Que modelo asiático?
Escrito por Imprensa, postado em 17 dEurope/London abril dEurope/London 2008
“Talvez devêssemos procurar aprender com o lado bom do modelo asiático – educação, abertura e gastos públicos voltados para a infra-estrutura. E deixar de lado o seu lado ruim – a administração de preços e do câmbio”.
Por Katia Alves
Publicado no: Valor
Por Edward Amadeo
Na base do chamado “desequilíbrio global”, de enormes déficits das contas correntes em alguns países e superávits em outros, está o regime de câmbio fixo dos países asiáticos e de outros, como os árabes exportadores de petróleo, a Rússia e a Argentina. Dois vetores permitiram a longa sobrevivência do desequilíbrio.
Primeiro, o fato de os países com os maiores déficits estarem entre os mais seguros devedores do mundo – EUA, Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália. Por que não financiar países com tradição de bons pagadores, mercados financeiros líquidos e empresas rentáveis?
Segundo, o excesso de poupança doméstica em relação ao investimento e a rigidez da política cambial nos países superavitários. Os superávits geram pressões para a apreciação das moedas. A apreciação tende a reduzir os superávits. Mas, se o câmbio é fixo, os superávits continuam.
A continuidade dos superávits traz problemas porque os bancos centrais são incapazes de controlar simultaneamente a taxa de câmbio e a liquidez do sistema financeiro. Por isso as economias com câmbio administrado estão sujeitas a surtos de endividamento e bolhas de ativos, como na Ásia em 1997 e agora, quando o mercado imobiliário está superaquecido em vários países da região.
Mesmo com todo o crescimento da produtividade e a credibilidade que conquistaram os bancos centrais mundo afora, o boom mundial dos últimos cinco anos terminou por produzir uma onda de inflação. Não de bens manufaturados – os preços desses caíram -, mas dos bens agrícolas e minerais. Isso porque, mesmo com inovações e investimentos, a sua produção esbarra em limites naturais. É a limitação de terras aráveis, o custo crescente da exploração de novas minas e assim por diante.
Com câmbio fixo, a inflação de bens agrícolas e minerais se transforma em inflação importada. No último ano, a taxa de inflação pulou de 1-3% para 6-10% na maioria dos países asiáticos e árabes com câmbio controlado. O que fazer?
A maior parte dos países asiáticos optou por anestesiar os mercados, controlando e subsidiando os preços do petróleo e dos alimentos.
A “inflação importada” é um teste para os governos e bancos centrais. E as respostas são as mais variadas. A maior parte dos países asiáticos optou por anestesiar os mercados, controlando e subsidiando os preços do petróleo e dos alimentos. Na Indonésia, por exemplo, os subsídios representam 20% das receitas tributárias e 5% do PIB. E os países que exportam esses bens, como o arroz na Tailândia, decidiram impor restrições às exportações.
Esses são países cuja tolerância fiscal aos subsídios é relativamente grande, pois têm dívida pública e taxas de juros baixas. Por isso, os subsídios e restrições às exportações no curto prazo funcionam para cada país individualmente, ainda que sejam péssimos para o conjunto dos países porque não estimulam a produção e não desestimulam o consumo. Ou seja, o efeito global dessas políticas é exacerbar a inflação. Como esse resultado está ficando cada dia mais claro, a solução encontrada tem sido abandonar o sistema de câmbio fixo, permitindo a apreciação da moeda. A China é o melhor exemplo disso, mas outros estão seguindo o mesmo caminho. Algo tem que ceder quando a inflação sai do controle.
O sistema de administração de preços, incluindo aí a taxa de câmbio, como se a inflação e os preços relativos (commodities/ manufaturados, lucros/ salários etc) fossem controláveis, é uma bomba relógio. No curto prazo, o tiquetaque produz sonolência, dá a impressão de que está tudo bem, tudo tranqüilo. Mas um dia – bum! – vem o estouro. E aí é preciso correr atrás do prejuízo, essencialmente com elevação abrupta dos juros e, possivelmente, recessão.
Afora os efeitos mais explosivos quando o modelo se rompe, há conseqüências mais duradouras devido às distorções de preços que levam a decisões de investimento erradas. O caso mais claro é a geração de energia, hoje limitada em vários países em que os governos insistem em controlar as tarifas.
Há países menos equipados que os asiáticos usando o mesmo receituário – subsídios, limites a exportações, câmbio administrado – e que já enfrentam o aumento da inflação e a apreciação do câmbio real há mais tempo. São países que crescem acima do potencial, com uma inflação controlada à base de artifícios. Tiquetaque, bum.
Querendo ou não, nesse quesito, o Brasil é um exemplo de liberalismo. O Banco Central se recusa a administrar o câmbio – haja vista a apreciação dos últimos anos – e não se vê sinais de interferência no sistema de preços. A política monetária continua sendo o principal instrumento de controle da inflação. É um sinal de enorme maturidade e um excelente seguro contra estouros.
Uma área em que continuamos muito mal comportados é a fiscal. Por dois motivos: primeiro, não fazemos política fiscal anticíclica, o que sobrecarrega o Banco Central e a política monetária. Se a inflação vier mais forte do que o cenário de consenso, vamos ter juros mais altos do que se o governo diminuísse gastos quando a demanda privada está crescendo. Segundo, o governo privilegia gastos
correntes e transferências em detrimento dos gastos em infra-estrutura – o PAC é uma brincadeira perto do que investem os governos na Ásia. Como resultado, a inflação é menos tolerante ao crescimento.
Enfim, talvez devêssemos procurar aprender com o lado bom do modelo asiático – educação, abertura e gastos públicos voltados para a infra-estrutura. E deixar de lado o seu lado ruim – a administração de preços e do câmbio.










