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Ocupação da indústria, entre a foto e o filme

Posted By Imprensa On 24 abril, 2008 @ 9:00 am In Conjuntura,O que deu na Imprensa,Política Econômica,política industrial,Propostas de Mudanças para o Banco Central | No Comments

Elevação de juros é a pior política para o controle da inflação, pois, se por um lado, contém a demanda, por outro, desestimula o investimento, impedindo a ampliação da oferta; ampliação essa que seria a forma mais saudável de conter as pressões inflacionárias, pois, elevaria o nível de produto e emprego… É preciso olhar para além da simples fotografia, revelada nas pesquisas específicas, da ocupação atual da indústria; deve-se ver seu filme completo, sua possibilidade de ampliação, mas para tal é necessário que haja claras expectativas de elevação da demanda… Justamente o que as políticas restritivas do BaCen pretendem impedir…

*Por Elizabeth Cardoso

Publicado originalmente em O Estado de São Paulo [1] (restrito a assinantes)

Por Antonio Corrêa de Lacerda

A polêmica referente à capacidade do setor industrial em atender ao suprimento da demanda, sem que isso signifique riscos de desabastecimento e/ou pressões inflacionárias, tem ganho dimensão. Ela é relevante porque influencia as decisões de política econômica envolvendo, entre outras questões, a fixação da taxa de juros.

A taxa de ocupação dos vários setores e da indústria em geral é sistematicamente monitorada por pesquisas realizadas pela Fiesp, pela CNI e pela FGV divulgadas mensalmente. Os dados mais recentes indicam uma taxa de ocupação entre 81% e 85%. No entanto, nem sempre ficam claros para os observadores os critérios utilizados, o que pode induzir a interpretações equivocadas.

É preciso destacar que se trata de uma pesquisa que depende fundamentalmente das respostas do universo de empresas auscultadas. As empresas tendem a adequar a sua capacidade produtiva à demanda futura esperada. Quando uma empresa responde que está utilizando 90% da sua capacidade, isso equivale a dizer que ela, num determinado turno de produção, digamos de oito horas, teria a capacidade de produzir 100 unidades e está produzindo 90.

Mas isso não deve ser interpretado como se as empresas só fossem capazes de expandir sua produção em mais 10%. Mediante necessidade, a empresa poderia recorrer a um segundo ou mesmo a um terceiro turno de produção. Poderia ainda trabalhar em finais de semana ou fazer pequenas adaptações nas suas linhas de produção para atender à expansão da demanda. Portanto a primeira informação de ocupação da capacidade de 90% é relevante, mas tem de ser interpretada como uma fotografia estanque de um filme de longa-metragem.

Há ainda o ponto mais importante a ser levado em conta: uma empresa diante da situação hipotética descrita no parágrafo anterior decidiria por realizar novos investimentos em ampliação da planta existente ou mesmo pela construção de uma fábrica nova. O que move o desejo de investir, ou, como muito bem definiu Keynes, desperta o “espírito animal” dos empresários, é a expectativa de uma demanda crescente e firme. Ninguém faz investimentos nem aumento da produção se não tiver uma clara percepção de demanda firme à frente.

Daí que é preciso interpretar corretamente as pesquisas de ocupação e cruzar essas informações com os investimentos previstos já decididos e em execução, e qual os seus prazos de maturação – em quanto tempo estarão efetivamente gerando maior produção.

Na eventual ocorrência de um gap entre a ampliação da oferta, dada pela expansão dos investimentos e da demanda, isso não representa, necessariamente, um risco de desabastecimento ou da pressão inflacionária, já que poderia ser atendido com importações.

Portanto, a pior decisão de política econômica seria aumentar os juros ou restringir o crédito, porque isso pode abortar decisões de investimentos. A melhor forma de controlar a inflação de forma perene, combinada com o crescimento da produção, do emprego, da renda e dos tributos, é mesmo estimular a demanda. Fatores de competitividade sistêmica ajustados à média internacional e à adoção de políticas de desenvolvimento (industrial, tecnológico e de exportação) também exercem papel fundamental.

Há fortes indicadores de crescimento da demanda, impulsionada pelo aumento da massa salarial real, da oferta de crédito e pela maior confiança do consumidor. Mas há, em contrapartida, indicadores de crescimento dos investimentos. No ano passado, por exemplo, para um crescimento da indústria de 6%, a produção de máquinas e equipamentos cresceu quase 20%. Nada indica uma reversão desse quadro.

Na verdade, não há gargalos relevantes à vista na indústria. Há, sim, deficiências na infra-estrutura e é preciso agir rápido para ampliar a oferta e melhorar a produtividade em áreas como suprimento energético, portos e estradas. Mas aqui também a solução não é conter a demanda, mas estimular inversões para garantir o suprimento com um marco regulatório claro e estável, realização de investimentos públicos e estímulos aos investimentos privados.


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[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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