A economia política
Escrito por Imprensa, postado em 5 dEurope/London maio dEurope/London 2008
Delfim Netto
Fonte: CartaCapital
A maior demonstração de que a economia não é uma ciência é que ela é (e provavelmente continuará) dividida em escolas (neoclássicos, keynesianos, marxistas e institucionalistas, entre outros). Ainda que uma delas seja hoje dominante na academia (outras já foram no passado), suas conclusões não têm a capacidade de converter as outras – pela lógica apoiada na pesquisa empÃrica – e levá-las a acreditar em afirmações apodÃcticas do tipo: se modificarmos a variável A em x% hoje, a variável B modificar-se-á em y% dentro de tanto tempo. A única verdade que todas as escolas aceitam (algumas com grande dificuldade) são as identidades da Contabilidade Nacional, isto é, aquilo que a economia importou da técnica de registro inventada por Luca Pacioli no século XV.
Mas então o que é a economia? Ã? um conhecimento que deve ajudar na criação de mecanismos eficientes de cooperação entre os homens, para atender eficientemente à s suas necessidades materiais. Ela procura descobrir normas e comportamentos de cooperação social (e, logo, moral) que tornam possÃvel o processo civilizatório. Ela não precisa se limitar ao que “é”. Pode invadir sem remorso o terreno do que “deve ser”: Ela não é, como disse Keynes, a civilização, mas a possibilidade dela.
A ciência econômica asséptica da escola hoje dominante e que pretende se limitar ao que “é” está sendo (com justiça) predada pela mesma psicologia que ela tentou destruir no passado, com uma construção ingênua (o homo economicus). Depois que um dos seus membros mais eminentes ganhou o Prêmio Nobel, “provando” que o casamento é um ato puramente racional de maximização (sob restrições) de uma função matemática, e outro não menos eminente, antes de ganhá-lo, “provou” que o desemprego era apenas uma infecção de vagabundagem, inconformismo e falta de esclarecimento dos trabalhadores, é tempo de voltar à velha Economia PolÃtica. Esta nasceu com Adam Smith para ajudar os homens a cooperar de forma eficaz e viver em liberdade com alguma igualdade e proporcionar-lhes o apoio material de que precisam para se realizar plenamente.
Se a organização econômica fosse regida por leis naturais derivadas do comportamento dos indivÃduos, cujos desejos seriam limitados apenas à maximização da sua satisfação pessoal (como ainda crêem algumas escolas), tudo seria mais simples. O reconhecimento dessas leis e a estrita obediência a elas (ainda que isso impusesse restrições à liberdade individual ou um nÃvel desagradável de desigualdade) seriam a melhor (a menos custosa) resposta para as questões econômicas. O problema é que não é assim. Enquanto a produção é um problema largamente técnico, a distribuição do produzido é um problema largamente polÃtico. Se na primeira existem algumas restrições tecnológicas descobertas pela microeconomia, que podem ser exploradas para tornar eficiente o processo produtivo, na segunda, o campo da macroeconomia, elas não existem. Isso não significa que as decisões polÃticas que a informam não tenham graves conseqüências. Nas sociedades em que o Estado (permanente) é representado pelo poder incumbente (passageiro), eleito pelo sufrágio universal num processo polÃtico aberto e competitivo, a sociedade decide nas urnas, periodicamente, duas questões fundamentais: 1. Como se repartirá o PIB entre o setor privado produtor e o setor estatal, que garante o funcionamento das instituições e provê bens públicos essenciais. 2. Quanto do produzido será poupado e reconduzido ao estoque de capital como novo investimento, o que determinará o crescimento futuro. Elas não são, obviamente, independentes: quanto mais eficiente o Estado, melhor ele cumprirá o seu papel e maior a aceleração do crescimento. Esses fatos sugerem o mais importante papel que o economista pode exercer: esclarecer a sociedade que elege o governo passageiro sobre as conseqüências futuras de sua ação e sobre o inexorável curso a longo prazo das escolhas que ela fizer nas urnas a curto prazo. O processo de desenvolvimento econômico depende da história: a oportunidade de crescimento perdida provavelmente nunca será recuperada.
Ã? exatamente por isso e pela falta de um embasamento realmente cientÃfico que a polÃtica monetária executada por um banco central autônomo (que pode, por sinais equivocados, interromper o ritmo de crescimento) deve ser permanentemente justificada com a transparência da publicação em tempo hábil dos votos individuais dos membros que a controlam.
Pelo que escreveu neste artigo, Delfim concorda com o Desemprego Zero em relação à natureza da “Ciência” econômica:











5 dEurope/London maio, 2008 as 12:02 pm
[...] A economia política [...]
5 dEurope/London maio, 2008 as 12:16 pm
http://desempregozero.org/2008/05/05/quem-confia-na-sabedoria-convencional/
http://desempregozero.org/2008/04/28/as-duas-faces-do-projeto-mediocratico-no-brasil/