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No rastro da fome

Posted By Imprensa On 29 abril, 2008 @ 7:10 pm In Assuntos,Internacional,O que deu na Imprensa | No Comments

A alta dos preços dos produtos agrícolas tem provocado uma onda de protestos em todo o mundo, “(…)uma elevação pequena nos preços tende a ter um efeito dramático. Quem estava comendo melhor agora deverá comer menos. E quem não comia quase nada ficará sem comer. Passamos uma crise muito grave”, afirma Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas.

No Brasil, o efeito da crise é mais marginal, porque o país é um dos principais produtores mundiais de alimentos e ainda há a possibilidade de aumentar a produtividade devido a grande quantidade de terra disponível, mas é importante destacar que o Brasil tem um problema muito grave de infra-estrutura prejudicando o escoamento da safra.

Por Katia Alves

Para ler o artigo na íntegra clique em: Época [1] (restrito para assinantes)

Por José Fucs

Como o Brasil pode aproveitar a alta dos preços dos alimentos para se transformar na maior potência agrícola do planeta

O ex-ministro do desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan, também ex-presidente do conselho de administração da Sadia, uma das maiores empresas do agronegócio do país, conta uma história pessoal para explicar a alta nos preços dos alimentos em todo o planeta. Furlan compara o preço da tonelada de soja com o de uma Coca-Cola e com uma diária do hotel Waldorf Astoria, um dos mais luxuosos de Nova York. Segundo ele, em 1965, quando viajou para os Estados Unidos com o avô, Atílio Fontana, o fundador da Sadia, uma diária no Waldorf Astoria custava US$ 35, uma Coca valia US$ 0,25 e o preço da tonelada de soja era US$ 180.

No início de 2006, antes da grande onda de alta dos alimentos, a diária mais barata do Waldorf tinha decuplicado, para US$ 350, e o preço do refrigerante havia subido seis vezes, para US$ 1,50. Enquanto isso, o preço da soja havia passado para US$ 200, apenas 10% acima do valor de 1965. Não é surpresa para ele, portanto, que o preço da tonelada de soja esteja hoje na faixa de US$ 500, mesmo que os demais preços – o do hotel e o da Coca-Cola – tenham se mantido estáveis nos últimos dois anos. Mas, apesar da alta recente da soja, o preço atual ainda é apenas 1,5 vez maior que o de 23 anos atrás, uma elevação bem inferior às do hotel e do refrigerante no período. “Durante 40 anos, os preços dos alimentos ficaram estagnados, enquanto todos os outros subiram”, afirmou Furlan a ÉPOCA durante o Fórum Econômico Global para a América Latina, realizado em Cancún, no México, com a presença de 500 empresários, consultores e autoridades regionais. “Uma hora eles também tinham de subir. Acho até que demorou.”

A história de Furlan sobre a soja pode ser aplicada, em maior ou menor grau, a diferentes produtos agrícolas, como o milho, o trigo, o arroz, a carne, o leite e também a seus derivados. De repente, nos últimos anos, os preços dos alimentos, que haviam caído em média 75% entre 1975 e 2004, segundo dados da Economist Inteligence Unit, começaram a subir – e até agora ainda não dão sinais de que o atual ciclo de alta está chegando ao fim. Mesmo em meio às perspectivas de desaceleração econômica global, em decorrência da crise no mercado imobiliário americano. De acordo com estimativas do Banco Mundial, o arroz deverá fechar o ano como o grande vilão dos alimentos, com uma alta acumulada de 52,3%, seguido pelo trigo, com 39,5%.

Ao mesmo tempo que a alta dos preços dos alimentos abre uma oportunidade excepcional para grandes países produtores como o Brasil, tem um efeito desastroso para dezenas de países importadores, principalmente os menos desenvolvidos. Depois de quase uma década de redução contínua, fruto da baixa inflação e do crescimento robusto observado em quase todos os países, a pobreza deverá voltar a aumentar. Milhões de consumidores que haviam sido incorporados ao mercado nos últimos anos deverão andar para trás. A fome do mundo também deverá aumentar – e não apenas nos países mais pobres.

Nas faixas de renda mais baixa da população, o peso do preço da comida no orçamento é sempre muito maior que na classe média alta. Pode atingir de 60% a 70% da renda mensal. Uma elevação pequena nos preços tende a ter um efeito dramático. Quem estava comendo melhor agora deverá comer menos. E quem não comia quase nada ficará sem comer. “Passamos uma crise muito grave. Para quem gasta a maior parte do salário com comida, a alta dos preços dos alimentos é um problema muito sério. Veremos muitas greves e protestos por causa de comida”, afirma Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas. “Essa é a nova face da fome. Pessoas que há seis meses não passavam fome, agora passam”, diz Josette Sheeran, diretora do Programa Mundial de Alimentação da ONU.

A alta dos preços dos produtos agrícolas tem provocado uma onda de protestos em todo o mundo. No Haiti, o presidente Jacques Edouard Alexis acabou deixando o cargo no início do mês, depois de uma série de manifestações contra a elevação dos preços dos alimentos, que deixou um saldo de cinco mortos e 40 feridos. No Egito, a elevação do preço do pão, em decorrência da alta do trigo, provocou protestos que teriam resultado num saldo de quatro mortos. Na Índia, em novembro do ano passado, também houve protestos contra a falta de alimentos, no Estado de Bengala Ocidental, na região leste do país. Na tentativa de conter os preços no mercado interno, o governo indiano adotou medidas para desestimular as exportações.

A Argentina seguiu caminho semelhante e o resultado foi que os produtores se rebelaram e cortaram o abastecimento dos supermercados durante três semanas, alegando prejuízos com as restrições impostas pelo governo às exportações de alimentos. Tais medidas, porém, prometem ter pouca eficácia. “Nós estimulamos os países a evitar o aumento de impostos ou a imposição de cotas sobre as exportações de alimentos”, afirma Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), entidade que acompanha o sistema financeiro global e as políticas econômicas de diferentes países. “Elas diminuem os incentivos para os produtores domésticos e reforçam o aumento internacional dos preços dos alimentos.”

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, prefere colocar a culpa da alta nos subsídios americano e europeu para a agricultura, que impediriam uma queda dos preços. Fala-se também do impacto da alta do petróleo no agronegócio, em particular no transporte e nos fertilizantes. Os preços de outras matérias-primas, como o minério de ferro, usado na produção de aço, base para a fabricação de tratores e outros bens, também estariam pressionando os alimentos para cima. Mas o mais provável, segundo a maior parte dos analistas, é que tudo isso seja conseqüência de um descompasso entre a oferta e a demanda, que ocorreu no atual ciclo de prosperidade global. Hoje, a produção simplesmente não é suficiente para suprir a procura. Um estudo realizado pela FAO, o braço da ONU para agricultura e alimentação, prevê um crescimento na oferta mundial de 4,6% neste ano, para 2,10 bilhões de toneladas. Mesmo s assim, ainda pouco abaixo da demanda, de 2,12 bilhões. O aquecimento global, causa de secas em diversas partes do mundo, como a Austrália, também estaria tendo efeito negativo na produção.

Nesse cenário, ainda há quem acredite, como aconteceu no início da crise do mercado imobiliário americano, que o impacto da alta dos alimentos não é tão ruim quanto se diz. Mas, como no caso dos imóveis, a realidade deverá se impor aos mais céticos. É verdade que a fome no mundo sempre existiu, mesmo nos anos em que os preços dos alimentos ficaram estagnados. Só que havia tempo não existia uma perspectiva tão clara de aumento da pobreza no mundo. É certo também que parte da alta atual se deve ao aumento das operações especulativas com produtos agrícolas no mercado futuro internacional, em particular na Chicago Board of Trade, dos Estados Unidos. Segundo grandes empresários do agribusiness global, 10% a 15% da alta se deve a um movimento especulativo. Economistas latino-americanos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) calculam que o impacto da especulação nos preços seja maior, de até 70% do total, o que parece menos provável. Independentemente das razões que provocaram a alta dos alimentos, o fato é que essa questão passou a preocupar as principais autoridades econômicas do planeta e empresários e executivos de grandes grupos globais.

Recentemente, em Washington, nos Estados Unidos, durante o encontro de primavera do FMI e do Banco Mundial, duas das principais entidades financeiras multilaterais, o tema dominou boa parte da pauta. Não faltaram comunicados dramáticos e discursos inflados de insuspeitos representantes do capitalismo. “Esse não é apenas um problema humanitário ou econômico. É o tipo de coisa que leva a guerras. Se os preços continuarem como estão hoje, as conseqüências serão terríveis em muitos países, não só na África”, afirmou Strauss-Kahn, do FMI.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, seguiu na mesma linha. “Numa análise superficial, estimamos que o aumento de 100% no preço da comida nos últimos três anos poderá jogar 100 milhões de pessoas de países do Terceiro Mundo mais fundo na pobreza”, afirmou Zoellick no encontro. “Estou satisfeito por saber que a alta do preço dos produtos agrícolas será um dos tópicos da reunião dos ministros das finanças do G-8 em Tóquio, em junho.” Até a ponderada revista The Economist publicou recentemente duas reportagens de capa sobre o tema. Em dezembro de 2007, o artigo era intitulado “O fim da comida barata”. Na semana passada, a revista voltou à carga, desta vez com uma reportagem intitulada “O tsunami silencioso”.

No Fórum Econômico, em Cancún, o destaque para o problema foi o mesmo. Lá, também se falou muito sobre as causas da crise e discutiu-se o impacto dos biocombustíveis e do preço do petróleo na alta dos alimentos. Os representantes brasileiros, como o ex-ministro Furlan e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, tentaram argumentar, com relativo sucesso, que o combustível feito a partir da cana-de-açúcar no Brasil não é responsável pela alta dos alimentos, mas o milho usado nos EUA é.

No Brasil, até agora, a crise dos alimentos teve um efeito marginal, até pelo fato de o país ser um dos principais produtores mundiais, exceto pela pressão inflacionária que produziu. Aqui, hoje, mais que evitar o crescimento da fome, o grande desafio é aproveitar a oportunidade para consolidar o país como o grande fornecedor mundial de alimentos. Com a elevação dos preços no mercado externo, o agribusiness – outrora considerado uma atividade de segunda linha, sem valor agregado, como os bens de alta tecnologias – transformou-se num dos grandes negócios do momento. De acordo com o Banco Mundial, o país é o que tem a menor “área agricultável” em relação à área total na América Latina e, provavelmente, em todo o mundo. O Brasil produz hoje cerca de 140 milhões de toneladas de grãos por ano, numa área agricultável de 47 milhões de hectares, que ocupa apenas 5,4% do território nacional. Calcula-se que, excluídas as florestas e as áreas de conservação ambiental, haja ainda 90 milhões de hectares virgens, que somam 11% da área do país. “É muito simples: o mundo precisa do Brasil para comer e vai precisar cada vez mais”, diz o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, hoje presidente do comitê de estratégia da Friboi, maior frigorífico do país. Até empresários de outros países vêem o Brasil como uma das principais alternativas para viabilizar o aumento da oferta de alimentos. “O Brasil tem muita terra e, se não dá liberdade total aos empresários para trabalhar, ao menos não impede o desenvolvimento do negócio, o que já é importante”, diz o argentino Carlos Blousson, comandante da Cresud, empresa de investimento em tecnologia e agropecuária com sede em Buenos Aires.

Além disso, há espaço para aumentar a produtividade no país. Só em grãos ela cresceu 130% em 15 anos e deverá continuar em ritmo forte, acima dos principais concorrentes internacionais, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Criada em 1973, em meio a outro ciclo de alta nos preços dos alimentos, a Embrapa teve um papel preponderante nessa trajetória e tornou-se uma referência internacional em pesquisas agropecuárias. Virou até case da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Alguns de seus principais feitos: a introdução do plantio de soja e de algodão no Cerrado, onde hoje se concentra boa parte de nossa produção; a melhoria genética da espécie forrageira Brachiaria brizantha, que acelera a engorda do gado de corte e aumenta a produtividade; e a pesquisa genética que deu origem ao primeiro clone de animal do país, a bezerra Vitória, em 2001.

Agora, a Embrapa está fincando sua bandeira lá fora. Neste mês, o país inaugurou um escritório em Gana, na África, para firmar parcerias com países de lá. Já foram assinados 11 acordos e oito estão em negociação. Nos próximos meses deverá ser aberto um escritório na Ásia. “Não se surpreenda se em cinco ou dez anos você observar grandes áreas plantadas na savana africana, resultado do uso da tecnologia brasileira. Plantar a cana-de-açúcar lá não será uma coisa do outro mundo para nós”, afirma o presidente da Embrapa, Sílvio Crestana.

O governo parece já se ter dado conta da oportunidade. “Os pobres do mundo estão comendo mais. Tem mais chineses comendo, tem mais brasileiro comendo, tem mais africano comendo, e isso faz crescer a pressão por alimentos”, afirmou recentemente o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. “O que precisamos é produzir mais.” O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, reforça a mesma percepção. “A tendência é o Brasil ter uma participação cada vez maior no mercado de produtos agrícolas. O Brasil tem uma eficiência de produção muito maior que a de outros países, porque tem território, clima adaptado, gente capaz de produzir e tecnologia desenvolvida”, diz.

A questão é o que o governo está fazendo na prática para expandir a fronteira agrícola, com respeito ao meio ambiente, e para aumentar ainda mais a produtividade das áreas já exploradas pela iniciativa privada. Na semana passada, o governo anunciou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) da Embrapa, que prevê a aplicação de quase R$ 1 bilhão até 2010, principalmente em pesquisa. Ainda é muito pouco. Hoje, o país ainda sofre para tentar extirpar a febre aftosa do rebanho nacional e negociar as restrições à importação de carne pela Comunidade Européia. Stephanes estima que as restrições só deverão ser suspensas perto do fim do ano. “O importante é que os europeus já estão mais flexíveis. Estamos avançando”, diz o ministro.

É preciso levar em conta também que o Brasil pena – e não é de hoje – com a infra-estrutura sofrível para o escoamento da safra: estradas malconservadas, portos ineficientes, gargalos energéticos e o desenvolvimento de outros meios de transporte. Tudo isso é importante para aumentar a produtividade do campo, mas ela não depende do produtor. Está nas mãos do governo – e é preciso agir para o Brasil não perder o bonde mais uma vez. Falta também, na avaliação de Crestana, da Embrapa, mais financiamento aos produtores e um volume maior de recursos para o apoio técnico a agricultores, especialmente os pequenos e médios produtores, já que os grandes têm boa capacidade de sustentar suas atividades. Como se pode observar, se nada for feito desta vez, não será por falta de diagnóstico. Como se diz no jargão do futebol, a bola está “pingando” na área. Agora, é só colocar para dentro do gol. Ou então deixar a bola passar mais uma vez, como parece ser, muitas vezes, o destino do Brasil.


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[1] Época: http://www.epoca.com.br/

[2] Ainda o Semi-árido, por Roberto Malvezzi: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/ainda-o-semi-arido-por-roberto-malvezzi/

[3] A FARRA DA TAPEAÇÃO: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/a-farra-da-tapeacao/

[4] Terceirização impõe “padrão de emprego asiático”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/terceirizacao-impoe-%e2%80%9cpadrao-de-emprego-asiatico%e2%80%9d/

[5] Moniz Bandeira e o futuro da América Latina: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/moniz-bandeira-e-o-futuro-da-america-latina/

[6] Delfim ainda não vê excesso de demanda: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/delfim-ainda-nao-ve-excesso-de-demanda/

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