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QUEM SOMOS?

Posted By NOSSOS AUTORES On 4 abril, 2008 @ 3:35 pm In Crônicas,Maria de Fátima | No Comments

Por Maria de Fátima de Oliveira*

Narra uma lenda babilônica que, no início dos tempos, certa vez os deuses se desentenderam. No embate, um deles feriu o colega, e o sangue proveniente do corte caiu na terra. Misturando-se ao barro, fez surgir dele um ser novo, derivado de dois elementos aparentemente díspares, mas que se combinaram num animal inteligente chamado ser humano.

A parábola bíblica da criação segue um caminho similar. Segundo o Capítulo 2 do Gênesis, “Deus formou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivente”.

Singular mistura! Barro da terra e sangue de deuses! Argila do solo e sopro divino! Aí está, representado em símbolos expressivos, o mistério do ser humano, essa personagem multiforme e única, misto de força e fraqueza, coragem e covardia, ternura e crueldade. Partilhando com os outros animais uma vida instintiva, com necessidades básicas de alimento, abrigo e reprodução, paira acima deles por uma faculdade insólita, que lhe é peculiar: a inteligência, capacidade de ler no interior das coisas e de si mesmo, de perceber novos caminhos quando confrontado a um impasse, de superar as próprias limitações e seguir adiante, vencendo obstáculos que, à primeira vista, lhe pareciam insuperáveis.

Nasce frágil e desamparado, incapaz de firmar-se sobre os pés como a grande maioria dos animais, necessitando ser trazido ao seio materno para receber alimento. Leva em geral de dez a doze meses para dar os primeiros passos, e necessita de afeto e carinho como de pão para crescer e fortalecer-se. Paulatinamente, porém, os olhos vão se abrindo, a inteligência começa a interpretar o grande livro do universo e a descobrir seus segredos.

Ao longo de uma lenta e fabulosa evolução, essa personalidade singular descobriu o fogo, inventou a roda, aprendeu a cultivar a terra, construiu cidades e fortalezas, criou civilizações e as destruiu, na ânsia de crescer, abrir novos caminhos e ampliar horizontes. E depois de desvendar os segredos da eletricidade, sua corrida tornou-se vertiginosa. Inventou novos meios e técnicas de transporte, pôs em ação o sonho de voar que o perseguia desde tempos remotos e criou sistemas de comunicação que transformaram o planeta numa aldeia global.

Entretanto, o ser humano carrega em si uma contradição. Sua história, desde os inícios, é marcada por guerras e disputas, geralmente motivadas pela cobiça e a prepotência. Muitas vezes, numa só batalha, são destruídos cidades e monumentos que levaram anos para ser construídos, custando esforço, suor e perda de vidas. Os detentores da força passam a considerar-se donos dos outros muitas vezes, impondo-lhes modos de ser e comportar-se inteiramente alheios a sua situação, idéias e sentimentos. Poderosos amealham fortunas à custa da exploração dos mais fracos, criando ideologias para justificar sua conduta. E a indústria de armamentos prospera, exigindo a criação de conflitos para levar nações e povos a se armar até os dentes, vendendo seus arsenais.

Li há anos atrás que os gastos anuais com armamentos em países como a Rússia e os Estados Unidos dariam para alimentar todos os famintos do mundo durante dez anos. E o ser humano, tão inteligente e perspicaz, não se dá conta da imensa contradição embutida nesse dado.

Capaz de escalar montanhas e subir ao topo do mundo, mergulhar nas águas abissais e explorar as profundezas do oceano, ele tem dificuldade de descer a um abismo bem mais próximo, que é o seu próprio coração, onde se escondem sonhos e desejos, dores e frustrações que lhe é difícil encarar de frente. Os homens e mulheres querem se sentir perfeitos e aparecer bem aos olhos dos outros, e por isso criam couraças protetoras para esconder-se de si mesmos. Enfrentar seus monstros internos é sentido como doloroso, humilhante e difícil. Bem melhor é seguir os modelos de conduta adotados pela sociedade e procurar impô-los aos demais.

As pessoas fogem de si mesmas numa corrida desenfreada, escondendo-se na sua competência, desempenho profissional e sexual, diversão, uso de drogas e outros mecanismos de fuga, ou procurando segurança no acúmulo de bens e riquezas. E se esquecem de que o único caminho para a realização plena é abraçar sua própria realidade, suas riquezas e limites, sem temor de parecer fracas, incompletas e em processo de contínuo aprendizado. Só a plena aceitação de si pode levar à aceitação jubilosa do outro, do diferente, do que nos parece estranho e fora dos nossos padrões.

Só quem convive jubilosamente consigo mesmo pode abrir os olhos para os outros e acolhê-los na singularidade que lhes é peculiar, aprendendo a sentar-se com eles à mesa do grande banquete da vida e a partilhar o espaço e o pão, a cultura e os sonhos, sem necessidade de apoderar-se desses bens para uso próprio e exclusivo, deixando uma multidão de excluídos fora da festa. Quando isso acontece, a cobiça dá lugar à colaboração, a dominação se transforma em serviço e a necessidade do acúmulo de bens se transforma na alegria de fazer amigos, de repartir com eles com eles riquezas e limites, esperanças e temores, na certeza de ser acolhido, aceito e respeitado integralmente.

Quando a humanidade chegar a esse patamar, não mais necessitará de armas para defender-se. Resolverá seus conflitos por meio do diálogo, do reconhecimento do direito de todos a uma vida digna e da comum solidariedade.

Será uma utopia? Talvez. Mas é bom abrir os olhos e pôr a mão na massa, voltar à casa da própria identidade e construir, no exíguo espaço que está ao nosso alcance, as bases da colaboração e da paz.

* Maria de Fátima de Oliveira: natural do Ceará, veio para o Rio aos 26 anos, filiada a uma instituição religiosa. Na PUC-Rio, fez Licenciatura em Filosofia e Mestrado em Educação. Começou a trabalhar na área de jornalismo em 1976, na Pesquisa do Jornal do Brasil. Depois, na Secretaria de Comunicação Social do ex-BNH e, por último, na TVE. É autora de poemas, letras de cânticos religiosos e do livro inédito Labirintos de Areia.

Meus artigos [1]

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[3] A origem da ARROB@: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/arroba/

[4] ASSIM FALHOU ZARATUSTRA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/assim-falhou-zaratustra/

[5] Salve, Napô! Napoleão muda história do Brasil, não é Dom João VI ?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/salve-napo/

[6] O Direito à Preguiça: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/o-direito-a-preguica/

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