob o “inocente” argumento de enfrentar o tráfico de drogas e livrar as comunidades carentes do crime organizado, as milícias compostas por policiais, agentes penitenciários, bombeiros e ex-servidores da Segurança Pública dominam hoje bem mais do que as 78 comunidades onde fincaram suas garras e estruturaram um exército muito bem armado. Elas ditam as leis a aproximadamente 2 milhões de cariocas e os submetem a um código penal que nunca foi escrito. Todos conhecem bem cada parágrafo, onde estão previstas a tortura e a morte a quem desafiar as suas regras. Um desmando sofrido pela equipe de O DIA.
Durante duas semanas, repórteres moraram na Favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio. A idéia da reportagem era mostrar como vivem as pessoas em um local onde grupo clandestino tem lucro fantástico com a venda do gás de cozinha, do sinal pirata de TV a cabo e da segurança forçada, além do curral eleitoral. Mas, na tentativa de produzir material que mostrasse os desvios dessa realidade, os jornalistas caíram nas mãos da barbárie.
Denunciados, os repórteres de O DIA foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado em um dos barracos usados como quartel-general pela quadrilha. O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia, período em que a equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória. Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos carrascos.
Em determinado momento, o cativeiro chegou a ter pelo menos 20 milicianos, entre torturadores, incentivadores e espectadores coniventes. As vítimas foram libertadas, depois de os criminosos terem passado todo o tempo garantindo que elas seriam torturadas até a morte. A condição seria manter segredo sobre a sessão de agressões. Foi a forma mais cruel e bárbara de testemunhar como a milícia age nas comunidades do Rio.
O crime cometido contra a equipe de O DIA aconteceu no dia 14 de maio. A cúpula da Segurança do Estado do Rio foi notificada. Hoje, mais de duas semanas depois das agressões, os fatos estão sendo publicados. A decisão de esperar esse tempo para trazer à tona a história foi tomada para que as investigações policiais não fossem prejudicadas e, principalmente, para garantir a segurança das pessoas envolvidas. Agora, espera-se pela punição dos culpados.