O centro e a periferia
Escrito por Imprensa, postado em 11 dEurope/London abril dEurope/London 2008
A relação centro X periferia já não é mais a mesma. A riqueza mundial está em franco processo de descentralização, o que certamente representa um novo paradigma no contexto econômico internacional…
*Postado por Elizabeth Cardoso
Publicado originalmente na seção Opinião do Valor Online (restrito a assinantes), em 11/04/2008
Por Javier Santiso*
Os mercados financeiros encontraram um novo conceito com o qual tentam rifar a queda livre dos rendimentos nos países da OCDE. Agora eles falam de desacoplamento para indicar a maior capacidade de resistência das economias emergentes à crise que desponta a partir dos Estados Unidos. Este conceito, porém – em contradição com o de globalização, também defendido pelos mercados financeiros – é insuficiente na hora de tomar o pulso da mudança tectônica que estamos presenciando.
O que estamos vivendo é uma mudança de época e de paradigma que se assemelha a uma grande transformação, para parafrasear o economista húngaro Karl Polanyi. Os equilíbrios e as riquezas dos países estão se redesenhando a grande velocidade com a emergência de novos países, através da China, Índia, Brasil, México, África do Sul e Rússia, para mencionar as economias de ponta, que emergem a partir daquelas que até anteontem eram denominadas países em desenvolvimento.
Esta emergência é o principal evento econômico internacional deste início de milênio. Não se trata de uma espuma passageira, mas de uma onda profunda duradoura. Há 50 anos, as economias da OCDE concentravam 75% do PIB mundial. Agora, sua parcela se aproxima de apenas 55% do PIB mundial. A maior parte do crescimento mundial destes últimos anos se situa nas economias emergentes.
Igualmente, há 40 anos, 100% dos investimentos externos diretos procediam dos países da OCDE; agora, são menos de 85%. Jóias do antigo império britânico, como Corus, Jaguar ou Land Rover, caem umas após as outras nas mãos das antigas colônias das Índias. Há uma década, mais de 70% do comércio mundial estava nas mãos dos países ricos e agora esta proporção é de apenas 60%, e os números continuam apontando para baixo. Em 2007, pela primeira vez, o peso dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) igualou o dos Estados Unidos (21% do total mundial para ambos). Neste mesmo ano, os países emergentes já concentravam 85% da população mundial.
Estas mudanças não estão acontecendo de forma abrupta, elas levaram anos para se materializar em equilíbrios completamente diferentes dos que temos presenciado no fim do século XX. A (re)emergência da China, que até meados do século XIX concentrava mais de 30% do PIB mundial, é, sem dúvida, a ponta mais espetacular do iceberg que vem à superfície. Consultorias e bancos de investimento multiplicam as previsões para sondar em que ano a China superará de novo os EUA.
Para a Price Water House Coopers (PWC) ou o Goldman Sachs, esta data gira em torno de 2025. O economista e historiador Angus Maddison inclusive se atreve a prognosticar um momento mais próximo, em torno do ano de 2015 (ver Angus Maddison, “Chinese Economic Performance in the Long Run” [Desempenho econômico chinês no longo prazo], Paris, Centro de Desenvolvimento da OCDE, 2007). A verdade é que pouco importa a data exata: o que está certo é que a nossa geração presenciará esta mudança tectônica.
Algumas economias do Sudeste Asiático ou do Oriente Médio já ostentam PIB per capita mais elevados que muitos países da OCDE
Para além da China, o que veremos passar será o vagão de todos os emergentes recuperando o tempo perdido. Em meados do nosso século, segundo a PWC, a Índia provavelmente conseguirá representar cerca de 90% da economia dos EUA. Igualmente, em 2050, o Brasil superará o Japão, ao passo que Rússia, México e Indonésia ultrapassarão a Alemanha. O Vietnã, outro país emergente que desponta rapidamente a partir do Sudeste Asiático, também deveria se aproximar da Itália ou da Espanha em torno destas datas. A partir de 2020, a China provavelmente já será o segundo maior mercado de consumo do planeta, algo que deveria continuar despertando o apetite dos operadores do grande varejo e de todas as empresas voltadas aos serviços.
Para além dos números e dos prognósticos, precisaremos reajustar todos os nossos marcos conceituais e paradigmas. As categorias, no passado clássicas, de países da OCDE versus países emergentes, já são questionáveis. A OCDE conta com um punhado de economias emergentes que pertencem ao clube (México, Turquia e Coréia do Sul). Como se fosse pouco, outras, como Chile, Israel e Rússia, por exemplo, estão, desde 2007, em processo de admissão. Algumas economias do Sudeste Asiático ou do Oriente Médio já ostentam PIB per capita mais elevados que muitos países da OCDE.
Por outro lado, economias como Islândia ou Grécia apresentam, nos mercados financeiros, comportamentos de volatilidade ainda recentemente considerados exclusivos dos mercados emergentes. O que estamos presenciando, acima de tudo, é uma descentralização do mundo. Dito de outra forma, o que vivemos agora não é um desacoplamento, mas um realinhamento das riquezas dos países. As relações comerciais, financeiras e industriais entre os países do Sul estão se intensificando a uma grande velocidade. O centro é cada vez menos o centro e a periferia, cada vez menos a periferia. A América Latina e a Ásia estão exportando cada vez mais, assim como a África.
Desde meados desta década, um país como o Brasil mantém mais laços comerciais com os emergentes do que com qualquer outra região do mundo desenvolvido. Na América Latina, o Chile já exporta mais para a Ásia que a qualquer outra região do mundo (35% do total em 2007). Na Ásia, os países da região já fazem a maioria dos seus intercâmbios comerciais entre si (52% do total em 2007). Por décadas, o Ocidente se considerou o centro do mundo. Por décadas, temos celebrado os efeitos da globalização. [...] (Leia aqui o restante deste texto – restrito a assinantes)
* Javier Santiso é diretor e economista-chefe do Centro de Desenvolvimento da OCDE.











12 dEurope/London abril, 2008 as 5:07 am
QUe texto é esse? Me parece que eu estou diante de uma obra prima que me lembra a Revolução que foi o artigo do Prebisch de 1949.
12 dEurope/London abril, 2008 as 5:19 am
Um texto revolucionário não precisa dizer coisas complicadas e que ninguém está vendo. O texto do Prebisch de 49 é uma das maiores provas disso. E que texto era aquele? Prebisch e a CEPAL e grande parte da tradição que seguiu ele é um excelente exemplo de como as vezes os mestres não conseguem ser superados pelos seus seguidores. Quando eu vou criticar uma certa tradição estrutiralista, dali a crítica do Prebisch em 49. Alguns economistas me assustam. O Prebisch. Kalecki é outro. Já disse isso aqui, mas vou repetir: Kalecki tinha tanta ideia foda que ele cuspia essas ideias e ele mesmo não dava valor. Alias, esse termo do Kalecki cospe as ideias e muda de assunto é o Possas falando. Outro cara que assusta é o Polanyi, né? Que apítulo 1 é aquele? Tem uma densidade de ideia ali que eu acho que o autor não dá conta. Ao lerem o Polanyi, vcs não tiveram a mesma impressão não? Ele joga uma complexidade de informações no prímeiro capítulo, que ele não responde no resto do livro. Pelo menos foi essa a minha sensação