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Blog do Desemprego Zero

Nas mãos de Deus – e do Estado

Escrito por Imprensa, postado em 19 dEurope/London abril dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Será que não são os políticos o problema, mas sim a sociedade?

Por  Luciana Sergeiro

Publicado em: Revista Amanhã

Por Eugênio Esber

O autor da pesquisa que deu origem ao livro A cabeça do brasileiro vê um país fatalista, com pouca disposição para empreender e muito inclinado à idéia de que quanto mais governo, melhor

O sociólogo carioca Alberto Carlos Almeida sabia, claro, onde estava pisando quando propôs à Fundação Ford uma espécie de raio-x do que pensam seus compatriotas. E não deu outra: ao final das 2.363 entrevistas que realizou, com o apoio de universidades de todo o país, apareceram traços que ele já havia encontrado na obra do antropólogo Roberto DaMatta, autor de clássicos como “Carnavais, Malandros e Heróis” e “O Que Faz o Brasil?”. Mesmo assim, Almeida ficou impressionado com o painel que teve em mãos. “O quadro é pior do que eu pensava”, diz o autor de “A Cabeça do Brasileiro”, livro que reúne as conclusões da pesquisa aplicada em 103 municípios do país – aí incluídas 27 capitais. Com doutorado em Ciência Política pelo Iuperj, Almeida prepara o lançamento de “A Cabeça do Eleitor”, que também se apóia em uma pesquisa. “É sobre o que o eleitor leva em consideração no momento em que faz sua escolha”, resume o sócio do Instituto Análise, empreendimento que prentende transformar em seu QG de consultoria.

Você se surpreendeu com os resultados da pesquisa que deu origem ao livro “A Cabeça do Brasileiro”?

A pesquisa me surpreendeu em dois aspectos. Em primeiro lugar, porque o quadro é muito ruim. Claro, depois que você pára para pensar, a surpresa deixa de ser surpresa. Mas em geral a situação do Brasil é muito ruim. O brasileiro tem uma mentalidade muito arcaica, antiga, atrasada. Quando você pega todos os resultados juntos e vê o panorama total, é surpreendente. Eu não esperava, por exemplo, um conservadorismo tão grande com relação às práticas sexuais. Ficou claro que o brasileiro é um falador. Fala mais do que faz. O segundo aspecto que me surpreendeu na pesquisa é o valor que se dá à hierarquia, algo bem típico da obra do Roberto DaMatta. O brasileiro é hierárquico, e muito. Continua chamando o patrão de “senhor” mesmo que ele faculte ao empregado chamá-lo de você…

A surpresa, então, vem menos do atraso e mais da proporção que assume?

Exatamente. No fundo, eu esperava menos. Só que, aí, você se debruça sobre os resultados e começa a ver melhor… A escolaridade do Brasil é uma das piores do mundo. Quando tomamos a Europa, Portugal tem uma das escolaridades mais baixas. Quando tomamos as Américas, isso se aplica ao Brasil. Não é por acaso. Tal pai, tal filho. A cultura portuguesa que não valoriza a escolarização foi trazida para o Brasil. Por isso somos assim.

Um traço do nosso atraso seria a falta de confiança nas instituições?

O brasileiro confia realmente na família – muito mais do que em qualquer outro grupo social: amigos, colegas de trabalho etc. A confiança na família é gigantesca. Esse familismo muito forte explica por que se empregam tantos parentes em cargos de confiança.

O nepotismo, que tanto escândalo gera, seria então algo muito natural na cabeça do brasileiro?

A sociedade inteira faz isso. Basicamente, o que acontece é que a gente fica muito indignado com os políticos, mas o livro manda um recado diferente. Ele está dizendo que não são os políticos a fonte do problema. É a sociedade. A sociedade é assim. Costuma-se dizer: “Ah, ele foi eleito e se transformou”. Errado. O político, quando foi eleito, não mudou. Ele foi criado naquela sociedade e é produto dela. Ele confiava na família antes de ser eleito, e continuou confiando depois de eleito. Qualquer um que fosse eleito faria a mesma coisa. Esse é que é o problema. Não adianta você esperar as mudanças mudando o governo. O governo é resultado da sociedade.

Como esse familismo se manifesta nas empresas?

Se a sociedade é familista, você entende, por exemplo, por que no Brasil você tem tantas empresas familiares. E quem instituiu as empresas não-familiares não foram os brasileiros. Foram as multinacionais, que chegaram aqui com outra ideologia, outra cabeça. No Brasil, em alguns lugares a empresa é familiar, mas passou a exigir qualificação do familiar. A Gerdau, no Sul, é assim: o mais qualificado sucedeu o Jorge (Gerdau Johannpeter). Mas isso é raro. E o familismo também aparece em multinacional. Às vezes, alguém que tem poder em uma multinacional emprega um parente seu, ou da esposa.

É um traço que pode ser percebido em todas as classes, indistintamente?

Mesmo no nível superior completo, 96% confiam em primeiro lugar na família. É quase 100%. A questão é que, no nível superior, a diferença entre quem confia na família e quem confia sobretudo nos amigos é de 35 pontos percentuais. É bem menos do que no segmento de escolaridade baixa. Ali, a diferença em favor da família é de 60 pontos percentuais.

O que há de medieval na cabeça do brasileiro?

No fundo, muita coisa. Avaliamos a a visão que o brasileiro tem do destino. Resultado: 60% acreditam que todo o destino, ou grande parte dele, está nas mãos de Deus, e os homens não controlam nada, ou são capazes de mudá-lo muito pouco…Acham que tudo está nas mãos de Deus – ou quase tudo…E só 14% entendem que não há destino. Isso eu considero um quadro de idade média, que justifica muitas coisas. “Ah, estava no lugar errado, na hora errada. É o destino. Deus quis…”

É um indício de que os brasileiros acreditam muito em Deus e pouco em si.
De fato. Quando você junta o familismo e essa visão fatalista, depara com um limite importante para a atitude de empreender. Aquela coisa: não sobrou nada para eu fazer, tenho de abrir uma birosca. Não há empreendedorismo.

A pesquisa flagra uma conexão entre postura estatizante e baixo nível de instrução dos brasileiros. Mas há brasileiros cultos com essa mesma visão.

Vou falar uma coisa que serve para todas as respostas da pesquisa. A sociedade tem uma massa critica, isto é, uma certa quantidade de pessoas que pensam de um jeito. A nossa massa crítica de grau superior é pequena. Ela tem muito pouca capacidade de mudar ou influenciar a grande massa que tem escolaridade baixa. Se, em vez de 10%, tivéssemos 30% dos brasileiros com ensino superior, o Brasil seria muito diferente. Teríamos uma massa crítica brutal, gigantesca. Na situação de hoje, até mesmo quem tem escolaridade mais alta está num ambiente em que todo mundo quer o governo. E aí é complicado você também não querer o governo, ou querer menos governo.

O que nutre o sentimento antiliberal do brasileiro e como ele se expressa?

Uma pessoa que teve acesso à educação e perde o emprego não fica desesperada. Preocupa-se, claro, mas tem uma poupancinha, sabe que vai ficar algum tempo até arranjar outro emprego, que até pode não ser tão bom, mas se sente capaz, tem confiança em si. O cara que está lá embaixo, se perder o emprego, vai rezar, vai pedir auxílio ao governo, vai fazer promessa, entendeu? Esse cara tem uma vida mais insegura, e por isso acaba querendo mais governo, mais Estado, menos mercado, porque isso dá uma sensação de proteção – embora eu tenha minhas dúvidas de que isso proteja alguém. Já as pessoas com escolaridade mais alta se sentem mais autônomas. Como a escolaridade do brasileiro está aumentando, o Brasil tende a ficar mais liberal do ponto de vista econômico. Mas hoje ainda vejo o brasileiro esperando do Estado muito mais do que seria razoável.

O que não é razoável na expectativa que o brasileiro tem da ação do Estado?

Esta semana, vi um governador fazendo uma exposição sobre as ações da sua gestão. Havia coisas do tipo “fomento ao empreendorismo” e “fomento aos valores éticos da sociedade”. Isso é ridículo. Onde já se viu governador fomentar empreendedorismo? Não seria muito melhor o governo fazer o básico, isto é, educar a população? Depois, a população se vira. Ela vira empreendedora. O governador está sendo ridículo? Não. Ele faz isso porque a sociedade quer que ele aja assim, e cobra. No Brasil, a pressão é para o governo fazer tudo. Todo mundo pede tudo aos governantes. Então você tem aumento do gasto púbico, déficit fiscal. Tudo por causa dessa visão de mundo que está baseada na escolaridade baixa e na extrema pobreza.

Essa mesma visão está presente, contudo, em populações com alta escolaridade. Na Europa, por exemplo.

Toda sociedade tem suas diferenças. A França é muito mais estatizante que os Estados Unidos e que a Alemanha, por exemplo. Essas diferenças culturais existem, não tenho a menor dúvida, mas não entrei nisso em meu estudo. E acredito que, à medida que aumente a nossa escolaridade, o Brasil irá se tornar mais americanizado. E imagino que na França tenha acontecido o mesmo.

Você tem dito, com base nesse estudo sobre o brasileiro, que Petrobras e Banco do Brasil não serão privatizados tão cedo. Mas desde a última década várias privatizações foram realizadas.

Esta afirmação sobre Petrobras e Banco do Brasil, que são símbolos nacionais, é uma provocação. É que, com a mentalidade estatizante do brasileiro, não há como imaginar que essas empresas possam ser privatizadas. Ao menos em condições normais de temperatura e pressão, isso é improvável. Não tem saída. Para privatizar, só mudando a mentalidade da sociedade. A resistência é e será muito grande a qualquer tentativa de privatização desses símbolos. Quanto às privatizações do governo Fernando Henrique, a rejeição existia, mas houve tolerância em função de que a inflação estava sendo, enfim, derrotada.

O brasileiro que não é corrupto está a um passo da corrupção?

O problema é a cultura do jeitinho, que é a quebra de uma regra. O brasileiro tolera essa quebra, ele não é rígido em relação ao cumprimento da regra informal. Então, está a um passo da corrupção. Dar um jeitinho é visto como um comportamento sempre certo na opinião de 9%, e certo na maioria das vezes para 41%. Somente 18% dos entrevistados consideram o jeitinho sempre errado…

Haveria uma certa hipocrisia – a de repudiar o jeitinho somente quando ele beneficia os outros, e não a nós?

Pois é, dependendo do lado do balcão em que você está, a opinião sobre o jeitinho muda… O jeitinho é uma zona cinzenta moral. Aquilo nem sempre é errado, nem sempre certo, depende da situação. No fundo, é isto.

A pesquisa mostra um Brasil ou vários? Há nuances regionais muito marcantes?

Veja, os habitantes do Rio Grande do Sul cantam o hino do seu Estado. No Rio de Janeiro isso não existe. Nem sei como é o hino do Rio. Nunca ouvi tocar. Em São Paulo, em todo lugar tem a bandeira. Nem sei direito como é a bandeira do Rio de Janeiro. É claro que o Brasil é diferente, regionalmente. A culinária é diferente, o sotaque idem. A pesquisa não investigou isso. Dentro das perguntas da pesquisa, o que diferencia o Brasil é o nível de escolaridade. Nós dois, por exemplo. Eu sou carioca e você é gaúcho. Nós pensamos parecido em relação aos valores da pesquisa, pois nossa escolaridade é semelhante. O sujeito com escolaridade alta no Nordeste pensa de uma maneira muito parecida com a do sujeito de escolaridade alta do Sul e do Sudeste. Esse o corte principal do Brasil. Não se trata de um corte regional, e sim de um corte de escolaridade.

O fator educação acaba, também, produzindo desníveis regionais?

Sim. O Nordeste é uma região mais atrasada que o Sul. Por quê? Por que a massa crítica de escolaridade baixa é muito grande na Região Nordeste. O resultado disso é que o Nordeste se mostra muito mais conservador e tradicional do que o Sul e o Sudeste. Mais até que o Centro-Oeste e o Norte, regiões que apresentam forte colonização do Sul. 

 



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3 Respostas para “Nas mãos de Deus – e do Estado”

  1. Rodrigo Loureiro Medeiros falou:

    A revista CartaCapital publicou uma resenha sobre o livro do Almeida e foi dura com o autor. Segundo a revista, falta ao autor um aprofundamento do papel histórico das elites. Nesse quesito, bastaria ler a trilogia do José Murilo de Carvalho: ‘A construção da ordem’; Os bestializados’; e ‘A formação das almas’. Títulos editados pela Companhia das Letras.

    Responsabilizar “a sociedade”, como se a mesma fosse equitativa e homogênea me parece conveniente ao projeto de poder da manutenção do status quo. Tal fato busca isentar as elites econômicas, políticas e intelectuais de qualquer responsabilidade.

    Penso que se trata de uma perspectiva sociológica pobre.

  2. Gustavo dos Santos (meus artigos clique) falou:

    Concordo Plenamente!
    De fato, a Luciana comentou na linha correta, não são os políticos os culpados. Mas certamente não é a socidade.
    Há uma estrutura de poder construída historicamente e que se baseia em crenças equivocadas chamadas hoje de neoliberalismo e que são alimentadas por grupos interesses enquarteirados principalmente no setor financeiro e na mídia. Esses são os Donos do Poder que reforçam o Estado das coisas.
    Esse autor passa ao largo de tudo isso, o que só mostra seu profundo conservadorismo e mediocridade.
    abraços

  3. Rodrigo Loureiro Medeiros falou:

    O professor Luiz Werneck Vianna, sociólogo do IUPERJ, vem defendendo a tese de que as elites brasileiras sofrem de uma grave patologia histórica, isto é, só aceitam mudanças que não modifiquem o status quo. Um drama similar, diria Giuseppe di Lampedusa, ao vivido pelo Sul da Itália no seu momento de unificação nacional.

    Como seria possível conduzir um processo de desenvolvimento econômico sustentado e equitativo sem reformas de base em um país como o Brasil? Celso Furtado descreveu ao longo de sua grande obra os mecanismos de “fuga para frente” empregados pelas elites latino-americanas (Cf. ‘A economia latino-americana’. Companhia das Letras, 2007). Conservadorismo político e tradição primário-exportadora formam um perverso binômio de exclusão das massas nos processos decisórios.

    Já se viveram diversos tipos de processos inflacionários no período republicano brasileiro: inflação por desvalorizações de câmbio (Primeira República); insuficiência crônica de demanda e capacidade ociosa (substituição de importações); crise da dívida externa e desorganização das finanças públicas (década de 1980).

    E agora estamos presos à ortodoxia de galinheiro do neoliberalismo, que mal consegue realizar um trade-off razoável entre controle da inflação, nível de emprego e formalidade e desempenho global da economia. Segundo a CEPAL, a taxa de precarização das relações de trabalho (desemprego mais informalidade) é de 49% para a população economicamente ativa no Brasil. Isso seria um escândalo nos países mais desenvolvidos e sérios.

    Abs.

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