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Olhar clarividente

Posted By Imprensa On 3 abril, 2008 @ 4:12 pm In Cinema,Conjuntura,CULTURA,Desenvolvimento | No Comments

Por  Márcia Pinheiro [1]

Em carta capital on line [2]

Ao se enfrentar com o mundo real, esse economista sente-se, para surpresa sua, extremamente frustrado. A desorientação será bem maior ainda, entretanto, se o economista for convocado para trabalhar no setor público. Neste caso, perceberá em pouco tempo que, se tudo o que aprendeu não é totalmente inútil, quase tudo que é realmente útil ele deixou de aprender.

 Há documentários cujo mérito é ser não-cinema, ou quase cinema, diante da grandiosidade dos fatos ou dos personagens retratados. É o caso de O Longo Amanhecer, dirigido por José Mariani, sobre a vida de Celso Furtado, com estréia marcada para a sexta-feira 4 de abril. O economista é o entrevistado principal do filme, iniciado quatro meses antes de morrer, aos 84 anos, em 2004. Entremeados, estão depoimentos de discípulos, como Maria da Conceição Tavares, João Manuel Cardoso de Melo, Antonio Barros de Castro e Francisco de Oliveira. A cinebiografia obedece à ordem cronológica da vida de Furtado. Nada de truques, flash-backs ou mistérios. Tampouco são apresentadas imagens chocantes, que poderiam ter sido usadas de modo oportunista pelo diretor, uma vez que a bandeira do economista sempre foi o reconhecimento de que o Brasil é subdesenvolvido. Não há eufemismos, como “emergente”. A partir da constatação de que essa é a cara do País, miserável, desigual e fadado a ser satélite do Hemisfério Norte, Furtado costurou sua história acadêmica e política.

A escolha das poucas imagens é feita de maneira cautelosa. Colhedores de cana em campos nordestinos, a imensidão dos horizontes de Brasília, as conversas com os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. A câmera inevitavelmente capta o semblante atento de um homem que sabia ouvir e, sobretudo, defender uma idéia clara de como fazer o Brasil deslanchar. Habilidoso politicamente, jamais titubeou em seus princípios.

A família aparece apenas na forma de fotografias antigas, outro indício de que a idéia de Mariani, também documentarista da vida do cientista Cesar Lattes, passa ao largo de explorações romantizadas do retratado. O cineasta não se perde em tentações fáceis. O resultado é a história do mais importante economista brasileiro do século XX, que, desde a década de 50, comprou ferozmente, ao lado dos desenvolvimentistas, a briga intelectual contra os monetaristas. Autor, relembre-se, de uma obra que revolucionou o pensamento econômico nativo, Formação Econômica do Brasil, de 1957.

Logo na primeira cena, destacam-se seus olhos mansos e perdidos no futuro. Confessa ter pensado em escrever ficção, lá em Pombal, na Paraíba, onde nasceu. Mas desistiu. Preferiu “captar o essencial da realidade por meio da análise”. O Brasil só ganhou com a escolha, descrita de forma serena. Serenidade que dura pouco: “Quem manda neste país?”, provoca o economista na seqüência. “A taxa de juro fantasia que nos sangra”, responde sem titubear. Ele sabia do que falava, também porque, à maneira euclidiana, os nordestinos são, sobretudo, fortes.

O economista sempre combateu as elites, que condenaram a Região Nordeste a ser pobre e analfabeta. A partir de 1949, abraçou a causa da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), sob a batuta do ex-presidente do Banco Central argentino Raúl Prebisch. No livro A Fantasia Organizada, Furtado relata que indagou por que Prebisch voltou à universidade depois da sua passagem pelo BC. Resposta: “Quando deixei o Banco Central, fiquei sem meio de vida. Eu havia sido muitos anos diretor-presidente do BC, conhecia a carteira de todos os bancos. Quando me demitiram, muitos grandes bancos me ofereceram altas posições, mas como podia colocar os meus conhecimentos a serviço de um se conhecia os segredos de todos?”

Como esse mestre, Furtado nunca cedeu às tentações do setor privado. Alguém consegue ter uma referência contemporânea apenas levemente parecida com esta? Difícil. Foi um homem público por excelência, que acreditava na política como instrumento da transformação e não trampolim para o mundo empresarial-financeiro. Formulou uma teoria que visava à revolucionária prática de romper o círculo vicioso da pobreza, com doses fortes de keynesianismo. Um basta à dominação do Primeiro Mundo.

Desligou-se da Cepal, em 1958, e assumiu uma diretoria do então BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico). O Nordeste sofreu, naquele ano, uma das piores secas do século, que deixou meio milhão de cidadãos sem teto. JK o nomeou interventor no Grupo de Trabalho do Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), gênese do que viria a ser a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1960, foi nomeado seu secretário-executivo. 

Até a criação do órgão, como descreve Furtado no documentário, havia apenas um vago e eleitoreiro projeto “hidráulico” para a região, e nisso ele não esconde a ironia, como se água, por si só, gerasse empregos e renda. Furtado sorri e volta a perder os olhos no horizonte, ao mencionar a Sudene, um dos seus grandes legados. “Não queria ser confundido com esquerdistas”, diz em coté piadista, o idealizador da Teoria do Subdesenvolvimento.

“Um homem com horizonte moral”, diz Conceição Tavares. “Um reformista”, nas palavras de João Manuel. “O economista que melhor personifica a herança keynesiana”, afirma Antonio Barros de Castro. Os elogios e o reconhecimento da obra de Furtado permeiam todas as entrevistas. Não são excessivos. O economista escreveu 40 livros, traduzidos em 11 línguas.

Esquerdista ou não, teve os direitos políticos cassados por dez anos com o golpe, em 1964, e subseqüente ditadura militar. Não sem razão para as mentes persecutórias da época. Furtado soube captar e preservar o melhor das idéias de Getúlio Vargas, aliou-se a JK, apesar de divergir sobre a política para o capital estrangeiro do ex-presidente, e esteve ao lado de Jango, de quem foi ministro do Planejamento.

Exilou-se no Chile, nos Estados Unidos e na França, onde foi um intelectual respeitado no ambiente acadêmico. Voltou ao Brasil em 1979. Não parou de interferir no debate econômico e político. Aceitou ser ministro da Cultura no governo Sarney. Continuou a escrever, mesmo que soubesse, segundo relato de Conceição Tavares, que o futuro imaginado, desenhado e tão cuidadosamente sonhado estava cada vez mais distante. Muito além do que os olhos clarividentes de Furtado sempre tentaram perscrutar.

Inaugurado em 2005, o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, procura manter vivos o pensamento e o espírito do economista. No site http://www.celsofurtado.org.br/ [3], há toda a história do pensador, suas obras, palestras e atividades do centro. Em terras onde proliferam MBAs que nem sequer conhecem a história de seu País e imaginam comandar o mundo atrás de mesas de operação de instituições financeiras, nada mais oportuno do que um mergulho na vida de um homem que não escondia uma qualidade rara e imprescindível no setor público: ser nacionalista. Um termo que os neoliberais quiseram tirar do dicionário, mas ainda não conseguiram.


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[2] carta capital on line: http://www.cartacapital.com.br/

[3] http://www.celsofurtado.org.br/: http://www.celsofurtado.org.br/

[4] Domingo é dia de Cinema - E de um bom debate também!: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/domingo-e-dia-de-cinema-e-de-um-bom-debate-tambem/

[5] Os horizontes de Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/os-horizontes-de-celso-furtado/

[6] Pré-estréia do documentário "Condor": http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/pre-estreia-do-documentario-condor/

[7] Cinema e debate no Odeon quarta-feira: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/05/cinema-e-debate-no-odeon-quarta-feira/

[8] "Veneno e Antídoto": http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/06/veneno-e-antidoto/

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