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Estratégia de desenvolvimento: símbolos e sociedade

Posted By Imprensa On 11 abril, 2008 @ 3:00 pm In Conjuntura,Desenvolvimento,O que deu na Imprensa | No Comments

No artigo a seguir João Sicsú destaca a importância da sociedade lutar por aquilo que acredita e deixar fluir o nacionalismo, e desta forma, caminhar para o desenvolvimento.

*Postado por Kátia Alves

Publicado originalmente no Valor [1]

Por João Sicsú

“Nenhuma questão me obcecou tanto como esta: porque eles encontraram o caminho certo, o do desenvolvimento, e nós o errado, o do subdesenvolvimento?” – Celso Furtado

Uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil deve ser composta de três partes. A primeira é o ponto final, ou seja, para onde se quer levar a sociedade. A segunda é a trajetória macroeconômica que deve facilitar a chegada ao ponto final. E a terceira são políticas públicas que devem objetivar, por um lado, fazer justiça social e, por outro, auxiliar a continuidade do desenvolvimento – por exemplo, políticas educacionais, políticas ambientais, políticas de redução das desigualdades de renda e de riqueza.

Uma estratégia de desenvolvimento, entretanto, para ser factível deve, acima de tudo, emular o imaginário da sociedade, transformando-se em sonho, em utopia e orgulho. Políticas sociais, políticas macroeconômicas, instrumentos, objetivos, metas, atores e mecanismos de avaliação devem, de forma inescapável, compor uma estratégia de desenvolvimento, mas se ela não for transformada em sonho que movimenta a maioria dos cidadãos permanecerá apenas como uma carta de belas intenções.

A sociedade desejada deve ser sonhada. Por vezes, a sociedade sonhada situa se no passado ou em outro lugar, sonhá-la significa imaginá-la e desejá-la. O que faz os sonhos e as atitudes emergirem é a sensação de “unidade rompida”, é a indignação com a falta de alguma coisa idealizada (e desejada) que se contrapõe à realidade presente não desejada (“a vida como ela é”, na expressão de Nelson Rodrigues). Uma estratégia de desenvolvimento deve, portanto, buscar romper com qualquer tipo de conformismo e mostrar que um futuro melhor é factível através da ação da sociedade.

Indivíduos têm percepções diferenciadas da realidade presente, do passado e do futuro. A forma mais conhecida de aglomeração de indivíduos – que são e devem continuar sendo heterogêneos, com diferentes interpretações sobre a realidade – no interior de mobilizações sociais, tem sido através da criação de símbolos. Estes sintetizam sensações, emoções e idéias que são a base da adesão e da movimentação de aglomerados sociais.

Símbolos substituem momentaneamente a realidade desejada, mas ainda não alcançada. Um símbolo nítido, ou seja, que tem um significado muito claro, é capaz de absorver múltiplas dimensões dos sentimentos e desejos. Essa capacidade de absorção social é a magia dos símbolos que permite aglomerar milhões de indivíduos heterogêneos. Símbolos convergem os diferentes em busca do comum.

Uma estratégia de desenvolvimento deve mostrar que um futuro melhor é factível através da ação da sociedade.

Símbolos são imagens, slogans ou coisas assemelhadas. Símbolos sintetizam sonhos, isto é, a realidade invisível e desejada. Enfim, símbolos são sínteses de idéias, de projetos, de futuro esperado. Símbolos são também necessários porque são formas de substituição de líderes únicos. Uma estratégia de desenvolvimento deve prescindir da ação de um líder (com suas idiossincrasias e desejos particulares), o que torna idéias e ideais em movimentos sintetizados por símbolos algo absolutamente imprescindível.

O slogan “O petróleo é nosso”, que movimentou grande parte da sociedade brasileira para criar a Petrobras, no início dos anos 1950, é um exemplo de símbolo que representou uma utopia que envolvia soberania e nacionalismo. A Petrobras foi criada para ser monopolista de alguma coisa que à época inexistia: era puro sonho que se torna realidade a cada dia, a cada ano – e cada vez mais. O movimento pelas “Diretas já” (em 1984) sumariou sonhos de milhões de brasileiros por um país democrático. Os estudantes “Caras Pintadas” que tomaram as ruas do país (em 1992) exigindo o impeachment do presidente Fernando Collor representaram um movimento contra a corrupção e pelo aprofundamento da democracia. “O petróleo é nosso”, as “Diretas já” e os “Caras Pintadas” foram símbolos construídos pelo movimento dos movimentos da sociedade.

Há, portanto, um elemento importante de uma estratégia de desenvolvimento: os símbolos – que podem não ser criados em laboratórios ou gabinetes. O slogan “Diretas já” não teve dono. Apreendido por milhões, passou a ser uma marca coletiva. E quem imaginou que “Caras Pintadas” poderiam representar a indignação de milhares de jovens? Símbolos podem resultar da mobilização em torno do debate amplo e organizado sobre a rejeição da “vida como ela é” e a construção do novo. Sendo assim, uma estratégia de desenvolvimento não é um plano de governo detalhado, assim como não deve conter respostas para a lista infindável de questões que afligem a todos os cidadãos brasileiros. Contudo, uma estratégia de desenvolvimento somente poderá ser construída no debate com a sociedade a partir de linhas gerais que descrevam: (I) objetivo final – um país em que questões materiais não sejam barreiras instransponíveis à felicidade e (II) trajetórias – políticas públicas, macroeconômicas, procedimentos e regras para se formatar e reformatar continuamente um novo país desenvolvido.

Um outro elemento essencial de uma estratégia de desenvolvimento é o nacionalismo. O nacionalismo é o sentimento que emerge da forma que o mundo moderno se organizou territorialmente. O nacionalismo emerge da forma Estado nação. O indivíduo, membro de uma sociedade que está organizada dentro de limites geográficos limitados, tem a sensação de pertencimento àquele espaço nacional. Ele sente necessidade e orgulho de defender o seu território e de participar de “competições” – bélicas (se for necessário), esportivas e econômicas – enfrentado outros Estados-nação.

Em uma estratégia de desenvolvimento, as perspectivas individual e a nacional devem caminhar juntas. Enquanto a primeira preserva as diferenças, a segunda une, transforma todos em iguais. Ambas são essenciais. Por um lado, a perspectiva da individualidade reforça a idéia de liberdade que não leva em conta os demais; por outro, a perspectiva nacional reforça a idéia de defesa do coletivo, que leva necessariamente em conta todos. A esfera nacional é o momento em que o indivíduo está superado, em que grupos, corporações, segmentos, classes e castas sociais (e todos os seus interesses particulares) também estão superados pela união. Nesse sentido, a perspectiva nacional dentro de uma estratégia de desenvolvimento deve representar a solidariedade de interesses entre trabalhadores, empresários e Estado na busca de novos mercados, mais empregos e maiores salários dentro da competição global com outros Estados nação.

A bandeira do desenvolvimento deve ser, portanto, uma bandeira de Estado e da Sociedade.


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[1] Valor: http://www.valor.com.br/

[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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